"O que eu leio e o que eu faço - Marcelo Cabral"

por - 15:15



Esse cara é uma figura emblemática do underground alagoano. Fez parte da banda Mental Problems, que depois virou Mental, e participou da cena hardcore maceioense, já anunciando o quanto esse som ia beber das influências regionais. Marcelo Cabral nasceu em São Paulo, mas foi criado em Maceió (AL) e se considera alagoano, o que se pode verificar pelo seu jeito e pelo forte sotaque, cheio das gírias da terra. Uma dessas gírias deu nome á banda que Marcelo, junto com o amigo de longa data Aldo Jones criaram: o Coisa Linda Sound System.

O som da banda ainda carrega muito da estética faça-você-mesmo que os caras tanto admiram desde a adolescência, porém agora vem cheio do lirismo das melodias que Marcelo e Aldo criam, tudo isso com letras que falam muito do cotidiano maceioense, experiências de viagens de carro pelo interior do país, experimentações com reggae, dub, eletrônico e muitas outras vibes. Atualmente Marcelo concilia suas atividades como jornalista e a banda. É colaborador do site Overmundo.

Para sacar um pouco das influências da banda, conversei com Marcelo, via email. Falamos um pouco do seu vício por quadrinhos, as influências que a literatura e o cinema tem em sua música, sobre cantar em inglês, português e espanhol e sobre livros, claro. Pois é. Nada melhor do que começar a “O que eu leio e o que eu faço” desse ano com as belas respostas de Marcelo Cabral! Confere aê:

Você vem compondo há um bom tempo e sempre teve esse compromisso forte de escrever sempre em português, queria que você falasse um pouco sobre isso.


Na verdade Brunão, quando comecei nos anos 90, quando o Mental ainda chamava Mental Problems, minha banda naqueles tempos, eu escrevia em inglês. Depois de um tempo, comecei a escrever e cantar em português, ainda nesta mesma banda, o que foi meio dificil, o inglês é mais musical, palavras curtinhas e rimas fáceis. A lingua de Camões é que é foda meu amigo! Mas também é linda e musical. Não tenho compromisso nenhum em minha obra senão com a própria obra em si. Como compositor, só pretendo ser coerente com o que penso, sinto e acredito. Não tenho regras nem bandeiras. Pelo contrário, quero lançar um disco completamente diferente do outro. Gosto da diversidade. Inclusive, tenho planos pra um trabalho trilingue no futuro, um disco ou EP.

Com qual idade rolou a primeira letra de música?


Putz, dificil lembrar, mas lá vai. Acho que tinha entre 8 e 10 anos de idade. Fui muito influenciado pelo meu primo David (Barros, autor de "Menina", canção que está no último disco do Coisa Linda, Rochedo de Penedo) e pelo Tio Jorge, que tocava um violão danado, ele é pai do Alvinho Cabral (Fino Coletivo, primo e parceiro de algumas canções comigo). Lembro que fiz essa letra em Itapira, interior de São Paulo, onde meus tios viveram um tempo, e o David criou uma melodia. Lembro também que apresentamos a canção pra família a noite, depois do jantar. Acho que minha mãe chorou de emoção (ou de tristeza, ao ver que o filho seguiria carreira tão tortuosa :)

Tu acha que aprendeu mais compondo sozinho ou nas tuas experiências com bandas?



Em geral, componho o grosso da canção sozinho, e os arranjos se definem com o resto da banda, onde cada um imprime sua "tocada". Mas se você reparar nos últimos discos, tenho sido mais aberto em gravar outros compositores como o próprio David, Glauber Xavier, ou parcerias com uns caras sensacionais como Dinho Zampier, Alvinho Cabral e Aldo Jones. Das duas formas eu aprendo bastante, sempre.





Na música brasileira, quem são os compositores que te inspiram?


Então... é meio estranho isso comigo, mas acho que nenhum. Não quero soar prepotente, é que, para mim, a inspiração para compor vem de outras coisas: Um livro que li, uma história em quadrinhos ou filme, um grande amor, meus amigos e suas experiências de vida, viagens, acima de tudo, viagens. O que me inspira são as coisas da vida e do mundo, literalmente. O mundo lá fora me inspira, o mundo dentro da minha cabeça também. Nenhum compositor me vem a mente. Se você me perguntar o que escuto é diferente, ultimamente, nada brasileiro pra falar a verdade, estou numa fase de música gringa, e as referência são muitas, Faith no More, Jorge Drexler, Sonic Youth, Beastie Boys, muito dub e reggae, escuto uns pesos também, clássicos como Led Zeppelin, uma pá de coisa.



Você tem uma relação forte com os quadrinhos. Queria que você comentasse sobre quando começou esse vício?


