"Sobre rodinhas menos destrutivas"

por - 16:11

cronica mal estar

 Lembro bem dos tempos em que era o suprassumo do suicida. Um dia poderei contar esta história para meus filhos, netos ou para os passageiros do ônibus em que eu estiver sentado, bêbado. Eu já fui skatista em São Paulo. Não parece grande coisa, mas futuramente será. Do jeito que a coisa anda, qualquer transporte diferente de carro e busão nas ruas não terá mais vez. Talvez esteja sendo sensacionalista, mas a cada tentativa de se ver uma cultura diferente da do automóvel nas ruas, a gente recebe uma notícia triste que nos faz retroceder por medo de dar mais um passo a frente na luta... e ser atropelado.


Eu ainda ando de skate, devo dizer, mas não como antes, ah não! Antes eu era o verdadeiro guerreiro do asfalto, com o skate pichado, as calças largas, os tênis cobertos de silvertape e a intenção destruidora de me divertir a qualquer custo nas ruas da cidade. Até parecia um figurante de um clipe do Black Flag. E eu certamente me sentia como um. Porque ficava no background de algo muito maior que eu, não tinha nenhuma fala relevante, mas não estava nem aí, contanto que me pagassem os dez reais que me prometeram. Aquilo sim era vida.


Naqueles tempos, já sentia o peso daquilo que hoje aguentamos ostensivamente graças as propagandas “criativas” sobre o quanto você é babaca sendo um pedestre. Eu e minha galera disputávamos espaço com os carros, ônibus, pedestres, outros skatistas, cadeirantes, carrinhos de feira, cães, prédios, latas de lixo, mendigos e, meus favoritos, os evangélicos que pregavam como se estivessem lutando contra o Darth Maul do Star Wars. E já era difícil naqueles tempos. Mas ao menos todos se seguravam para não se matar.


Se eu ainda fosse um skatista hardcore como já fui, sabe-se lá onde eu estaria hoje. Talvez em Venice Beach disputando campeonatos ou pagando de veterano do Vietnã com meia perna e reclamando do quanto tive sorte em não ter sido a outra metade de cérebro. Ah, só pra ilustrar, nunca peguei ninguém quando era skatista, talvez por me importar de verdade com skate e por viver aquilo de maneira plena. Ou talvez porque nunca tenha reparado em como as mulheres piram em skatistas. Hoje em dia elas devem pirar mais ainda. Mas ironicamente, elas não piram em motoristas de ônibus, que são igualmente nervosos nessa briga pelo espaço nas ruas de São Paulo. Vai entender, né...


Bom, com as últimas baixas, espero que a batalha pela rua não seja perdida e sejamos fadados ao trânsito caótico eterno. Espero que as mortes dos ciclistas sejam, no mínimo, motivo de reflexão a todas as partes envolvidas nessa orgia ideológica. Por fim, também espero que os outros meios de transporte sobrevivam e resistam aos constantes golpes que sofrem. Pelo bem de São Paulo, o Texas brasileiro. E quem sabe um dia um novo skatista contará uma história diferente.


cronica mal estar

Você também pode gostar

0 comentários