Documentário para lembrar Raulzito

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Raul - O Início, O Fim e O Meio


É impossível negar a força de Raul Seixas na música brasileira: mesmo 20 anos depois de sua morte precoce, aos 44 anos, em 1989, o polêmico roqueiro baiano ainda é um dos que mais vendem discos no país, com cerca de 300 mil cópias por ano. Além disso, quem nunca foi a um show e ouviu um “toca Raul!”, independente do estilo da banda que estivesse no palco? Com tanta popularidade, é com um certo receio que se entra na sessão de Raul – O Início, o Fim e o Meio, que estreia hoje (23) nos cinemas. O risco do alongamento da história, da tentativa de desvendar o cantor, e da omissão de seu passado obscuro são grandes, especialmente em tempos do politicamente correto.


Essas preocupações, porém, logo são postas de lado, enquanto observamos a competência do diretor Walter Carvalho na condução do documentário. Com material riquíssimo, que fugiu como pôde ao que já existe na internet, o longa não se propõe a decifrar Raul, nem tampouco a santificá-lo. Os depoimentos, pelo contrário, surpreendem pela franqueza.


Também não é deixada de lado a relação do cantor com a Sociedade Alternativa, e sua ligação com ocultista Aleister Crowley. O longa traz entrevistas com os mentores de Raul e do escritor Paulo Coelho na religião, além de cenas de rituais, e um divertido momento onde Coelho é confrontado por não ter rompido seu vínculo com a doutrina.


Parceiro de Raul por anos, o "mago" Paulo Coelho  é um dos principais entrevistados do longa, e traz à tona depoimentos que dificilmente serão esquecidos. Um deles é quando Coelho afirma, em tom sério, que não se sente culpado por ter apresentado as drogas a Raul Seixas, que, até então, era considerado um “careta”.





O que Walter busca é lembrar Raul, desde sua infância travessa na Bahia até o ostracismo e a volta, na polêmica parceria com o músico Marcelo Nova. Essa busca é um dos trunfos do filme, e encontra amparo em um depoimento de Paulo Coelho, quando ele diz que “Lenda não tem história, lenda é lenda. O Raul é uma lenda”.


Costurado com entrevistas fortes de filhas que não puderam crescer com o pai, ex-companheiras que assistiam Raul definhar no alcoolismo e na cocaína, e acervos preciosos – que incluem áudios de um maluco beleza ainda criança, cantarolando em inglês, e cadernos onde Raul escrevia e desenhava o roteiro de seus próprios filmes – o documentário envolve o espectador na história, com uma montagem ágil.


Um dos pontos altos dessa montagem é o momento em que o público se depara com uma discussão de quem foi o melhor e mais importante parceiro de Raul. Nessa hora, Walter e o montador Pablo Ribeiro alternam entre o depoimento de Paulo Coelho (que ajudou em sucessos como Sociedade alternativa) e do compositor Cláudio Roberto (que compôs Metamorfose ambulante) com uma briga de galos.


Raul – O Início, O Fim e O Meio é um longa corajoso, em que o diretor – que não era fã de Raul Seixas, e passou a conhecer mais o seu trabalho quando foi convidado para o documentário  – incorpora a personalidade contestadora, emocionante e divertida de seu personagem, e usa essas qualidades na linguagem do filme. A trajetória de Raul é tocante, e o resultado é um verdadeiro presente, tanto para os fãs quanto para o próprio cantor, que sonhava, desde pequeno, com o dia que estaria nas telas do cinema.


Raul - O Início, o fim e o meio


O texto acima foi originalmente escrito para o site da Revista Continente.

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