Entrevista com o punk mais sobrevivente que você pode conhecer, Fabio Luiz Altro

por - 15:14



Ele teve que segurar o celular porque o barulho do mar atrapalhava a gravação. vish.

Um belo dia resolvi que deveria fazer um perfil do Nenê Altro pra faculdade. Poxa, o cara tinha muita coisa pra falar e seria bem interessante entrevista-lo, afinal, sempre quis isso. Foi mais na porra loucagem do que achando que iria realmente rolar, pois o Nenê estava numa baita correria. Mandei um email pra ele e fiquei um tanto quanto surpreso, ele topou fácil fácil. Beleza, ele quer, agora só falta conseguir descer pra Praia num dia de semana pela manhã. Consegui.

Numa terça-feira qualquer, quando você estava indo trabalhar, eu estava lá no metrô Jabaquara, procurando passagem para ir até onde tínhamos combinados de nos encontrar. A viagem foi suave, uma hora e meia mais ou menos e eu já estava na Avenida da Praia, sentindo aquela brisa maravilhosa e tendo que pagar R$1,00 pra dar uma mijada. Mas é isso aí. Leis do litoral.



Toda essa entrevista é fruto de um bate papo que durou cerca de 2 horas, de frente para o mar, brisa fresca na cara, aquela calmaria de São Vicente fora de temporada (foi em Outubro de 2011) e tudo o que um bate e volta de Cometa pode te proporcionar.Lembrando que essa entrevista serviu de base para aquele texto que foi postado aqui, “E Nunca Mais Atirar Lírios aos Anjos” e alguns, poucos, trechos da fala, serão comuns a vocês. Mas o material está bem interessante e bem legal, por isso resolvi compartilhar a PRIMEIRA PARTEda entrevista que fiz com o Nenê Altro.Provavelmente daqui um tempinho, espero que pouco, entre no ar a segunda e última parte da entrevista. Resolvi dividir porque eram 16 páginas do Word em Calibri 11. Imagina isso aqui no blog. Ninguém ia ler. Bom, é isso, espero que vocês se divirtam lendo tanto quanto eu quando fui lá.





Sem anti-reflexo. Cólera e Crass, vai pensando que você é punk porque tem o Never Mind The Bollocks em mp3




Como é pra você ser um mentor de uma geração?

Acho foda, apesar de não curtir essa nominação de mentor, mas acho muito legal influenciar porque foi mais ou menos o que aconteceu comigo também. Pra eu estar aqui eu tive pessoas que me inspiraram. E eu acho que dá uma sensação de continuidade muito boa. Se não tivesse existido Cólera, Inocentes, Restos de Nada, eu não estaria aqui. É legal porque tenho a oportunidade de passar umas ideias para essa molecada. Do mesmo jeito que aconteceu comigo quando eu era moleque. Eu fui influenciado pelo punk e aprendi muita coisa, tive ideias a minha frente para selecionar o que fazer e o que não fazer. Você vai aprendendo e filtrando o que acha de melhor. Teve um tempo que a molecada ficou muito perdida, então eu acho legal, principalmente hoje, ter esse poder de influencia. Não pra fazer a cabeça de ninguém, mas pra mostrar uma alternativa.Nessa de punk, geração... quando você começou a despirocar mesmo? Que sua mãe e seu pai falaram “agora ninguém segura”?



Acho que foi com uns 14 anos, deve ter sido lá pra 86. Foi a época que eu comecei mais a entrar de cabeça no punk mesmo e tal. E no final de 87, 88 eu comecei a ir a shows na cidade e aí não deu pra segurar...

Foi bem aquela fase Suburbia né?

É isso aí.

Eu jurei que não ia perguntar isso, mas acho que não tem como. O que você acha da molecada Straight Edge que fica apontando o dedo pra você e etc? Se não fosse você, o Kalota, um pessoal das antigas, muito deles não estariam nem ali...

