Uma jovem que cultiva a poesia dos pequenos detalhes

por - 09:04

poesiamóbile


Imagine-se passeando pelas ruas de São Paulo e, ao se aproximar de um daqueles orelhões cheios de adesivos de garotas de programa, encontrar um diferente. Entre ofertas, tamanhos de seios e bundas e posições do Kama Sutra, lá está ela, a Bebel do Tom Jobim, bem pertinho da Ive Brussel, do Jorge Ben, em adesivos quase iguais aos das outras moças, não fossem os seus fragmentos de músicas.


Essa ação, que se chama Escuta a Puta, faz parte do De Propósito, trabalho da artista plástica paulista Patrícia Chmielewski, que com inspirações que vão de Duchamp a Drummond, faz do mundo o seu próprio museu. Para isso, ela o decora com memorabílias repletas de poesia, e um olhar carinhoso àquilo que, para a maioria de nós, passaria despercebido.


Em conversa por email, ela me falou sobra a sua relação com arte visual e poesia, o trabalho com o De Propósito e como lidar com o excesso de estímulos dos dias atuais, principalmente para quem vive na capital paulista.


Você se formou em letras, e estuda literatura. Como se iniciou o caminho nas artes plásticas?
Desde criança, sempre tive muito interesse por artes plásticas. Como minha tia era fotógrafa profissional e duas primas minhas também tinham trabalhos autorais, foi um caminho que surgiu naturalmente. Chegando na fase de escolher uma faculdade, minha primeira opção seria Artes, mas por uma questão de mercado acabei optando por Publicidade. Me formei na ESPM em Publicidade e Propaganda em 2001 e só em 2009 voltei a estudar, cursando, desta vez, Letras na USP. Atualmente sou diretora de criação em uma agencia digital e divido meu tempo livre entre minhas peças de arte conceitual e livros, muitos livros.


Quando surgiu o De Propósito?
O De Propósito surgiu em 2008, quando eu conheci a poeta Bruna Beber. Nós trabalhávamos juntas em uma agência de propaganda e nos momentos livres conversávamos muito sobre arte e literatura. Na época ela procurava uma editora para lançar um livro de poesia e eu comecei de brincadeira a estudar alguns suportes alternativos para as poesias que ela produzia. Ela adorou e segui em frente com meus estudos, derivando esse pensamento para outros autores em diversos formatos. O nome, De propósito, é por ironia, exatamente o oposto do que foi o embrião do projeto. Foi sem querer que eu descobri que podia trazer um olhar novo, tridimensional, para a mensagem dos meus escritores prediletos. Daí a transferir essa abordagem aos meus próprios textos foi um pulo.


No fim de 2010, eu fui então convidada a mostrar minha produção em uma palestra do Projetos de Garagem, uma iniciativa do Ideia Fixa e da Inesplorato para incentivar novos talentos das mais diversas áreas. Acho que nesse momento o que era apenas uma atividade mais intimista, acabou chegando ao conhecimento do grande público.
escuta a puta


Você conta com a ajuda de algum colega na produção? E para as criações, aceita sugestões?
Minhas criações são, na maior parte das vezes, livremente inspiradas em textos de prosa e poesia dos meus autores do coração. Então, antes de mais nada, posso considerar que muitos grandes nomes da literatura me ajudam em meu processo criativo.


Quanto à produção, no dia a dia eu trabalho sozinha, até mesmo porque eu não produzo minhas peças em larga escala. Mas, em momentos em que a ideia ou a situação pedem um trabalho braçal mais intenso, não faltam amigos e parentes para as forças-tarefa de emergência. Como nem sempre a verba de execução é grande, todo mundo entra na dança.


Em relação à criação, eu acho que a maioria dos artistas da atualidade entende que nenhuma obra existe isolada do público. É da interação do espectador e das opiniões dos amigos que vem a energia mais forte e os estímulos mais instigantes, fazendo com que obras teoricamente fechadas possam ter um novo desfecho, inesperado e surpreendente.


Vi que, além de intervenções com objetos mais pessoais, como o cubo mágico, você brinca com coisas públicas, como no Escuta a Puta, que traz adesivos mais poéticos para os orelhões de São Paulo. Como surgem essas ideias? São repentinas, no meio da rua, ou você tira um momento para pensar nelas?
Minha produção tem dois momentos distintos. Um deles é realmente pensado, em momentos que eu reservo para ler, estudar referências, rabiscar, testar, fazer, refazer, experimentar materiais. Enfim, é a parte de encubação de temas que me interessam no momento.

A outra parte, que acaba ficando mais explicita nessas intervenções urbanas, é a da criação das obras em si. É quando, de repente, tudo aquilo que estava incubado acaba se juntando e fazendo sentido, originando uma nova proposta. Isso às vezes acontece em casa, no meu minúsculo ateliê, que se resume a um quarto com escrivaninha, um painel de cortiça e muita bagunça.


Mas na maior parte das vezes se dá mesmo em trânsito. No ônibus, no metrô, no meio da rua. Pode parecer clichê mas acredito realmente que o material mais fértil para qualquer artista é o comportamento humano. As pequenas histórias do dia a dia que acabam escondidas porque a gente não tem tempo de observar. Esse tipo de estímulo não dá pra ter trancado num escritório, num ateliê... Tem que ir pra rua, estar sensível e se deixar levar.


