Diário de bordo Constantina SXSW: O pier, o mercado e as bicicletas #15

por - 14:07

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Encontrar Mike Kinsella (Cap'n Jazz, Owen, Joan of Arc), gravar um video, ir para o pier e captar belos momentos para o registro de "pequenas embarcações". Isso resume mais ou menos esse belo role dos caras da Constantina. Estou ansioso com essas filmagens que eles estão fazendo, agora é só esperar sair e correr pro abraço. Dessa vez, ouçam Lamparina e façam a viagem junto com os mineiros.






Dando sequência ao nosso projeto de registrar as músicas do álbum Haveno no formato de vídeo, tocando ao vivo um arranjo de cada uma das músicas, fomos para a represa Tom Miller, no Lago Austin, gravar “Pequenas Embarcações”. O lago formado pela represa é cercado de piers, onde se pode alugar barcos para passeio, e decks com charmosos cafés e restaurantes. Um daqueles típicos lugares calmos de Austin que são um pouco mais afastados do centro, possibilitando uma fuga da bagunça e agitação do festival. O local combinou bastante com a proposta do Bruno para execução de Pequenas Embarcações – um arranjo somente com guitarras, usando efeitos de loop do mítico e agora ressuscitado “Pedal Verde” - um pedal de guitarra da Line 6 que o Bruno usava sempre pra criar esses efeitos de loop e delay, mas que havia estragado, e agora a viagem nos EUA e as compras em NY trouxeram de volta. A linda fotografia proposta pelo Samuel mesclou bem o clima intimista da música com a paisagem do lago. É sempre difícil captar video e audio em ambientes não controlados pois a interferência do publico sempre torna necessário a repetição de alguns takes, mas no final o resultado ficou ótimo e o esforço foi compensado. O material que estamos produzindo com certeza é um dos grandes investimentos que fizemos durante esse período e que achamos que será um ganho de portfolio.


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Voltando ao assunto da bagunça, que começamos a contar no relato #14, agora com o festival já engatilhado, a cidade está bastante cheia e o transporte é um dos pontos críticos do festival, já que a maioria dos hotéis fica afastada do centro e alguns dos shows ficam um pouco distantes. O centro de Austin, principalmente o entorno da Rua 6 é olho do formigueiro. Os transportes alternativos tentam suprir a deficiência da cobertura da frota de táxi e o escasso quadro de horário de ônibus da cidade. As bicicletas tomam conta dos postes das ruas e também os carrinhos de dois passageiros puxados por bicicletas, geralmente guiados por estudantes da faculdade local, que aproveitam a oportunidade para levantar um dinheiro extra.


O festival é muito bem organizado mas o estilo americano de organização às vezes pode chocar, principalmente pra nós acostumados com o "jeitinho brasileiro". Aqui tudo é de uma rigidez e inflexibilidade extrema, e muito pautado pelo aspecto financeiro – capitalizam nos mínimos detalhes. Tudo é business. Além disso, o festival está mais caro esse ano, e isso desde o preço individual de acesso aos showcases e valor do credenciamento, como também o custo periférico como o valor das vans de transportes, alimentação nos diversos trailers espalhados pela cidade, custo dos hotéis, etc.


E como o Festival não é só sobre ouvir música, e sim tem uma parte intensa de formação e discussão, seguimos para participar dessa programação na parte da tarde. Foi interessante perceber em uma palestra que mesmo após o decretado fim das gravadoras e a anunciada falência mundial da indústria fonográfica, o meio musical ainda se baseia muito nesse modelo, mas agora com novos jogadores. O mercado de massa ainda é forte por aqui e as antigas gravadoras que sobreviveram ao massacre gerado pelas novas formas de consumo musical, com o advento da internet, ainda tentam a estratégia de procurar pela "Próxima Grande Coisa Musical" mas a popularização de plataformas como YouTube substituíram o papel do “olheiro da gravadora” e se tornaram a base de procura de novos artistas de consumo de massa. O problema é que a maioria não tem substância artística suficiente para sustentar uma carreira: geralmente atingem fama com milhões de views de seus vídeos de apenas uma ou duas musicas. São prontamente contratados pelas grandes gravadoras, lancadas ao vento e consumidas como chiclete. O que me parece interessante como análise do próprio Festival SXSW é que ele funciona como uma grande vitrine de artistas, mas todos parecem estar na esperança de serem “descobertos” por grandes gravadoras (naquele velho ideal do antigo modelo de industria musical) ou também por selos outrora alternativos mas que agora assumiram o posto de majors, como a Matador Records, por exemplo. É uma grande disputa por atenção, com apresentações no estilo showcase de 30 minutos, modelo um pouco parecido com uma linha de montagem fordista musical. O público parece ficar um pouco como segundo plano.




[caption id="attachment_12808" align="aligncenter" width="610" caption="Tantas pessoas, mas elas parecem que estão em segundo plano"]Publico[/caption]

Mas Austin não vive somente do festival SXSW nessa época. Existem vários outros que acontecem paralelamente ao principal, aproveitando o publico presente para as atrações. E a maioria - para não dizer todos - eles na mesma lógica vitrinista. Fomos conhecer um deles. Alguns do grupo conseguiram assistir a um festival extra-oficial organizado pelo selo Polyvinyl Record e seu cast de artistas. Conversaram com um produtor do selo a fim de engatar alguns projetos, e também com Mike Kinsella, presente com seu projeto solo – Owen – uma grande referência para os integrantes do Constantina não só com o Owen mas com outros de seus projetos como Joan of Arc e Cap'n Jazz, junto com seu irmão Tim Kinsella.




[caption id="attachment_12809" align="aligncenter" width="610" caption="Mike Kinsella e alguns Constantinos numa conversa"]mosaico04[/caption]

O SXSW continua, e nós teremos nossos 30 minutos nessa grande vitrine. Nossa agenda amanhã gira em torno da nossa apresentação no simpático The Loft, bem no centro do formigueiro da 6th.

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