"Carnaval de rua: Curtição pra quem curte"

por - 16:13

[caption id="attachment_11992" align="aligncenter" width="430" caption="pura animação"]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

Quando se ouve a palavra carnaval, imagino que já venha em sua mente os desfiles de escola de samba, os trios elétricos do axé e aquele monte de travesti que parece que pipocam nessa época do ano, e que por acaso, são exportados para a Itália no fim da festa. Mas esta imagem que temos da festa popular provavelmente não chega perto da realidade que nós, mortais, temos daquilo que pode vir a ser carnaval. Parte desta realidade está em algo historicamente tido como perigoso, mas que compõe um grande terço de nossa cultura. Estou falando dos blocos de carnaval. Pois é. Tão perto e tão distante ao mesmo tempo.


Estes, que em tempos mais simples, eram o que mais de divertido tinham para oferecer ao povo, hoje tentam fazer jus ao passado, com mais segurança, bebida com preço altíssimo e a juventude pra mostrar o samba na sandália rasteirinha do camelô. Com palavras tão bonitas, não poderia me limitar à leitura da embalagem de margarina em que li tudo isso, mas tinha que me meter no meio e curtir toda essa vibe descolada que caceta meu cérebro. Eu tinha que me meter num bloco de carnaval de rua. E assim o fiz.


O bloco em que participei foi o “Vai Quem Quer”, ou “VQQ” para os íntimos que tomam chá e levam os filhos pra brincar com ele, aqui em São Paulo. Me surpreendi com sua história, que começou há 30 anos e se segue com leves alterações, porém com as mesmas marchinhas e seu hino próprio, repetido incessantemente com toda a alegria que se pode conseguir com uma dúzia de latas de cerveja. Não sabia o que esperar do evento em geral e até me empolguei com a ideia de participar de algo tão importante historicamente. Até pegar o ônibus. Sabia que tinha pego o ônibus certo quando perto da porta, vi duas jovens sentadas brincando de show do milhão em francês. Uma delas tinha uma aparência despojada exageradamente maquiada enquanto a outra trajava uma fantasia de Harry Potter, que na verdade, era uma tentativa de fantasia do David Bowie. Ou quase lá.


Ao chegar, dei uma sacada no ambiente. Aí que reparei o quanto somos ingênuos em acreditar na televisão. Lembra que nas reportagens sempre tem gente feliz, que sorri enquanto dança como um aborígene nativo da Austrália? Pois é, não havia nenhum destes lá. Não logo de cara, ao menos. Talvez por ter chegado cedo demais, ainda vi uma galera meio triste, que se afogava em rios intermináveis de cerveja, que custavam MUITO caro, mas como todos queriam entrar no clima, as carteiras perdiam seus volumes mais rápido que um casamento da Gretchen. Na hora tentei imaginar como seria um carnaval sem bebida alcoólica, mas achei mais fácil imaginar um mundo sem racismo ou sem advogados.


Conforme a coisa foi esquentando, já dava pra ver o bloco se animando, as músicas tomando ritmo, a galera chapando muito de bebida e maconha e o bloco tomando aquela forma de bloco mesmo. Ali me foi revelado o motivo pelo qual as pessoas são felizes no carnaval. E eu achando que era pela data mesmo. Que nada, 4:20 era a resposta. Claro, não estou culpando ninguém, mas fiquei satisfeito em entender a lógica da alegria do carnaval. Foi como descobrir porquê o Teatro Mágico é tão ruim ou porquê cavalo não sobe escada. Alguns minutos depois, me senti realmente num bloco de carnaval. As marchinhas estavam sendo cantadas. Todas aquelas que você aprende quando era criança ou quando assiste uma vinheta do SBT em que o Silvio Santos as canta. Sem dúvida, é uma parada interessante de se assistir. Cativante é a palavra que provavelmente melhor define a experiência. Especialmente quando coros de ódio ao prefeito e ao governador de São Paulo foram entoados. Aquilo mostrou, de certa forma, que mesmo na curtição, temos consciência da merda em que nos encontramos.