Fiquei com a sensação que o projeto trabalha com memorabílias, e junta a poesia visual, musical e sentimental, de uma percepção atenta e carinhosa do mundo, que não esquece da beleza dos pequenos detalhes. Cheguei perto?
Poxa, ai me fode, hein? Com perdão do palavrão, mas é uma leitura realmente muito fiel ao que me trabalho significa. A coisa de olhar a vida, os objetos e cenas do cotidiano com mais cuidado, com mais carinho.


Acho que o que eu pretendo, por mais inocente que essa frase possa soar, é resgatar o valor das pequenas coisas. Sei que muitos artistas trabalham com questões sociais, ou às vezes pelo contrário,  com temas extremamente pessoais ou puramente estéticos. Eu busco algo que seja ao mesmo tempo muito meu e que possa também tocar um âmbito coletivo. De resgate da sensibilidade, da importância de cada dia, de todos os dias. Trabalhar com objetos do cotidiano, que tenham essa carga sentimental, ajuda a trazer a sensação que eu quero passar. Enfim, você acertou em cheio.
Patrícia ChmielewskiA menina que faz do mundo o museu, de propósito - Patrícia Chmielewski


Qual é o preço, em média, das obras? Tudo que está exposto no site é vendido?
Olha, tem muitas obras que acontecem de uma forma muito rápida, instantânea, e que tem a ver com um momento especifico. Então acaba sendo difícil de reproduzir ou até mesmo de precificar. As intervenções urbanas, por exemplo.


Em se tratando de obras que permitem a possibilidade de reprodução em escala, eu procuro torná-las o mais acessível possível. Um cubo mágico, por exemplo, custa em média 30 reais. Não adianta nada você achar que vai mudar o mundo se sua arte é inacessível pra 98% da população do país. Eu sou a favor de uma arte mais democrática, inclusiva. Uma vez eu ouvi uma frase muito massa que dizia que livros deviam vir na cesta básica. É meio que isso. Quanto mais pessoas puderem ter uma peça minha em casa, no trabalho, na estante do quarto, mais longe chegou minha mensagem.


O que mais influencia o teu trabalho?
Quanto a referências, tem alguns nomes que eu considero grandes padrinhos, os caras que abriram caminho para a arte nos moldes do trabalho que eu faço.


Nas artes plásticas, obviamente Du Champ, precursor, pai da arte conceitual. O Artur Barrio, que utiliza matérias-prima do dia a dia. E o Oiticica, pelo conceito de interatividade, a importância da participação do espectador com a obra.  Além, é claro, dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo. Minha obra tem muito a ver com a poesia concreta, os poemóbiles, por exemplo.


Para falar de literatura, eu poderia fazer uma lista interminável de grandes nomes que me dizem muito, mas pra criar um top 5 eu separaria Cortázar, Leminski, Pessoa, Drummund – evidentemente - e minha querida Bruna Beber.


Como funciona a composição das obras? As citações vem primeiro, ou os objetos? A maioria dos textos são teus?
Então, acho que um pouco dessa pergunta eu já respondi anteriormente, quando a gente falou sobre o processo criativo, se ele acontece pensado ou não. Mas, na relação texto x objeto, não existe muito um que venha primeiro. As coisas acontecem meio que de forma natural, um chamando o outro no momento certo.


Os textos, se não são de autores que eu gosto, acabam sendo meus mesmo. Tenho junto com alguns amigos um twitter de micro-contos, o @minicontos. Que serve como repositório de frases e pensamentos que eu acabo usando em algumas obras. Além disso, eu sempre carrego comigo um, dois ou vários cadernos nos quais eu vou anotando coisas em trânsito, coisas que eu li, que eu vi. Essa coleção de apontamentos eu revisito de tempos em tempos e acabo sempre pescando material pra novos estudos e obras.
Mono Contos


Como é o feedback das pessoas em relação ao teu trabalho? Você já teve a oportunidade de expor?
Olha, eu não tenho feedback de absolutamente todo o meu público, é claro, mesmo porque muitas das pessoas que veem ou compram minhas obras nunca teve nenhum contato direto comigo. Mas das pessoas mais próximas que me trazem notícias de amigos, conhecidos, etc, parece que as impressões são legais sim. As pessoas realmente ficam sensibilizadas com a mensagem e acho que isso é o mais importante. Saber que uma pequena contribuição minha serviu pra fazer alguém sorrir, se emocionar, sair da inércia, é bom demais.

Nunca expus minhas obras individuais em galeria. Eu vendo alguns objetos pela internet e em uma loja colaborativa aqui em SP, chamada Endossa. Fiz essa palestra para o Ideia Fixa, que foi uma oportunidade bem legal de divulgar minha mensagem. E expus em um evento coletivo num espaço chamado Casa de Barro, no Ipiranga. Esse ano recebi um convite para fazer parte do corpo de uma galeria nova, que deve abrir no segundo semestre, mas ainda não está nada fechado. Fui consultada também por uma grande editora de SP para tentar algum tipo de parceria, mas estamos conversando ainda sobre um formato bacana. Quero começar a me concentrar mais em editais e outras oportunidades que me permitam divulgar meu trabalho de uma forma mais ampla, mas, no momento, vamos na guerrilha e no boca a boca mesmo. Por enquanto, como diria o Oiticica, o museu é o mundo.


