Por trás do burburinho no cinema

por - 15:15



A imagem exibida na tela é de tensão: Justine - personagem de Kirsten Dunst no filme Melancolia, de Lars Von Trier -, numa crise de depressão, está traindo o marido no jardim da casa de sua irmã, onde acontece uma festa para celebrar o seu casamento. A cena é de sexo nervoso e abrupto. Em algum ponto da sala de cinema, uma moça solta uma gargalhada, junto com um comentário jocoso, igualmente audível. Algum espectador reclama do barulho, e o silêncio é retomado.



Em outro dia, dessa vez numa sessão de arte de um cinema multiplex, a sala está praticamente lotada para a exibição do filme vencedor da Palma de Ouro em 2011. O público que foi ver Árvore da Vida, de Terrence Malick, é heterogêneo. Diante da narrativa reflexiva e não-linear do diretor, parte das pessoas li presentes sente-se incomodada. Entre conversas paralelas e agitações, alguns chegam a se retirar da sala, reclamando em alto e bom som. Nos Estados Unidos, algumas salas de exibição colocaram avisos que não devolveriam o dinheiro do cliente que desistisse da sessão.

Em meio a ofensas, bate-bocas e pedidos de silêncio, o espectador que foi ao cinema com o objetivo de apreciar a obra em exibição questiona-se sobre o motivo da agitação do outro. Afinal, o que faz uma pessoa sair de casa e pagar por um ingresso - caro, boa parte das vezes - para ficar fofocando? Variadas são as possíveis respostas, mas, dentre elas, uma se repete: a de que boa parte do público de cinema no Brasil está tão acostumado às narrativas novelescas e hollywoodianas, que, ao deparar-se com um estilo diferente, estranha, e em alguns casos, rejeita esse "novo" produto.

Para o escritor Fernando Monteiro, o público atual está "viciado" no modelo narrativo do cinema "arrasa quarteirão" norte-americano. Ele afirma que isso acontece porque "quase não temos mais contato com outras cinematografias, como acontecia há 30, 40 anos, quando filmes de outras procedências conseguiam espaço na programação 'normal' de salas comerciais, e não apenas naquelas chamadas alternativas, que se tornaram uma espécie de 'gueto'".

Tal mudança por parte dos cinemas comerciais deve-se a uma ideia pré-concebida de que o público que frequenta essas salas não está interessado em consumir o cinema de diretores como Apichatpong (Tio Boonmee que poe recordar suas vidas passadas), ou, num âmbito nacional, Cláudio Assis (A Febre do rato). A linha de pensamento, além de preconceituosa, é também perigosa, pois impõe barreiras ao espectador, dificultando que este crie um raciocínio crítico mais amplo em relação ao cinema que lhe é oferecido.

No final das contas, o que acaba acontecendo é que esse espectador, considerado pelos críticos como parte do público médio, forma a ideia de que todos os filmes classificados como "de arte", e que são exibidos em cinemas alternativos, como o Cinema da Fundação, no Recife, possuem histórias muito complicadas ou sem sentido. Dessa forma, ele se vê impedido de experimentar novos contextos e ampliar seu conhecimento cultural, ficando reduzido a uma fórmula cinematoráfica cada dia mais gasta e previsível.

O cineasta e crítico Kleber Mendonça Filho, que é também programador do Cinema da Fundação e um dos criadores do Janela Internacional de Cinema do Recife, rejeita a classificação de "filmes de arte", que geralmente é imposta à grade exibida na Fundaj. Kleber acredita que esse tipo de definição dada pelo mercado facilita de maneira imprecisa e injusta a compreensão de uma obra. O cineasta diz, ainda, que sempre compara o cinema com uma refeição: "Se você come todos os dias arroz com batata frita e uma coca-cola, e, na sexta, alguém traz uma pizza com um ovo em cima, você provavelmente vai ter uma indigestão muito grande".













Árvore da Vida



Para ele, cinemas como o da Fundação funcionam como uma espécie de mercearia, com produtos nacionais e internacionais. A ideia é que a grade traga sempre variedade de escolhas e estilos, para que o consumidor experimente um pouco de cada tempero, identificando-se ou não com o que lhe é proposto, mas arriscando-se de maneira saudável.

MERCADO -A discussão, que começa com um questionamento do gosto pessoal do espectador que incomoda e interfere na sessão, acaba rapidamente apontando suas raízes, cada vez mais fortes e evidentes: a gestão dos cinemas de mercado, em sua maioria, interessada no lucro, o que acarreta a má distribuição dos filmes, fazendo com que o cinema independente - especialmente o brasileiro - se torne refém de poucas salas, procurando outras alternativas para que as obras cheguem ao público.

Isso fica claro, por exemplo, no Recife, cidade considerada um dos polos de produção cultural e cinematográfica do país, e onde a programação das 44 salas de cinema multiplex é exatamente a mesma, mudando apenas os horários da grade. O espaço para outras linguagens é quase nulo, e restringe-se a uma sala considerada modelo nesse aspecto (a Fundaj) e três "cinemas de bairro" que caminham vagarosamente - Cinema Apolo, São Luiz e Rosa & Silva -, mas que, ainda assim, buscam dar o maior espaço possível às produtoras independentes ou menos conhecidas.

