Dos parágrafos para as telas: os 10 melhores livros que viraram filmes (+ 10 que poderiam virar)

por - 14:05


parte 1 : 10 livros que viraram filmes.


se você tem acompanhado a série televisiva The Walking Dead, e por acaso resolveu acompanhar também a estória em sua via original, nos quadrinhos de Robert Kirkman e Tony Moore, já deve ter notado que a adaptação tá com pernas bambas porque a estória tá saindo muito fora da rota original: personagens que ainda estão vivos e que nos quadrinhos já morreram faz tempo; discussões e questões intermináveis que nos quadrinhos duram apenas 3 páginas... se continuar assim, a série de tv terá uns 10 anos de duração pra chegar no assunto de verdade.


é isso que fazem as "adaptações" de estórias pras telas, em geral. e nem adianta: por mais que tentem, você SEMPRE vai achar mais interessante o livro ou o quadrinho, por inúmeros motivos; entre eles o mais importante, a integridade do texto original. você já deve ter visto, por exemplo, o Alan Moore reclamando e amaldiçoando todas as adaptações que já fizeram de estórias dele, e a maioria com razão: a transferência pro roteiro de filmagem mutila a estória, disvirtua e, a merda maior, reveste tudo com uma camada comercial, que geralmente destrói a mensagem original do espólio. não é a toa que o sujeito fica puto da cara com isso.


então, vagando por aí pela teia, encontrei esse site que faz várias listas de vários assuntos. mal me lembro como cheguei nesse site, acho que 90% das coisas que se vê na internet você não sabe como foi parar ali; mas enfim, como sou um tanto que viciado na ideia de fazer listas pra qualquer coisa, e essa me pareceu bastante legal; vou fazer um pouquinho diferente: 25 é muito pra ficar escolhendo, considerando ainda que metade das escolhas do cara da matéria original, eu escolheria também!


reduzi as minhas pra 20, dividindo em 2 subcategorias: 10 livros que foram dignamente, veja bem, DIGNAMENTE adaptados pra telona, e mais 10 sugestões de boas estórias que bem poderiam ir parar na grande tela. nesse post vou colocar primeiro as que já foram feitas:



10 - No Country for Old Men, de Cormac McCarthy: na minha opinião foi um dos melhores trampos dos Coen Bros, mesmo que alguns críticos tenham torcido o nariz dizendo que a adaptação ficou muito abaixo do original. vá se acostumando com esse tipo de comentário nos itens: todos terão!... independente disso, a sensação de solidão intensa no filme inteiro, e o vilão de rosto inexpressivo vivido por Javier Bardem, com sua arma limpa de ar comprimido, já valem o preço do ingresso em algum super cinema de shopping.



9 - Um Estranho no Ninho, de Ken Kesey: tava vendo um doc sobre a viagem maluca de Kesey no bate-volta pelos EU, e no doc dizem que Kesey nem assistiu o filme que fizeram com a peça dele. isso deve significar que temos mais um escritor insatisfeito com a industria cinematográfica americana... particularmente, eu amo esse filme. MacMurphy do Jack Nicholson, a enfermeira maléfica, e cada um dos louquinhos que acabam assumindo nucleos de personagens, algo bem maior que coadjuvantes. uma coisa que eu não havia notado, fundamental: o personagem principal do filme é o indio calado, que foge no final, na cena clássica do enorme bebedouro jogado contra a janela. ELE é o narrador da estória, sabia dessa? no livro isso fica bem claro, coisa que não é percebida no filme. ficaria dificil passar isso, eu acho, afinal o que um indio gigante quase catatônico estaria fazendo ali num sanatório? pensa nisso.



8 - O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli: adaptação primorosa que faz juz à obra soturna do escritor paulistano. o próprio Mutarelli atua como o "segurança" do estranho e desproprorcionalmente enorme antiquario, onde se passa a maior parte das cenas, ou seja, provavelmente a obra toda foi rodada sob os olhares do autor, fato que impediria qualquer mudança grotesca na estória original. a estória toda gira em torno de um homem desprezivel, desempenhado magnificamente por Selton Mello, e uma "bunda", motivo de fixação do personagem. conta a estória que Selton Mello até dispensou cachê pra poder interpretar o personagem. word.



7- Crash, de James D. Ballard: a estória não poderia ser melhor administrada no cinema por outro senão David Cronenberg: rei da bizarrice orgânica, Cronenberg estava com o dominio completo dessa união bizarra entre carne, visceras e tecnologia (havia passado por Videodrome e A Mosca), quando resolveu pegar Crash, um clássico do conceito cyber-punk, para transpor na película. sexo e acidentes de carro é muito estranho pra você? sim, pra qualquer um! mas fetiche é fetiche, não existem padrões nem caráter. o personagem Vaughn estampado por Elias Koteas é identico ao maniaco suicida do livro, onde Cronenberg não poupou a violência, a sexualidade e as cicatrizes enormes nas cenas. um dos meus filmes/livros preferidos ever.



6- Medo e Delirio em Las Vegas, de Hunter Thompson: foi parar na mão responsa de Terry Gilliam, especialista em sonhos lombrantes e viagens de psicotrópicos. lembro de ter aguardado ansiosamente o lançamento desse causo no cinema e, quando fui na estréia, eu ria feito um idiota na sala, para desespero dos pagantes ao meu lado, maravilhado com cada detalhe de insanidade e psicodelia relatado e visualisado por Raoul Duke (Johnny Depp) e seu fiel (sic) adevogado samoano ("povo depravado, esses samoanos", dizia Hunter), na primeira sequência em que dão carona pra um inocente garoto tipico americano. uma estória de joselitagem tão absurda - o próprio Thompson reconhece que em partes inventada - que não poderia deixar de virar filme. parece que "quase tudo" correu bem nessa adaptação - fora o fato de Hunter ter ficado PUTO porque não queria parecer uma caricatura idiota nas animações que faziam parte das lombras em Fear and Loathing, como mostra o doc Gonzo. ok, o dr Thompson era um tipo bem... excêntrico, pra dizer o mínimo.