Você diz que vivemos em uma época de excesso de estímulos. Como é divulgar esse trabalho, ao mesmo tempo tão delicado e cheio de vida, principalmente em uma cidade onde tudo acontece ao mesmo tempo, como São Paulo? Qual é o teu maior meio de divulgação, a internet?
Acho que a graça é exatamente essa. A batalha entre a grande máquina cosmopolita, produtiva, non-stop que é São Paulo, por um lado. E a delicadeza das minhas obras do outro. Talvez, em algum momento, eu  sinta a necessidade de fazer um barulho maior, me aventurar por formatos mais grandiosos e impactantes. Mas, no momento, a minha viagem é mesmo esse trabalho de formiga. De conquistar pelo detalhe, pela sutileza, grãozinho por grãozinho. Porque a forma reflete isso mesmo. Minha matéria prima é aquilo que estiver a mão, que esteja no dia a dia do público. No meio da confusão, da bagunça, do movimento frenético da cidade grande, você ser surpreendido por um detalhe, um momento, que te desperte de novo para quem você é e para o que realmente tem valor. Seja um fósforo, um cubo ou simplesmente um sorriso de um desconhecido no metrô.


A divulgação das minhas obras se dá principalmente pelo boca a boca dos amigos e conhecidos. E também pela internet. Apesar do meu trabalho ser muito mais artesanal e precisar muitíssimo do real, do contato humano, é impossível ignorar a web. Não só porque ela está em todo lugar, mas também porque ela já faz parte da nossa vida real tanto quanto qualquer  objeto do dia a dia. Se ela me dá o poder de atingir milhares de seguidores do @minicontos, por exemplo, é uma forma de distribuir minha mensagem por ai.


Esse excesso de estímulos, de certa forma, te ajuda a criar, deixando tua mente sempre alerta pra captar as coisas ao redor?
Eu trabalho em uma agência digital. Isso faz com que eu fique, por hábito, 24h por dia conectada. Seja no computador, no tablet, no celular. Esse excesso de estímulos faz parte do meu dia a dia de uma forma muito agressiva. Não acho que isso me traga uma mente sempre alerta.  O tanto de informações que o nosso corpo tem que receber o tempo todo faz com que nossa sensibilidade diminua drasticamente. É como uma espécie de filtro que protege seu cérebro de virar uma paçoca com tanta gente querendo que você curta, compartilhe, assista, clique, ouça, compre, etc. Nessa ciranda o SENTIR, o PERCEBER, acabam muitíssimo prejudicados. A gente passa o dia inteiro olhando sem ver.


Acho que exatamente por isso eu senti a necessidade de buscar uma manifestação autoral que fugisse completamente dessa hiper-conexão com nada que acabou se tornando o cotidiano da vida moderna. Agora, ao contrário dos futuristas, que exaltavam a máquina, a rapidez, o frenético, eu busco a paz, o momento de reflexão, aquela pausa necessária pra se reaprender a ouvir e a sentir as melhores coisas da vida.

Se você for ver, tem vários movimentos acontecendo atualmente que manifestam essa vontade de ter mais tempo, de aproveitar a vida de uma forma mais real. O pessoal do slow movement, por exemplo...


 

Palitos

Me fala um pouco dos outros projetos. No nosso primeiro contato, você chegou a comentar sobre uma revista que elaborou e lançou com uns amigos, mas que não alcançou muita divulgação...
No momento minhas energias estão bastante concentradas no projeto gráfico do novo livro de poesias da Bruna pela editora Móbile Editorial, que vai se chamar Rua da Padaria. O lançamento está previsto para o meio do ano.

No fim do ano passado eu participei do projeto de uma revista chamada  #Prova, que foi uma obra coletiva idealizada pelo Atelier Ludovico. A revista teve por volta de 150 exemplares, todos originais e numerados, e foi inteiramente serigrafada pelos artistas. Ela foi lançada e vendida pela galeria Choque Cultural.


Pra mim, foi uma experiência muito legal porque fugiu bastante do meu processo criativo. Ter que me adequar a um tipo especifico de suporte e a um tema pré-definido, no caso o erotismo, foi um exercício bem interessante para abrir novos caminhos pra obras futuras.

Infelizmente, a divulgação de projetos de arte independente ainda carecem muito de apoio não só em São Paulo, mas acho que no mercado como um todo. Por isso conto sempre com os amigos e o acaso das minhas mensagens espalhadas pelas ruas para pegar o público no susto. De propósito mesmo só a intenção de mudar de alguma forma aqueles que tomam contato com a minha arte.


O trabalho de Patrícia pode ser encontrado no site Follow The Colours (www.ftcshop.com.br) e na loja Endossa Augusta (R. Augusta, 1372, São Paulo).


 

Quadrilha 3D

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