John Zorn's Masada ao vivo no Cine Jóia, 17/03/2012 (ou: Como fazer um ateu atingir o estado de graça)

por - 14:09


chorei na rampa, meus amigos.


confesso que eu, homem feito e racional, não muito dado à descontroles, me escorri em lágrimas na noite desse sábado 17 de março, debruçado no bar do Cine Jóia, casinha simpática expoente de bons eventos fixado num beco descabelado dentro do ponto zero da Sé, enquanto John Zorn acionava insandecidamente seu saxofone desbotado pelos anos, em companhia de outros três GENIOS musicais do jazz moderno. esperei 15 anos por esse dia, e pensei que sinceramente nunca aconteceria, afinal havia quase pego apresentações de Zorn por duas vezes: uma na minha temporada na terra do sol nascente, outra numa passagem pelo velho mundo. mas o dia chegou, e foi aqui mesmo, no lugar onde vivo. e não me desapontei nem um pouco, muito pelo contrário: foi uma das mais fantásticas exibições de musicalidade que já presenciei.


cheguei no lugar uma meia hora antes do inicio. um amigo que já estava de prontidão por ali havia dito que Zorn e sua trupe já havia passado por perto, com uma cara não muito animada, esbravejando com um funcionário da casa. "não é bom sinal", pensei, "espero que não o faça desistir: mais 15 anos esperando pra ver isso não vai ser legal". pra completar, a casa anunciou que enquanto o espetáculo acontecesse, por exigencia da banda, não seria vendido bebidas no bar. pedido de cunho religioso? não soube. mas por via das dúvidas, compra logo duas cervejas pro decorrer do espetáculo. fotos e filmagens também não seriam permitidas durante o show (o que mais à frente ficaria evidenciado com Zorn de picuinha com um fotografo da platéia. relatos e boatos dizem que esse não atendeu o pedido de Zorn e tomou-lhe uma catarrada na cara...)


mas o que importa agora é a presença desses quatro musicos novaiorquinos, judeus praticantes, jazzistas por excelência, no palco de aparência cuneiforme e agradável do Cine Jóia. se o nome é novidade pra você, o som do Masada é uma coisa bem única. um novo molde pro jazz, que pode ter como referencial de start lá nos anos 20 com o guitarrista cigano Django Reinhardt, mas com muitas outras influências definidas. os dois principais elementos que se nota no som do Masada é a música klezmer, temas típicos da sonoridade judaica baseados em escala arabesca, e o free jazz - no caso, principalmente o free jazz do pai dos freestyles: Ornette Coleman. as sequências siamesas do sax de Zorn e do trompete de Dave Douglas, apesar de completamente derivadas de Ornette Coleman, são inimitáveis. ainda dentro do free jazz, Zorn não se aguentava em certas passagens e degringolava suas caóticas notas apinhadas de No-Wave novaiorquino, movimento qual foi participante; infestava os ouvidos do auditório inteiro, e voltava no tema judaico. foi no final dessa primeira catarse que as lágrimas rolaram. trola, se quiser, pode trolar! mas foda-se, o bagulho é lindo...



desde que descobri esse caos sonoro que Zorn pronunciava, lá pelo começo dos 90, meu sonho era ver essa porra ao vivo - mais especificamente sua banda anterior, o lendário Naked City. dichavava cada som que via nas VHSes podres que eu encontrava na galeria do rock, lembro bem, um show lendário no Radio Music City Hall, com Yamatsuka EYE no vocal. era tão destruidor quanto qualquer boa banda de death/grind/thrash que acontecia na época. já disse em um txt anterior como John Zorn e sua Naked City me fizeram compreender melhor bandas como Napalm Death, Accüsed, Extreme Noise Terror, OLD, Lip Cream, entre outras, inclusive enxergá-las dentro de um movimento vanguarda da música. enfim: ainda sobra esse espirito em quase qualquer coisa que Zorn toque. esse caos medonhamente organizado é sua marca registrada.


essas alucinantes passagens de um estilo pra outro é o constante no desempenho do Masada: no terceiro tema (Tekufah, se não me engano) a banda ficava emergida naquelas escalas orientais quase hipnóticas e veneráveis, pra no minuto seguinte entrarem no barulho desorganizado que lembrava gente falando, buzinas abafadas (entendi finalmente como ele faz essa porra de barulho, passando o "sino" do sax pela coxa da calça!), britadeiras de rua, barulhos urbanos, caos de organização do ir-e-vir, e PAM! já estavam em outro ritmo, outro ambiente, outro mundo! podia ser a trilha sonora de um filme noir, podia ser uma cena de perseguição de Tom & Jerry, e de repente voltava no tema central, Greg Cohen impecável, mantendo o andamento do tema sem um único deslize das notas densas do contrabaixo, e Joey Baron saia da consciencia conhecida por nossas mentes numa percussão que, sinceramente, não há baterista compatível que a demonstre. mostruoso, senhoras e senhores, monstruoso!


o segundo tema foi uma impressionante demonstração de como a banda é, apesar de claramente jazz, imergida na cultura judaica. Zorn, por sinal, estava caracterizado com o tzitzit, vestimenta religiosa judaica, por baixo de uma camiseta simples vermelha e suas tipicas calças cargo camufladas. você saca que cada tema é quase um hino judaico, uma passagem das escrituras do Torá, ou de algum episódio cruel da estória das tribos de Abraão. nesse caso, quase dava pra sentir, na intensidade carregada de tristeza da melodia, uma passagem do fatídico episódio nazista sobre o povo judeu. quase uma trilha sonora para algum episódio da Kristallnacht, que aliás foi tema de um disco inteiro de Zorn. reflexivo paracai.



nos próximos temas, trechos inebriantes continuaram se sucedendo, uma atrás do outro. um pouco mais de uma horinha de show, mas foi tudo muito impressionante. cada sinal captado, cada nota inteiramente assimilada. um banquete sonoro. acredito que o público geral também apreciou muito o show todo, mesmo todos em pé à frente do palco (ok, nisso houve falha. era show pra assistir sentadinho, de boa) houveram  ovaçõescalorosas, principalmente nos solos do Joey Baron. rolou até um "vai Corinthians", claro, estamos em São Paulo. mas considerando que os "corintios" também fazem parte do Velho Testamento, fica tudo em casa então!


"nunca um ingresso valeu tanto o preço pago", disse meu amigo George. e eu concordei plenamente. o dinheiro vai, mas sobra a satisfação de não ter perdido um show desses, e esperar que um dia desses o sr Zorn, e algum das suas dezenas de projetos sonoros, aportem por esses lados novamente.  todá rabá ao senhor Zorn & Masada, e shalom ao som klezmer e comunidade hebraica: vindo diretamente de um ateu legítimo, significa que o show foi muito apreciado, pode acreditar.

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1 comentários

  1. Ótima resenha! Conseguiu traduzir um pouquinho da experiência que foi estar lá, simplesmente genial!

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