5- O Padrinho, de Mario Puzo - que ganhou o previsivel nome de "O Poderoso Chefão" por aqui (nomes de filmes traduzidos pelas distribuidoras brasileiras também renderiam um bom assunto, diga-se de passagem!); a incrível estória do clan ítalo-americano Corleonne foi um dos melhores trabalhos do diretor Francis Ford Copolla, apoiado por um time incrível de atores (Marlon Brando, Al Pacino, Diane Keaton, Robert DeNiro, Robert Duvall, James Caan, John Cazalle...), só deslizando um pouquinho na terceira e ultima parte da saga, mesmo assim com muita qualidade. a primeira e segunda parte são clássicos indubitáveis e eternamente referenciais para qualquer filme do gênero que envolva máfia, violência e cabeças de cavalo!


4- Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Phillip K. Dick, é o nome original do que ficou mais conhecido como Blade Runner, de Ridley Scott, quando foi pro cinema. cada cena, cada detalhe desse filme é uma obra de arte da tela grande. Scott captou a essência perfeita do cyber-punk, com um detetive degradado lidando com humanóides replicantes em forma de femmes fatales e vilões grandiosos entremeio um clima sombrio, que nunca aparece a claridade do sol por conta das constantes chuvas ácidas. grandes telões voadores e auto-falantes que misturam ingles, japonês e lingua cigana ecoando pela cidade como numa cena de 1984. futurista-noir, quer coisa mais cool que isso??? e é por isso que Blade Runner é moderno até hoje, e sempre será (até o dia que o presente for daquela forma mesmo). detalhe desse roteiro que inicialmente sofreu cortes grotescos nas cenas, por ordem do estudio que detinha os direitos de filmagem. mas Scott se redimiu quando lançou uma segunda versão do filme, com a famosa cena do unicórnio - nos sonhos e no origami - que mudam completamente o sentido da estória toda no final.



3- Clube da Luta, de Chuck Palahniuk: já era um petardo da literatura contemporânea quando caiu na mão de David Fincher. daí virou cult instantâneo. critica ao sistema consumista e às amarras sociais do senso comum, Clube da Luta é uma estória do homem pós-moderno em busca da paz interna, e fracassa como ser social. as montagens e fotografia urgentes, com muitas referências de rodapé em plena tela, é completamente concebível ao parâmetro de leitura do livro original. na real, Palahniuk é um escritor tão eficiente e atualizado, que qualquer livro dele é um potencial roteiro pra um bom filme. gênio.



2- O Iluminado, de Stephen King: esse é um caso curioso de cria superando o criador. a partir da estória de fantasma com um menininho "diferente", mais uma das milhares de Stephen King, o mestre do cinema Stanley Kubrick criou uma obra impressionante de medo. mudou muita coisa na estória original pra atingir o nível de terror que procurava, e King não gostou nada disso. lutou muitos anos contra a obra de Kubrick, até que resolveu fazer sua própria versão cinematografica da estória. ficou uma merda. King teve o dissabor de ver sua obra crescer fora de sua competência, apesar dos créditos no filme. só acho que King não deveria ficar tão magoado assim, afinal é uma obra prima do cinema que leva seu nome como autor, mesmo não sendo 100% dele de fato. e de qualquer forma, ainda houveram ótimas (e outras horríveis) adaptações pro cinema com a integridade de seus textos. pára de chorar, ô feião!!...



1- Perfume, de Patrick Suskind: o que Tom Twyker conseguiu aqui foi simplesmente genial. li esse petardo do conceito existencialista há muitos anos atrás e sempre o considerei uma estória fascinante, sobre um homem chamado Jean Baptiste Grenouille, um ser aparentemente medíocre e insignificante que tinha unicamente um super-olfato à seu favor, e com isso conseguiu feitos assombrosos. a estória é completamente coerente com a correspondente época e com as descrições "olfativas" do personagem, ao ponto do leitor realmente compreender a dimensão desse dom que Grenouille possuia, fato esse que se fazia impossivel a transferência visual das ideias na tela. o livro foi interesse de grandes cineastas por anos à fio; inclusive Kubrick quase se comprometeu com o projeto certa vez, mas arregou feio após ver a bomba que era esse lance de passar idéia de odor na tela. Twyker conseguiu concluir a empreitada com considerável respeito no roteiro geral; obvio que com uma boa ajuda das mais inovadoras tecnicas visuais modernas... mas conseguiu. pra mim, a melhor adaptação de um livro pras telas.


na próxima postagem, concluo minhas 10 sugestões de bons livros que ainda não ocorreram para as telas. os estudios de "Róliúde" não sabem a grana que estão perdendo....

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2 comentários

  1. Diego Albuquerque5 de abril de 2012 15:43

    Eu teria incluso ensaio sobre a cegueira, que eu achei um filme decente (logico que o livro é muito melhor, mas o livro é genial, absurdo!)



    mas eu achei o filme bem decente.

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  2. Não sei se "2001 - uma odisseia no espaço" entraria nessa, já que o livro e o filme foram feitos, praticamente, simultaneamente, mas uma ótima adaptação. Alias, por falar em adaptações kubrick é referencia.

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