Meu rompimento com o Straight Edge daqui de São Paulo foi uma briga pessoal que aconteceu ali no meio em 1997. Nada além disso. Parte por causa deles, da cultura de grupo pesada e histeria coletiva que havia, que é algo que sempre vai acabar dando merda, e boa parte por minha culpa também, por agir várias vezes na época como um sociopata dissimulado. E até então eu não tinha nada contra. Tanto que quando eu rompi com eles em 97 eu continuei Straight Edge no Sick Terror até 2004. Então, já com o Dance, com o Sick, eu continuei xxx por muito tempo depois de toda essa briga. Ter deixado de ser straight edge não teve nada a ver com meu rompimento com a cena local. O que me afastou do Straight Edge foi que ele se distanciou da política de esquerda, se afastou do anarquismo e essa nova dissidência começou um negócio cristão esquisito de direita. Foi por isso que me afastei do xxx, porque começou a ficar meio “cultura de vestiário masculino”, os caras gritando junto pra sair voz de coro, independente de ter algum conteúdo nos gritos. Perdeu todo o sentido político de ser. Eu acho o Straight Edge muito foda naquela raiz de Washington, na pegada Minor Threat, que tem muita coisa de boa pra trazer pra molecada, até hoje, mas se for de NY pra frente, principalmente depois da Revelation, depois da fase Youth of Today, quando começou o metal Earth Crisis e da fase Victory Records pra frente, eu acho tudo negativo, cristão e bobo. E falo isso com propriedade porque, mesmo me envergonhando um pouco, eu segui essa onda Victory um tempo até cair a ficha de que estava fazendo merda.




Eu colei na última Verdurada e vi que rolou depoimento seu naquele documentário que os caras estão fazendo sobre o hardcore e vi alguma meninada de 16 anos virando e comentando “o cara traiu...”
Engraçado que a maioria das pessoas que apontavam os dedos foram os primeiros a cair. Então é aquela questão, acho que você não pode cuspir pra cima nunca, porque que cai na testa e essa coisa assim é muito de grupo. É igual quando o cara ama o jogador de futebol, mas se ele muda de time, ai o pessoal vai lá explodir a escola do filho dele que não tem nada a ver saca, são umas coisas meio assim... A verdade é que é todo mundo meio desequilibrado nesse meio e é difícil lidar com gente desequilibrada... e eu não tô me excluindo não (risos).Falando nesse lance de desequilibrado... você passou por uma fase foda na sua vida em 2005, aquela época do Lírios...

Na verdade foi uma fase de 6 anos, de 2004 até 2010 mais ou menos a que eu consegui sobreviver. O que tirei de bom disso coloquei em música. O ruim foi que aconteceu bem assim: no final de 2004 eu larguei do Straight Edge, daí eu estava desiludido com toda a cena política daqui, com a cena de fora, tinha acabado de chegar de uma tour exaustiva pela Europa, tive um monte de problemas pessoais e eu acabei entrando em depressão, mesmo sem perceber, e acabei convivendo com um meio que nunca foi o meu meio, sabe? Que era esse meio de balada, de noitada, de bebida e não sei o quê e eu acabei me afundando. Porque me fazia esquecer, rir de tudo. Mesmo sendo mentira. Cara, e é um meio de viver que, primeiro você tem aquele costume de falar mal da propaganda do governo – e lógico que eu sempre vou falar mal só porque é do governo -, mas de verdade, cara, são mesmo páginas em branco na sua vida. Parece que você viveu um dia só muito longo, que nunca é um dia diferente, você não consegue lembrar das coisas direito... e eu vivi isso por 6 anos. Não vou recriminar as coisas produtivas que produzi, as músicas que me ajudaram a desabafar, coisas assim, mas recrimino sim tudo que perdi e tudo que deixei de viver. Por minha própria culpa, não pelos outros.

Tanto que pra mim, fazendo uma alusão, seria o seu “Your Funeral My Trial”, quando o Nick Cave tava zuadaço na Alemanha...

