O exorcismo do público, de Jair Naves e claro, meu

por - 18:13




É bom começar o texto dizendo que caso não tenha ido a Casa do Mancha no domingo, perdeu uma das apresentações mais insanas do Jair Naves. Novamente, depois de um show – se é que essa palavra pode ser usada -, saí de alma lavada e me perguntei: “o que foi aquilo?” para quem me acompanhou, um camarada de longa data. Mas bem, vamos ao que aconteceu ontem e espero que o espaço ainda esteja inteiro.

Acordei gripado no domingo. Fodidão, nariz escorrendo e metendo a mão no rosto tipo criança, manja? Ok, não foi isso, mas estava zuado. Resolvi que iria mesmo assim e foda-se a gripe, afinal, se no ano passado isso o show foi do caralho, em um espaço grande e que tinha palco, imagina como seria sem toda aquela estrutura convencional de como tocar? Não deu outra, o show foi insano do começo ao fim.

Jair Naves tocou 3 músicas novas e desconhecidas do público que provavelmente estarão em seu novo disco, que deve sair no meio do ano, e dessa vez, nada de single ou EP, álbum cheio, adianto para todos que são viscerais e emocionantes, um tanto quanto calmas, mas a gravação pode ser diferente.

O público cantava todas as músicas que já tinham sido lançadas: seja Um Passo Por Vez, ou as mais antigas, como Araguari I (Meus Amores Inconfessos). Em alguns momentos, parecia um coro, todo bem ensaiado, que estava unido apenas por uma coisa: música de verdade. Digo isso pois era notável a sensação que tomava o músico com cada música.




Em Araguari II (Meus Dias de Vândalo), Jair Naves subiu no amplificador, cantou de costas para o público, com a cabeça no grande quadro de fundo, vez ou outra, o microfone explodia em seu peito. Nesta mesma música, ele se jogou no chão, no meio do público, cantou, se revirando, gritou, aos quatro cantos, o que talvez fosse um dos versos mais significativos para ele.

Se em Araguari II houve fúria, a sensação de melancolia e tristeza era clara em Silenciosa, música que sempre, eu disse sempre, soa tão arrepiante, quanto qualquer uma. Com pausas dramáticas nos vocais e um sentimento todo passado através de cada trecho, arrepiou todos os presentes.

Por fim e não menos importante, o comportamento de Jair Naves em algumas músicas era insano. Ele subiu na bancada que tem na Casa do Mancha, cantou entre as grades da janela e foi até lá fora com o microfone em De Branquidão Hospitalar, senão me engano. Além é claro, de cantar olhando diretamente ao público e ir para o pessoal em quase todas as faixas, mesmo estando com o violão em mãos.



Resumindo tudo isso caso você seja preguiçoso demais para ler: a apresentação não teve o gosto de apenas mais uma. Todos os shows que eu vi de Jair Naves, carregou uma particularidade ímpar. Sai de lá de alma lavada. Desci a Fradique, fui tomar o ônibus. Cheguei em casa, lembrei que ia trabalhar no dia seguinte cedo. Foda-se, senti um gosto de que poderia fazer isso e aos poucos, me livrar de algumas coisas, como a rotina em que eu não sou mesmo ou do emprego em que eu não sou mesmo, afinal, todos sabemos, um passo por vez.

Todas as fotos por Paulo Borgia.

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