Tomado pelo espírito de Chico Pinheiro, resolvi saber das pessoas que passavam o que elas achavam daquilo que estavam vivenciando. Parei um vendedor ambulante que parecia animado com todo o movimento de suas altas vendas de tiaras de anteninha alienígena e bolotas de borracha para os foliões. Demorou um pouco pra ele entender que o que eu queria era entrevista-lo e não comprar a tiara rosinha que ele apontava insistentemente, mas depois de um tempo, o fiz entender. Ao perguntar seu nome, fui surpreendido com seu codinome. “Me chama de Palhaço da Sala VIP”, dizia ele incessantemente. Fiquei tentado a perguntar o porquê de tal vulgo, uma vez que não se via maquiagem nem nada que remetesse à figura de um palhaço, mas me contive e perguntei sobre sua relação com o bloco de carnaval: “Bloco de carnaval? Não conheço. Tava no ônibus, ele não andava, então desci e comecei a vender a mercadoria”. Bastante espontâneo. Perguntei se ele estava gostando do bloco e do pessoal, ainda que isso tenha sido uma tarefa quase impossível, já que ele desviava a atenção ou não ouvia a pergunta: “Gostando? Tô sim. Muito bom”, dizia ele. Só me dei conta da pergunta idiota que fiz depois. Sendo ele um vendedor e com a galera toda comprando tiara de ET em peso, claro que ele estaria gostando. Mas aí já era tarde. No pique, perguntei se ele já tinha calibrado uma caninha, afinal, carnaval é a melhor desculpa pra entornar a canjibrina em serviço. Após um considerável delay, ele responde “beber? Não bebo não”. Uhum, sei. Ao término da entrevista, fui convidado a comer na pizzaria dele, mas logo em seguida fui desconvidado porque na verdade ele vendia tiaras de et na porta da pizzaria e não ganharia nenhuma comissão com a venda de pizzas, mas depois me re-convidou. Falei que ia dar uma passada, mas já dizia a minha mãe, “se quer que eu vá, me convide, se não quer que eu vá, adoeça um parente, mas não desconvide que é falta de educação”.


Após saber da opinião de uma figura tão emblemática, ouvi a opinião de uma mulher de 36 anos, sendo 10 de carnaval de rua, chamada Cleide: “Conhecia outros blocos, mas o VQQ era novidade pra mim... eu conhecia por amigos”, disse. Comparando este a outros blocos e a blocos mais antigos ela citou “a liberdade dos foliões e do modo ao qual se expressavam era o diferencial do VQQ”. E devo admitir que concordo com a opinião dela, pois fui parado por um grupo de homens travestidos e que me pararam numa tentativa nefasta de me seduzir. Eles conseguiram, mas por pouco tempo. Detalhe curioso era o de depois da fotógrafa que estava comigo ter tirado as fotos, todos ficaram preocupados com o destino delas.


No geral, reparei como o carnaval de fato acontece. Ele não é tão animado como na televisão a não ser que você beba ou fume o suficiente para isso. Mas se analisarmos culturalmente, a festa é rica naquilo que tem de melhor, que é seu conteúdo histórico fluente. E eu até vi uma mulherada que eu pegaria fortemente, mas que estava acompanhada ou doidona de alguma coisa, o que me broxava consideravelmente. Durante a matéria, fui cumprimentado por um hippie aleatório, que aparentemente, não estava chapado ou bêbado, mas parecia ainda assim feliz e satisfeito por ver tanta gente reunida por uma causa tão simples quanto se divertir em conjunto. Aquilo chamou minha atenção. Talvez aquele cara estivesse feliz por ter consigo mesmo o significado da grande confraternização que é o carnaval. Ficamos no evento por apenas 2 horas porque o ônibus que tomamos não passa sempre, mas na saída, deu tempo de ver uma treta colossal entre um motorista e cinco caras bêbados disputando o espaço da rua. Só pra lembrar que não existe amor em SP.




[caption id="attachment_11995" align="aligncenter" width="427" caption="Farol vermelho na diversão? AÍ NÃO!"]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

[caption id="attachment_11998" align="aligncenter" width="403" caption="Um dos elementos estava fumando, mas jogou o cigarro fora pra mãe não saber... PEGAMOS NO FLAGRA"]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

[caption id="attachment_11996" align="aligncenter" width="427" caption=""Palhaço da Sala Vip" fazendo o que faz de melhor... ser dinâmico!"]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

[caption id="attachment_11999" align="aligncenter" width="427" caption=""animal originário das savanas africanas com quatro letras", essa tava fácil"]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

[caption id="attachment_11997" align="aligncenter" width="426" caption=""Tiarinha dois reau, hihihi""]bloco carnaval vai quem quer vila madalena[/caption]

Todas as fotos por Lane Firmo

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