É, o Lírios foi uma fase que eu estava em choque, foi bem numa fase de transição. Eu tava vindo do Valsa e entrando pro caminho do Insônia, entrando por um lado que era muito deprê e de conflito interno. Por exemplo, um lado o Lírios tem uma música que é super positiva, que é Interlúdio, e outro tem Gregor Samsa, que é total corta pulso. Então é uma coisa relativa, e o Lírios é um álbum que demonstrou muito essa mudança na minha vida. E foi foda, porque só de você ver as fotos de divulgação desse disco, eu tô com uma cara horrível, tipo de acabado. Eu não dormia, vivia triste mesmo quando sorria, então não é uma fase muito boa. Mas é como às vezes eu falo pra Nicolle, eu tive que passar por aquilo. Senão eu não estaria com a mentalidade que eu estou hoje. Na época pré-Lírios eu ainda tinha uma mentalidade muito imatura, eu ainda falava um monte de coisa sem pensar, de uma maneira de falar e de me relacionar com o mundo que eu arrastava desde lá de trás, da fase dos anos 90 em que rompi com a galera straight edge. Hoje, após todo esse expurgo, tô com uma mente muito mais centrada. Acho que esse inferno acabou servindo pra isso.




E a gente tava lá, trocando uma ideia e pá



Nesse inferno, você acabou caindo na droga. Como foi isso?
Foi uma merda. A droga é a pior merda que existe. Porque além de você ajudar o cartel, você se fode. A diferença do alcoólatra pro viciado em droga é que o alcoólatra às vezes tem aquela mania de ficar bêbado sozinho e não querer dividir o álcool, e o viciado em droga não, ele sempre quer que você afunde junto. Ele quer dividir a culpa. Então ele sempre chama “vamo ai, vamo ai”, só faz piadas que falam de droga, que lembrem a droga, e aí é difícil de sair, porque você acaba tentando arranjar milhares de desculpas... E eu arranjei milhares de desculpas pra não sair, tentei até achar um “sentido rebelde” ridículo para aquilo, e, na verdade, essa foi a pior merda que eu fiz na minha vida. Mas tipo, por outro lado, para muitas pessoas que não entraram nisso, tá servindo de exemplo: “olha, aconteceu isso com o Nenê”. E muita gente que tava nisso nessa época tá vendo o exemplo que eu tive, que é possível sair disso, pra sair também. Eu tô vendo cada vez menos moleques acabados nos shows. Tá sendo bem legal.Nessa época também você era alcoólatra... acabou dando uma diminuída?

Total e eu vou te falar, diminuir o álcool foi mais difícil do que diminuir a droga química. Porque o álcool, ele te dá aquela sensação de “posso beber mais um pouco”, mas não é assim, ele vem e te pega de uma vez. Tive que cortar primeiro as bebidas que me deixavam transtornadas, por exemplo, Dreher, depois quase todos os destilados de gente pinguça, copo de plástico por 3 reais saca, e por fim a cerveja da maneira que bebia. Hoje eu bebo uma cerveja, às vezes sento aqui com ela (Nicolle), com os amigos e bebo e é isso, e eu não preciso beber pra sair da realidade. Eu bebo porque gosto de beber e de me divertir com os amigos. E sempre tem gente boa pra beber também, se você bebe com gente que é depressiva ou que quer beber pra acordar com a boca na sarjeta é ruim, porque se você tem isso no seu passado, se você tem esse comportamento na bagagem, vai acabar indo junto e é tudo o que eu não quero pra mim, por isso eu cortei muitas pessoas também.

Pode crer... eu vi em algumas entrevistas que você rompeu com um monte de gente do passado...

Cara, mais de 90% das pessoas do meu passado, por mais que eu não tenha briga, eu não me relaciono hoje justamente por isso, porque ou por elas ou por mim, essa relação me arrastava para lugares que eu não queria ir. Então eu tive que mudar meu ciclo de amigos. Muitos não entenderam, falaram mal, me chamaram até de hipócrita, mas foda-se, eu tive que pensar em mim.

E o que os fãs acharam dessa mudança do Nene Altro do “Funerais II” para o Nenê de hoje?

