Diário de bordo Constantina SXSW: Pessoal, íntimo, mas irremediavelmente coletivo #18 (The End)...

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Chegamos então a última parte deste diário de bordo feito pelos integrantes da banda Constantina contando os pormenores de sua segunda tour pela terra do Tio Sam em direção ao festival SXSW. Agradecemos muito pela escolha da banda em nós proporcionar ser a plataforma para que todos acompanhassem as intrépidas aventuras da trupe por lá, ficamos impressionado com a disposição da banda em escrever relatos realmente diários de seus passos nos EUA. Eis então o relato do Gustavo Gazzola fazendo um balanço da viagem, falando do último show da banda e deixando claro porque o grupo permanece nessa labuta. Escutem 5 de 25 e acompanhem a última parte desta viagem...



Com o final da viagem eminente, este será o último post dessa jornada. Isso me permite divagar um pouco sobre as reflexões que tivemos ao longo do caminho, além de contar um pouco sobre nosso 18˚ dia. Este foi nosso último show da turnê, em uma festa brasileira em Austin, que já tínhamos tocado em 2011. Foi um momento de saudades do Brasil pra quem estava nos assistindo, e preparamos alguns arranjos especiais para Monte Roraima, que na versão de estúdio já conta com o som marcado da conga, tamborim e apito. Terminamos com uma espécie de carnaval, com muita gente dançando (!) ao som de Constantina. E foi pra nós também uma espécie de momento catártico, de despedida, e de sentir quase com o pé no Brasil. Estamos voltando.


Ontem nosso dia foi ligeiramente atípico, pois desde que chegamos em Austin tudo orbitou em torno do SXSW, o que estava me deixando um pouco frustado, já que a cidade é muito bonita e merece uma atenção especial. Tiramos uma parte do dia para irmos ao pier onde gravamos o video de Pequenas Embarcações (relatado no 15˚ dia), tomar um café à beira do rio e relaxar. No meio da conversa começamos a fazer um balanço da viagem e logo chegamos à conclusão de que programamos coisas demais para fazer na viagem. E no final de contas sempre faltou um momento para relaxarmos em um lugar bonito para simplesmente desfrutarmos das companhias e dos lugares. Pode parecer bobagem, mas na verdade esses momentos é que repõem a nossa energia e nos mantém animados. E nessa tour, ou estávamos com pressa para fazer algo pendente no dia, ou estávamos dormindo para termos energias físicas para corrermos de novo.


Mas em um momento contemplativo como esse, dá para se ter uma clareza melhor dos rumos que as coisas tomam, sejam contra ou a favor. E acho que vale a pena contar aqui desse balanço sobre o fazer música independente, e claro, sobre o Constantina. Vivemos numa constante luta de fazer as coisas acontecerem com pouco dinheiro; e, se não contamos com dinheiro, isso significa que é necessário contar com outros valores. Contamos realmente com a colaboração calorosa dos amigos, daqueles que prezam o que fazemos e que acreditam em “espalhar coisas boas”. Não é a toa que pensamos muito nestes termos e repetimos isso sempre. Dá pra sentir isso muito claro: a lógica punk do Do It Yourself é na verdade um sonho adolescente. O que vale mesmo, o que é real e ao mesmo tempo bonito é fazer em conjunto. Do it Together.


E apesar do Constantina dever agradecimento a tantas pessoas, acho que aqui é um bom momento de agradecer algumas pessoas que estiveram muito diretamente trabalhando junto com a gente neste período. Victor de Almeida, produtor cultural, que logo que soube da viagem se ofereceu com tanto desprendimento para nos acompanhar e fazer o registro da turnê em vídeo, que não tivemos como não nos sentirmos abraçado. Samuel Mendes, que já trabalhou conosco em BH e encontramos em NY, e que acreditou tanto no que fazíamos que doou todo seu olhar estético para produzir um material fotográfico sem igual nesta turnê. Ao pessoal do Altnewspaper, Diego e Paulo, que gentilmente toparam a empreitada de publicar nosso material no veículo deles. E às pessoas que clicaram nesse Diário de Bordo, leram, e acompanharam o que vinhamos fazendo. É pra criar laços e tocar as pessoas que criamos o que criamos na música. E se a gente conseguiu chegar até os outros por outros meios, isso só faz aumentar a sensação de que estamos fazendo algo certo.


Tomo este relato também para festejar esse bom encontro que é fazer parte do Constantina. É engraçado porque essa convivência de estrada, onde a gente não tem como escapar de ficar juntos o tempo todo por um tempo longo, deixa muito claro mesmo o quanto somos absolutamente diferente. E não é que não soubessemos disso antes, mas quando a gente experiencia isso, dá pra colocar tudo numa outra perspectiva. Somos sim muito diferentes, e teve hora até de rirmos: como é que sai música desse grupo? E sai. Sai, talvez porque apesar de toda diferença a gente esteja aprendendo um pouco a fazer juntos, uns mais, outros menos, sem dúvida. E acho que saímos daqui também pensando como ainda é necessário trabalhar esse senso de coletivo, de grupo, porque ele é hoje no que mais se apoia a própria sobrevivência da nossa música. E isto é tão verdade que o grupo definitivamente não são mais apenas aquelas 7 pessoas que sobem no palco. Algumas se tornaram tão indispensáveis que não são apenas colaborações, mas são sentidas como parte do grupo mesmo. Sem a Carla e seu esforço contínuo talvez não fosse possível carregar o piano que estamos nos propondo a carregar.


Pra finalizar, queria contar um caso que rolou na viagem que fizemos de van de Marfa até Austin. Como motorista noturno, enquanto todo mundo dormia, pra me manter acordado botei uma música, que eu cantava com bastante energia pra espantar o sono. E uma música boa sempre dá um pouco de vontade de mostrar pra alguém que a gente gosta. E naquela noite não deu pra fazer isso, mas a música que eu mais gostaria que todo mundo pudesse ter cantado comigo – dentro e fora da van – dizia mais ou menos assim:


thanks to the people who cared/ enough to take us in/ put us up/ and give us hope/ let us know we're not alone/ thanks to the people who shared/ and helped us feel intact/ to come back/ shake it off/ and ride to rock again/ it's a lesson i didn't mind learning the hard way (Western Grace – Hot Water Music)


Gustavo Gazzola e Constantina

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