Desde sempre. Aprendi a ler com quadrinhos e livros infantis que me davam aos montes. Sou um entusiasta da linguagem dos quadrinhos. Eu e meu irmão gastamos boa parte da nossa grana neste vício terrível! Produzi três monografias sobre o tema, na graduação, e em duas pós-graduações. Como jornalista de cultura, escrevo muita coisa sobre quadrinhos também, entrevistei autores e desenhistas. Curto mesmo.






Já teve algum filme ou livro que influenciou diretamente a composição de uma música?


Sim, Dharma Dub, do disco Da Vida e do Mundo, é levemente baseado em The Dharma Bums, do Jack Kerouac. A tradução do título em português é Os Vagabundos Iluminados. Recomendo com força.

Por ser casado com uma uruguaia teve algum livro a que você foi apresentado por ela? Você acha que teria conhecido mesmo sem que ela o apresentasse?


Sim. Libro de los Abrazos e Memorias del Fuego, de Eduardo Galeano. El Libro de los Sueños, de Jorge Luis Borges. Historias de Cronópios e Famas, do sensacional Julio Cortázar, entre outros. Antes de conhecer ela, fiquei meio alheio, como bom brasileiro, a muita coisa boa da literatura sul-americana. Mas, quem sabe, talvez viria a conhecer em algum momento, já que é o tipo de leitura que eu adoro. Mas devo a ela sim, por me apresentar a estes títulos sensacionais.






Qual teu horário favorito para ler?


Toda hora. Mas a correria de todos os dias me permite mais pela manhã e a noite.

E para escrever?


Quando baixa ideia boa na cabeça... ou quando o deadline se agiganta no horizonte. Não tenho um horário favorito.

Queria que você me contasse o que foi que te levou a cursar jornalismo.


Aos 15 anos de idade, eu produzia uns zines, escrevia resenhas críticas dos últimos discos, entrevistava bandas locais e de fora que tocavam por aqui. Imprimíamos aquilo em uma impressora tosca das antigas na casa do Aldo Jones, ilustre diagramador daquelas publicações. Tinha coisa que a gente vendia por um preço simbólico em bares de rock, outras a gente distribuia de graça mesmo, em shows do underground dos anos 90 em Maceió. Eu já era jornalista, só fui fazer a graduação, aprender mais e pegar um diploma. Nunca pensei em fazer outra coisa, tipo, dúvida vocacional sabe? Sempre foi muito claro pra mim.  Nunca foi muito uma escolha. A música também não. Acho que é o que sei fazer.













Nos tempos de estudante da Universidade Federal de Alagoas, em um congresso em algum lugar frio.




Quais são suas primeiras memórias com os livros?


Meu primeiro livro foi "Aventura no Escuro" (que eu chamava de "Aventula no Esculo"), de Jane Carruth, lembro até hoje da história e das imagens, do ratinho perdido e assustado na noite, e que via as coisas a luz do dia na manhã seguinte, daí ele perdia o medo. Ótima história. Ainda não sabia ler quando ganhei este, só escutava os outros contarem a história. Eu perturbava as visitas e pedia que me lessem todos os meus livros. O primeiro livro que li mesmo, depois de aprender a ler, foi "Marcelo, Marmelo, Martelo", de Ruth Rocha, que quase me mata de tanto rir. (Porra! Nunca falei tanto da minha infância :) Você é jornalista ou terapeuta?)


Para terminar: quais os seus 5 livros favoritos?


Não consigo dizer, sério mesmo. Os 5 favoritos da vida é impossível. Posso dizer os últimos 5 melhores que li recentemente: As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Y - The Last Man, de Brian K. Vaughan (HQ). Riacho Doce, de José Lins do Rego. Lucifer, de Mike Carey (HQ), e agora estou lendo Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado.


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3 comentários

  1. Suzana Dias Gon&cced6 de janeiro de 2012 12:41

    >"Acho que minha mãe chorou de emoção (ou de tristeza, ao ver que o filho seguiria carreira tão tortuosa". HAHAHAOs vagabundos iluminados é o que tô lendo nesse momento! Massa!

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  2. >Vagabundos Iluminados é o melhor livro do Kerouak que eu li!

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  3. >Achei que só eu adorava esse livro. Sabe aquele clichê do "me identifico muito com o personagem"? Porra, parece um diário meu das antigas. paisagem diferente, experiências semelhantes. Mas acho que qualquer um com uma gota de juízo viveria daquele jeito por um tempo certo? Exatamente daquele jeito. Então, não deve ser algo tão exclusivo assim, como leitores gostam de pensar. Ou aquele papo de "essa música foi feita pra mim, essa parte é igual minha vida". Mas é porque é mesmo. É a universalidade das coisas, ou coisa dessa.

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