Vou te falar que isso foi com o que menos me importei. Eu queria viver e estar bem. Tanto que eu escrevi isso no Disco Preto, que foi um disco de libertação, que eu queria estar bem comigo e foda-se o que os outros pensem. Se eles me preferiam junkie que vão gostar de outra banda, que vão pra shows de bandas que fazem esse tipo de apologia e cada um na sua. Não recrimino, cada um no seu gosto. Porque eles não vão mais encontrar isso em mim. Isso eu posso afirmar! E não me importa que as pessoas parem de gostar de mim por causa disso nem um pouco. Acho que quem gosta vai continuar gostando e até outras pessoas podem gostar.

Depois da droga e do álcool, você tem algum vício hoje?

Olha cara, hoje meus vícios são mais positivos. Eu sou hiperativo, é uma coisa que eu tô tentando controlar um pouco, às vezes tento fazer várias coisas ao mesmo tempo, então eu tenho ansiedade por causa disso... acho que isso é o que mais me prejudica hoje. Mas estar aqui na praia tá me ajudando a conciliar as coisas, antes eu queria fazer um monte de coisa ao mesmo tempo e acabava não fazendo nada direito, agora eu tô tentando fazer uma coisa por vez. De vez em quando eu tenho uns surtos, faço algumas coisas que me arrependo, como qualquer outra pessoa no planeta, mas volto, tento arrumar e é assim... a vida é assim.

Como foi sair de São Paulo, porque você costumava morar no centro, e vir pra cá, para um lugar mais calmo...

Foi assim, primeiro eu tentei largar daquele ciclo vicioso lá, eu tava tentando desde 2009... 14 de setembro de 2009. Foi quando eu decidi largar de tudo, primeiro do estilo de vida que tinha, depois da droga, depois do álcool e percebi que enquanto eu morasse lá, no olho do furacão, não ia dar. Enquanto eu mantivesse aquele modo de viver... Eu relutei, tentei manter amigos, pessoas que eu gostava muito e mantinha perto, daí eu falei com eles, diziam que queriam parar mas agiam de maneira completamente contrária... as pessoas, o grupo com que eu me relacionava, sempre preferia continuar. Aí eu falei pra mim mesmo que ia sair, me dei um prazo de até completar 40 anos para estar livre de tudo isso e eu usei esse meu lado cabeça dura e teimoso como força. E gosto de cronograma (risos). Eu tô quase chegando nos 40, tô com 39, tem mais um ano pra eu me sentir completo, mas no momento eu tô me sentindo bem, acho que tô conseguindo me recuperar dentro do previsto.





Mudando um pouco de assunto... eu vejo que do coração de troia até o disco preto o pessoal te cobrava um disco punk, ai você vai, faz, e a mesma pessoa que reclamou começa a falar “mas eu queria uma coisa mais dança das estações”...
É verdade... (risos), é que o pessoal fala muito, estamos acostumados com isso. Eu até escrevi isso no encarte do Dança das Estações que vai sair em cd agora. Se a gente lançar outro disco diferente do Disco Preto, eles vão falar que gostam mais dele. A pessoa demora pra falar que gosta de algo novo. E tem também o lado que a gente lida muito com gente que quer se sobressair num grupo. Quer queira, quer não, esse grupo de fãs do Dance of Days acaba se tornando um grupo então a pessoa assim quer falar pros outros “eu sou mais old school”, só que o cara não tinha idade pra estar num show do Coração de Troia, não tinha idade pra estar no show do Six, mas ele reluta “não, mas eu sou”. E eu acho isso muito feio.Acho que todos os discos são diferentes e tratam de uma fase diferente, certo?

É isso. O pessoal não entende que cada disco da gente representa uma fase que estamos vivendo. Cada fase que estamos vivendo, colocamos num CD. Nós não sentamos e falamos “vamos escrever um disco assim”. É do jeito que sair porque é o que temos que falar. O História vinculou muito a gente à uma movimentação que estava acontecendo ali na época, que era um emo brasileiro que não tinha a ver com o lance do qual a gente veio, que era o do Embrace, Rites of Spring, Revolution Summer, e começou a surgir toda aquela coisa de colocarem a gente no mesmo saco e tivemos a necessidade de dar uma resposta de raiva daquilo, sabe? E foi o Coração de Troia, foi algo meio que “mano, a gente respeita, mas não somos isso”, viemos de outra escola, até mesmo dessa leva do At The Drive-in (apontando pra minha peita classe A do ATDI).

