Janeiro continua sendo o pior dos meses

por - 15:14


Era assim que alguns instrumentos ficavam no final dos shows.



Vista-se em lágrimas que jorrem sem cessar

 
O quarteto paulistano que tocou jovens com suas insanas apresentações e letras muito bem escritas

 
O Ludovic é uma das bandas mais injustiçadas da cena independente nacional. É bem capaz que você conheça Jair Naves, Quarto Negro, Hierofante Púrpura e Fire Drivene não dê conta que Jair Naves, Eduardo Praça, Hugo Falcão e Zeek Underwood já formaram um dos grupos de rock nacional – por falta de rótulo –, mais emblemáticos e furiosos que o país já contou. Vale lembrar que a formação citada acima foi a última, nomes como Julio Santos (baterista fodão que rodou uma par de banda legal) também passaram pela banda.Com influências que passavam do Mundo Livre S/A ao desconhecido e ótimo Vzyadoq Moe, do Mission of Burma ao Morphine,o quarteto paulistano uniu garotos e ‘novos adultos’ (18 aos 25 anos) por meio de apenas uma coisa: a música. Não é novidade para ninguém que todos passam por fases complicadas em sua vida. Um relacionamento catastrófico, uma família que espera de você algo que não pode ser dado a eles, a cobrança pela vida adulta ou o emprego que você tanto odeia. É exatamente sobre isso que o Ludovic cantava e Jair Naves escrevia.As apresentações ao vivo da banda eram sessões de exorcismo dentro de algum cubículo, como os apoteóticos shows na Outs (tradicional casa de shows na Rua Augusta em São Paulo). Todo mundo que foi, aprova e diz que sente muita falta de tomar no cu a semana toda e saber que no sábado ia gritar, encher a cara e mandar o chefe para a puta que o pariu, mas tudo de maneira politicamente correta por meio das letras escritas por Jair: “Somos meros coadjuvantes, de que ninguém se lembra o nome”.

Foram lançados, ao longo de 8 anos de carreira, 3 discos, sendo um deles uma demo, com 4 músicas que serviu apenas como teste para saber que fim ia levar a banda. Com uma música em inglês cantada pelo guitarrista e o hino Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés, além de Homem de Meias Palavras e Tolice, esta última presente no primeiro disco cheio, Servil, de 2004.




A formação antiga, o Julio tá ali atrás, sentado na parte do sofá que sua mãe odeia que você fique.



Como foi dito no começo do texto, o Ludovic foi injustiçado. Poderiam ter rodado o país, poderiam ter tidos muito mais reconhecimento, mas acabaram entrando numa de “ou você gosta ou acha ruim”. O som era denso. Guitarras distorcidas e afinadas de uma maneira não tão convencional assim, a voz grave e muitas vezes gritada (não confundir com Metalcore) de Jair Naves, além das letras que continham alto teor de revolta, tristeza e escarros, não cativavam muito os fãs de um indie rock tradicional. Por mais que soe estranho, a maioria dos fãs eram punks velhos e reclamões. Todos que estavam cansados da mesma cena, das mesmas ideias e que já não tinham mais 16 anos.Para não deixar a banda morrer e que ela caia num esquecimento e seja mais injustiçada do que foi, resolvi resenhar, de maneira breve, a importância de cada álbum por ordem de lançamento:







Demo (2001): Um experimento para saber o que deveria acontecer com a banda, ter a ideia se ia mesmo acontecer ou não. Contou com a primeira pedrada, mas não com a fúria que seria regravada, Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés e a misteriosa Escore Apgar (a primeira e única cantada em inglês). Jair Naves cantou Homem de Meias-Palavras e Tolice que também foi incluída no disco posterior chamado Servil. Neste álbum a faixa mais densa e diferente para todos (a maioria dos fãs só tiveram acesso a demo após o final da banda) é Homem de Meias-Palavras no qual o eu-lírico se rende a vida adulta e cansado, já não vê mais forças: “Falso sorriso amarelo/e alguns tapinhas nas costas/"apos anos de pratica e muitas portas fechadas"/sou um homem de meias palavras”.



Servil (2004): três anos depois da demo o quarteto paulistano voltou com Servil, lançado pela Teenager in Box (do Nenê Altro). São 11 músicas, duas delas já conhecidas da demo, Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés e Tolice. Só que neste disco mudanças aconteceram: o clima era mais sujo, mais post-punk e Jair Naves assumiu o vocal definitivamente (ele já escrevia todas as letras). Direto e angustiante, tendo como pico da discórdia e do modo adulto de ver o mundo a faixa 5, Boas Sementes, Bons Frutos, no qual a decepção por ser iludido sua vida toda toma conta do eu-lírico: “ela me garantiu: boas sementes, bons frutos. Como eu pude ter sido tão estúpido? Eu apostei tudo e eu perdi tudo. Como eu pude ter sido tão estúpido?”. Na sequência, Nós os Milonários, música na qual o protagonista vira para seu chefe, após ser demitido e voltar ao seu antigo trabalho, diz: “reconhece o riso doentio? Eu vou tentar não bocejar”. Em outras palavras: você humilha, pisa e no final das contas é um bunda mole. As outras faixas levam o disco para um clima mais calmo e de lamentações. É o caso de Mais Um Vexame Para Minha Coleção, música que fecha o álbum de maneira forte com versos do tipo: “Meu segredo, minha única diversão/Me perdoe sem que eu tenha que pedir perdão/E o criado cai em si”.





