Uma cabeça pensante no mainstream de Hollywood

por - 11:10


falar sobre o cinema de entretenimento americano é uma treta. você fica naquele dilema do que é limite aceitável comercial ou cinema de autor, que é mais autêntico, ou até SE É autêntico bla bla bla... verdade que é bem dificil engolir uns lixões pré fabricados, de planos previsíveis e falas tão naturais quanto um suculento Big Mac.


mas temos que reconhecer que alguns caras realmente mandam bem, misturando sua pitada de personalidade do tal "cinema de autor" com elementos do formulão cinema drive-thru e uma talagada de tecnologia. admiro uma meia dúzia dessa rapaziada moderna: Wes Anderson, Spike Jonze, Todd Solondz, Paul Thomas Anderson... e David Fincher.


David Fincher em especial tem uma filmografia, eu diria, 92% impecável. só um (ou dois) de seus filmes são razoáveis - o Quarto do Pânico, no caso. e The Game eu não vi, não posso dizer. mas de resto, não existe falha. é só obra-prima. Seven e Zodíaco trabalham a (sua própria) obsessão pela perfeição. Benjamin Button é uma estória extraordinária sobre vida, morte e realização, propositadamente fora dos moldes normais, como único meio que faria o espectador enxergar a vida como ela é. Clube da Luta ganhou status de cult e é considerado dentre os 100 melhores filmes do cinema mundial. Na Rede Social, eu pensei que Fincher ia deslizar no quiabo por abordar um tema tão atual e mainstream como esse. mas foi impecável novamente e inseriu uma trama cabulosa na estória, fazendo o Zuckerberg se vestir de lobo em pele de cordeiro. ao contrário.



Fincher não faz o tipo Woody Allen ou Cassavetes, que escrevem seus próprios roteiros, mas simplesmente DOMINOU a arte de adaptar livros para o cinema. esses dias eu vi sua última realização, The Girl with the Dragon Tattoo, que faz parte da já mundialmente famosa trilogia Millenium do tal Stiegg Larsson. já havia visto a versão cinematográfica sueca, e essa serviu somente como curiosidade pra saber do que se tratava a obra, e acabou que serviu de parâmetro pra determinar o quanto Fincher é competente no que faz; a versão sueca não dá aquele tesão de entender e tentar desvendar a estória: ela simplesmente apresenta os fatos, só isso. termina do jeito que começa, insipido e frio, como os invernos suecos. sinceramente nem me empolgou em sacar os outros dois episódios. muito menos conferir as versões cinematográficas. mas Fincher mete a mão na massa e torna tudo mais ágil e refinadamente compreensível, muitas vezes sem o auxilio de diálogos entre os personagens. o encontro real entre Blomkvist e Salander, os dois principais, se dá ao longo de 40 minutos transcorridos: firma a idéia que viviam em dois mundos díspares, mas que era parte de algum misterioso e inevitável "destino" (prefiro a palavra "acaso") realizar essa parceria ideal.


o clima cyber-punk é muito mais intenso também no trampo de Fincher, não só com a destreza hacker de Salander, mas no visu, no clima escuro/pastel (de Seven) e na trilha sonora insistente de Trent Reznor. integra muito melhor uma situação sombria com um toque de William Gibson.  psicologicamente obscuro, horripilante. algumas cenas de intensidade nas mãos de Fincher ficam muito mais terriveis: a cena de estupro de Lisbeth Salander é incrivelmente mais cruel do que a da versão sueca. e a vingança de Lisbeth contra seu tutor-estuprador também não fica nada abaixo...


ainda nessa situação do estupro, Fincher quase se mete numa enrascada quando propõe em Lisbeth uma hojeriza à classe masculina, que se demonstra nitidamente lésbica mais à frente numa cena de clube/casa/café da manhã. "a hacker e o jornalista vão ter um casinho COMO??", me perguntei. "nessa o Fincher se lascou. fudeu o roteiro!". mas não, ele acaba dando um jeito, se apoiando na frieza incontida dos dois personagens, principalmente na hacker, como "fator de cura" para a possível "heterofobia" desenvolvida por Salander.


justificando o fato que americanos pegaram o jeito de fazer entretenimento, David Fincher aprendeu bem a lição de casa e colocou essa pitada obscura em seus trampos. um lance que te faz ficar com medo da mente humana, aquela velha frase "the mind is a terrible thing to taste", profetizada por Forest Long e imortalizada por Al Jourgersen e seu Ministry. o fato é que antes nem me interessei muito nessa parada de best seller Millenium: parecia uma pataquada de série policial-sinistro, algo bem fraquinho e deglutível... mas agora deu uma estiga de ver os outros dois episódios. tomara que Fincher continue essa empreitada.


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