Vejo muito do ATDI no Coração de Troia...

Sim, e muito de Icarus Line, Refused, que a gente escutava muito ali na época do Coração de Troia também, e no mesmo disco tem Horizontes de Outono, por outro lado, que é uma música bem Mineral. O cara não pode falar que esse é um disco só old school e pesado, porque ali tem Caulfield, tem Tijolos Amarelos e Horizontes de Outono! O cara só tá falando de duas ou três músicas do disco, Correção, Tochas Para Joana e Macaco Com Navalha, então é muito relativo. Do mesmo jeito que todo disco do Dance, inclusive o História, tem músicas pesadas, tem Carro Bomba, Corvos do Paraíso... E o Disco Preto saiu assim porque foi um auto-questionamento, do tipo, o que eu quero e o que vou querer pra mim daqui pra frente, o que em mim eu tenho que levar e o que tenho que deixar. Na música Estorvo, eu falei do Punk, da minha relação com o punk. E também do lado de que ao passo que você vê uma molecada bem esperta por outro as pessoas estão se matando por aí por nada. Meia dúzia de moleque analfabeto da periferia se esfaqueando parece falar mais alto que toda uma cena de coisas positivas, e o pior de tudo é ver gente que cumpriu o ensino médio e com potencial indo andar com esse povo. E o Disco Preto foi um disco de esperança, uma mensagem “vamos se unir e fazer algo legal”.





Como em Essa é a Hora de Uma Nova Partida que contou com o Kalota...


Sim! Toda essa mensagem positiva. E eu fiz questão que fosse o Kalota pra dar um chacoalha de que essa treta com os XXX de São Paulo acabou em 98, 99 e em 2004 foi o fim até pra mim. Mas às vezes vamos tocar no interior e tem gente cruzando o braço e resmungando, e isso não existe, é um absurdo, queremos mostrar que isso acabou tem 10 anos e eles estão atrasados.


Mudando o rumo todo aqui, vamos pro seu lado escritor. Você escreveu o Os Funerais do Coelho Branco e eu vi que teve um descarrego ali. Esse seu novo livro é mais ou menos nesse naipe?


Não, acho que não. Posso até dizer que é o mesmo jeito de escrita. Mas o Funerais representa o modo que eu vivia na época, tanto que ele é meio sem pé nem cabeça, porque eu vivia uma fase sem pé nem cabeça. É um livro sem começo nem fim e é igual eram meus dias naquela época, eram dias sem começo nem fim. E esse livro novo, O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink, quando comecei a escrever ele, foi quando decidi mudar. Eu tive um acompanhamento cronológico, desde 2009, no blog, nas letras do Mal de Caim, e eu fui acompanhando aquilo e montando num bloco de notas, pegando textos que estavam no blog, nas músicas, algo que estava ali no e-mail, no antigo fotolog, cronologicamente, e fiz. Essa é a grande diferença dos dois livros: o Diabo teve um começo e um fim. Principalmente um fim.


Reza a lenda que você tá escrevendo um romance, é verdade?


Eu quero escrever muita coisa. Rabisquei algumas coisas, mas aprendi algo, não vou ficar me forçando. O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink, acabou me deixando muito nervoso, porque me forcei a escrever ele pra colocar um fim nessa era. O próximo livro eu quero escrever de boa, vai sair quando tiver que sair, então não digo nem que será em 2012. Vai ser quando tiver que ser. Comecei escrevendo umas coisas meio romance, meio diferentes e vamos ver né... é meio fora do meu estilo (risos).


O que você lê e o que te influencia a escrever até hoje?