Idioma Morto (2006): o último trabalho do Ludovic traz em si uma evolução tremenda: Jair Naves continua cantando e gritando, mas agora de uma maneira mais controlada e o som, perdeu um pouco a sujeira para dar espaço a uma técnica aprimorada. Pode parecer que eles pioraram mas não, muito pelo contrário, a coisa ficou melhor. Com letras trabalhadas a base de metáforas de cabo a rabo, Idioma Morto mostra porque até hoje Jair Naves é considerado um dos melhores compositores em atividade no país. Já no início do disco, Atrofiando/Recém-Convertido/Ex-Futuro Diplomata, música que acabou sendo estudada num modelo de texto adotado por Dostoeivski. Parecem três personagens distintos vivenciando a mesma coisa. Um, o eu-lírico, alerta: “quão triste será o fim do filho de quem sua mãe tanto se orgulhava?”, o outro, sem hesitar, dispara: “você nunca me enganou. Saia por onde entrou”, e mais uma pessoa, talvez conhecida, pergunta a quem ordenou que ele saísse: “ele é sempre quieto assim?”. Com Idioma Morto eles conseguiram um melhor reconhecimento, mas não foi o merecido. Este é o disco que conta com Qorpo-Santo de Saias, uma letra emblemática e tão metafórica que ninguém consegue chegar a certo sobre o que fala e o que é “o maior fiasco de que se tem notícias”. Ouça, com calma, por questões de tamanho e significado pessoal Um Grande Nó, que segundo o Jair, foi escrita por último, após um bloqueio mental terrível atravessado no meio da composição desse álbum. Tensa e pesada do início ao fim é o máximo que pode falar sobre ela: “Com tanto gosto, ela ressurge/Recitando velhos sermões/Berrados a plenos pulmões/"enfim o caçula cresceu, agora há um filho seu/Que o mundo não aprova/Que a sua própria seita ignora/Como um perna amputada/Que ainda coça, apesar de ausente".Caso tenha achado este texto pura rasgação de cada é cabível, entretanto, tente ouvir uma das bandas independentes que mais tocou de maneira profunda e que não caiu na ideia de fazer um som igual do Los Hermanos, mas se você ouviu e acha muito ruim, ninguém entenderá você.

E essa foi a última formação. Da esquerda pra direita: Zeek, Jair, Eduardo Praça e Hugo Falcão.


O Ludovic anunciou seu fim no início de 2010 pelo Orkut. Quem escreveu esse texto nunca pode entrar num show deles, mas ouviu inúmeros depoimentos de pessoas que foram e sentiram-se de almas lavadas. Fiquem com o fim:“Pois é, o Ludovic. Oito anos, dois discos lançados e uma série de pequenas vitórias que ainda parecem improváveis demais para terem acontecido de verdade. Resumidamente, foi mais ou menos essa a nossa trajetória. Entretanto, depois de uma longa pausa e de muito questionamento a respeito do nosso futuro, chegou a hora de esclarecer que não há planos para novas apresentações, gravações ou qualquer outra atividade envolvendo essa banda.Em nome de todos os músicos que passaram pelo grupo, agradeço de coração pelo comovente apoio que tivemos ao longo desses anos. Não só daqueles que trabalharam direta ou indiretamente conosco, mas especialmente das pessoas que enxergaram a si mesmas nas nossas músicas e que nos acompanharam de forma leal e dedicada. Sem nenhuma intenção de esbarrar no sentimentalismo, não posso deixar de dizer que toda a exaustiva luta pela qual passamos só valeu a pena por causa de vocês.

Muito obrigado, muito obrigado mesmo.” – Jair Naves, em janeiro de 2010.




Todas as fotos foram retiradas da internet, os créditos por elas estão mantidos, seja lá de quem for. Logo, NÃO FIZEMOS ESSAS FOTOS.

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6 comentários

  1. >Caralho Paulo, que excelente texto cara. Só esqueceu de citar o Shed, era uma puta banda boa do Zeek.

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  2. >To ligado, inclusive eu tenho o disco físico do Shed aqui em casa, mas acabei citando só o que tá rolando agora, que são os projetos novos e conhecidos dentro do circuito. Mas o Shed é foda. Foda mesmo.

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  3. Lindo texto, bonita declaração. Concordo com tudo.

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  4. Coisa linda! Mas ó, com todo respeito, só “disconcordo” com esse lance de “banda injustiçada”. Veja bem, eles não faziam rock comercial, não eram figurinha tarimbada de emetevê e nem amigos de gente bem relacionada. Quisessem ser queridinhos, fariam tudo diferente. Sabemos como a roda gira e o que deve ser feito para ser, digamos, aceito. Eles escolheram outro caminho. Simples assim. E talvez por isso mesmo tiveram – e ainda tem – a legião de fãs que os carregam no coração. Se os tratarmos como injustiçados caímos justamente na armadilha que se tornou a música pop – que enfia na nossa goela que só o que vende pra caraio é digno de nota. O Brasil não tem uma cultura de rock e, guardadas algumas exceções, não temos sequer uma imprensa musical. Vivamos com esse fardo. Quem viu de perto o Ludovic entendeu completamente o recado. “Eu apostei tudo e eu perdi tudo”. Olha como é dahóra a vida. E vamo que vamo! Obrigado pelo ótimo texto, Paulo!

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  5. Idioma Morto é simplesmente um clássico que as magazines caducas e os blogs pretenso-descolados jamais incluíram em suas listas!

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  6. sou a favor do movimento : volta ludovic!
    banda que mais me arrependo de não ter ido aos shows por conta de bobagens

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