A crise atinge não só o público, mas também os autores, que se veem obrigados a optar por novas formas de divulgação e disseminação de seus trabalhos, voltando-se muitas vezes à internet. E que não se engane quem acredita que esse problema é específico dos novos realizadores: o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, um dos maiores nomes da Nouvelle Vague francesa, resolveu voltar-se aos meios alternativos para divulgar seu último longa. Um dia antes de Film Socialisme chegar aos cinemas, Godard disponibilizou o trabalho, na íntegra, no Youtube.

Tal saída acaba se mostrando, obviamente, insatisfatória. Por não possuir estrutura física ideal - seja ela sonora ou visual -, a experiência de assistir filmes no computador ou na televisão mostra-se claramente inferior à da sala de cinema, impedindo que o espectador tenha sensações que se tornariam possíveis num ambiente apropriado.

A solução que salta aos olhos é o sonhado "equilíbrio" entre grandes e pequenas produções. Kleber aponta, por exemplo, o cinema Arteplex, do empresário Ademar Oliveira, que está presente em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Fortaleza. Segundo o cineasta, "ele mistura o blockbuster de bom gosto com duas ou três salas exibindo filmes de outros estilos". Observando a grade dos cinemas comerciais, Kleber acredita que a falta de diversidade é, de certa forma, tola, por não se abrir a novas experiências, embora ele saiba que "os empresários provavelmente me mostrariam números mostrando que eu que sou o burro".

Para o crítico Luiz Joaquim (que também é programador do Cinema da Fundação), não é por acaso que os filmes de grandes produtoras, como a Globo Filmes, por exemplo, fazem sucesso - com marca aproximada de 1 milhão de pagantes por longa. Segundo ele, há uma massiva campanha de marketing para esse tipo de produto.












Doctor Strangelove - Foto: Victor Jucá


Luiz cita o exemplo da estreia de 2 Filhos de Francisco, que contou com uma equipe de jornalismo da Globo na porta da saída de um multiplex do Rio de Janeiro. "Com eles, estavam Zezé di Camargo e Luciano, cuja trajetória é retratada no filme. Ainda com os créditos finais subindo, os cantores entraram na sala pela porta de saída, cantando 'É o amor...'. Enquanto isso, os jornalistas entrevistavam os espectadores sob o impacto do longa e a presença dos cantores. A matéria foi ao ar no Fantástico daquele fim de semana e, não por acaso, o segundo fim de semana do filme teve uma presença muito maior de espectadores. Isso era algo inédito".O crítico e cineasta Marcelo Costa concorda em que a desigualdade não está só na geografia das salas, mas também na divulgação: "Existem alguns cinemas que mantêm uma programação variada, capaz de atrair a curiosidade do público. mas, ao mesmo tempo, somos induzidos a assistir blockbusters, pelo fluxo intenso de publicidade desses filmes. Ao somar a propaganda à quantidade de salas que são dominadas por filmes como Amanhecer, o resultado é uma luta injusta, em que filmes de menor orçamento mal conseguem sobreviver".Para Costa, a noção de expectativa de público que orienta a indústria é, ao mesmo tempo, óbvia e dúbia: "A gente cria a ilusão de que tem uma fórmula moldada, e que dentro dela você sabe exatamente que peças mexer para atrair ou atender a essa expectativa de público. Mas a realidade é muito mais complexa que isso. Pouquíssimos realizadores conseguiram fazer uma leitura bem-sucedida do que é uma expectativa de público. Não estou negando que existe uma fórmula fácil, com atores famosos e narrativa novelesca, mas muitos filmes pensados para grandes bilheterias acabaram ruindo, e vice-versa".

Entre casais de namorados, donas de casa, estudantes e advogados, os frequentadores de cinemas de shopping abrangem vários segmentos. A maioria não nega que já chegou a assistir filmes sem saber o que encontraria pela frente, escolhendo pelo horário de início da sessão, como o funcionário dos Correios Rodrigo Dantas, entrevistado antes de assistir uma comédia romântica. Dantas afirma, porém, que também se interessa por outras linguagens e formatos, como os curtas, e diz que gostaria de assisti-los antes das sessões normais.

Assim como ele, outros frequentadores de multiplex demonstraram interesse em experimentar novas cinematografias, como os estudandes Julião Neves e Williams Souza, que dizem ir ao cinema de shopping por questões de segurança e localização. Williams disse, ainda, que os chamados filmes de arte "atingiriam um público maior, se concentrados também nos multiplex", atendendo, assim a uma comodidade do público em geral.

Para Rodrigo Carreiro, jornalista e professor do curso de Cinema da UFPE, a mudança é possível, mas gradual e demorada: "O circuito exibidor teria que se expandir em direção à periferias, com redes de cinemas de bairro e ingressos mais baratos. Seria preciso reeducar visualmente o espectador, dando a oportunidade de contato com produções mais interessantes e menos baseadas em fórmulas prontas da televisão diária, das novelas ao jornalismo".

A mudança de raciocínio, ainda que tênue, sobre o gerenciamento e o consumo da programação, vem crescendo cada vez mais, o que pode resultar no amadurecimento do público e da cultura do país. Como afirma Marcelo Costa, "A obra de arte precisa de público, e este só saberá se ela lhe agrada ou não quando tiver acesso adequado ao que é produzido". Reza a lenda que brasileiros não gostam de filmes brasileiros. Mas, brasileiro vê filme brasileiro?













Cinema da Fundação - Recife

Obs.: O texto acima foi originalmente escrito para a Revista Continente. A versão editada dele foi publicada na edição de Janeiro de 2012.

Você também pode gostar

1 comentários