Não sei dizer. Porque minha primeira formação foi a literatura anarquista. Meu jeito de falar em discurso, em texto, eu não escreveria se não fosse o Malatesta, se não fosse todo esse tipo de discurso dessas pessoas, do George Woodcock ao Bakunin. O jeito de me expressar veio deles. Se fosse há um ano eu falaria do Bukowski, mas ele não diz mais nada pra mim. Mas eu gosto da poesia. E eu não sou poeta, eu escrevo letras de música. Se você for pensar bem, meus poemas são letras de música sem melodia.


Não tem um cara que te trouxe isso então, um poeta?


Não, não... eu até evito ler poesia nessa fase mais criativa. O pessoal às vezes não entende, manda umas poesias e diz “le ai”, mas eu não gosto. Não que eu não valorizo, eu curto demais, mas tem dois lados: primeiro eu não gosto de ter nenhuma influencia que não seja a minha no momento, o segundo, porque já tive muitos problemas com gente desequilibrada que pensou que eu estava copiando o que eles escreviam.


Sério?


Sério. Pra evitar isso e perder a amizade com as pessoas, eu prefiro não ler. Respeito, incentivo pra caralho, mas sempre dou uma driblada.


Mas rolou isso com gente famosa?


Não, não, na verdade mais com gente que até curte meu trabalho mas que se acha proprietária dele.





Você vive de música independente e sei lá às vezes vejo um pessoal mais novo querendo começar e tá todo mundo em cima: pai, mãe, tio, tia, avó, falando: “isso não dá futuro, vai trabalhar e pagar suas contas”Na real não é bem assim. Eu não vivo só da música independente, eu tenho um trabalho que faço dentro da cena mas, como praticamente todo mundo que quer trabalhar inserido na cena, tenho também que ter um tipo de trabalho paralelo mais “normal” flexível, que possibilite ter tempo para minhas atividades na cena independente. Por exemplo, o Tyello tem um estúdio, tem gente que trabalha em bar, em loja. Então é um circuito de trabalho que gira em torno da cena, que te possibilita falar no trabalho que vai viajar de quinta a segunda pra tocar e que as pessoas entendam isso, por exemplo. Eu tenho uma produtora de shows e organizo apresentações pra 3 ou 4 bandas, 2 ou 3, dependendo da época, e uso os canais que tenho pra tentar conseguir algo pra eles, abrir caminhos. Esse é meu trabalho. Não tem nada a ver com minha ideologia ou com minha postura independente, apesar de estar envolvido. Desse trabalho eu pago minhas contas, não do que faço no independente. Agora, a pessoa achar que vai viver só de cena independente, ela não tem que viver na cena punk/hardcore, ela tem que meter as caras e viver que nem o Calypso que é uma banda independente que se deu bem (risos)! E é verdade mano, eles são independentes (risos)!

Eu vejo que você não para. Esses dias saiu zine, tava gravando, produzindo festival. Como consegue se organizar?

Eu tava falando com a Nicolle esses dias, ela me mostrou uma frase que falava que a utopia é algo irrealizável em certo sentido, mas que você coloca a frente porque o motivo dela existir é você continuar caminhando, e acho que é por isso que coloco várias coisas a frente, pra que eu não fique estagnado em uma coisa só. Eu vejo tanta gente com bom potencial, fechada numa coisa só que as vezes não passa de 8 anos ativa e vejo também muita gente que tinha tanta vida e que hoje não faz mais nada... Por isso sempre penso numa coisa que possa gerar algo adiante, e que em um tempo possa se virar sozinha. Eu fiz o Verão Revolução no início desse ano, pra semear, mas minha ideia desde aquela época é a de que neste ano que vai chegar, eu não estivesse ali tendo que organizar. Tanto que vai ter agora novamente em 2012, as pessoas estão se mobilizando, muita gente com muita atitude se envolvendo, mas eu já tô colocando pra todo mundo que vou organizar só 3 shows, não 30. Vou fazer igual todo mundo, um janeiro, um fevereiro e outro em março. Se as pessoas quiserem, elas vão ter que correr atrás, não vão ter que depender de mim nem de ninguém. Porque essa não é a ideia, centralizar é nocivo, e que em 2013 isso seja tão diferente que eu nem precise estar lá pra coisa funcionar. Possa só curtir os shows e atividades.

Então você da o pontapé inicial?

Eu semeio. Prefiro dizer assim. E cuido das sementes. Mas eu acho bem legal as pessoas terem consciência de crescer politicamente sozinhas e tal. Só é ruim ver quando a coisa desorienta. Então temos que semear mais coisas boas. Nessa nova cena por exemplo acho necessário que as pessoas evoluam para não deixarem a coisa virar comércio, festivais que vão arrancar dinheiro ou, no caso dos grupos punks que estão fazendo trabalho político hoje, que não deixem virar gangue, que não deixem virar uma coisa sem sentido. E vou sempre tentar cultivar mais gente. Acho que é esse meu trabalho, sempre estar cultivando.





E esta era a visão que tínhamos enquanto conversávamos. E aí?



Como você tá bem ligado com a nova geração do punk/hardcore, destacaria alguma banda atual?
Tem muita banda. Acho até injusto eu falar de uma ou outra. Acho que as bandas antigas que estão aí estão muito bem. Fui ver Inocentes esses dias e foi foda. Toda vez que o Restos de Nada toca é bem legal, o Invasores, o Cólera até mês passado tava no auge... o que foi uma tristeza de perda. Porra, você vê essas bandas novas, tipo Deserdados que nem é tão nova assim, crescemos juntos, mas cacete, puta produção legal, você vai nos shows, vê que a molecada tá envolvida. Acho que o lado positivo do punk, no lado das bandas, são as bandas positivas, não adianta você ter uma banda punk que incentive a molecada a autodestruição, isso não tá ajudando a cena. Se você se acha radical por isso, você não está sendo. Você tá afundando mais a molecada e sua opção pessoal pela boca na sarjeta não deve ser exemplo. Exemplo é “vai lá, acredita, vai em frente, se mova, cresça com o punk” e eu vejo sempre bandas que tem esse lado, crítico, porém positivo.Então é meio “olha, tô te mostrando isso”, não apontar o dedo na cara...

Ou que você aponte e diga “olha, vai fazer alguma coisa da sua vida, levanta”, não falando “você tem que ser assim”.

Meio Sick Terror então? Dar um tapa na cara e dizer “é assim que funciona”...

(risos) Pode crer, Sick Terror era assim. Você vê, com o punk mesmo. Essas facções que sempre surgiram, nasciam com um puta ideal bom, de resistência ao pensamento totalitário, toda essa coisa de resistência ao pensamento de gangue, e sei lá, acabavam se atrofiando com um monte de gente que não tem nada a ver e acabavam se tornando tão ruins quanto. Acabam cobrando ideias dos outros da mesma maneira que os autoritários cobram, por exemplo. Não é por ai que o punk deve caminhar. Isso é regredir. Regredir para o lado ruim dos anos 80, pra tudo de ruim que teve nesta época, não para o que teve de bom, e você tem sempre que ir adiante, não voltar para as cavernas.



Agora chegou o rango que o Nenê tinha pedido. Levantei, deixei ele e a Nicolle comer de boa. Fui ver a praia, de tênis, tipo paulistano idiota. E ele lá, mandando ver no rango.
Todas as fotos por Lane Firmo.EM PREVE A PARTE II

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6 comentários

  1. Mauricio Thom&eacute22 de março de 2012 19:59

    Curti pra caralho!

    Estarei esperando a segunda parte e o áudio!

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  2. Que bom que gostou meu amigo. A segunda parte logo menos tá no ar. Acho que até o meio de Abril...

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  3. Legal cara, manda ver na segunda parte que eu leio.

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  4. Opa, estamos providenciando isso. Se tudo der certo até metade de abril já está no ar. Ok?

    Abs.

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  5. Pô, muito legal. só conheço o valsa das águas vivas do dance of days mas achei bem interessante as idéias do cara. bem legal, de gente assim que ta faltando não só na cena punk/hardcore como em todas as outras...

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