A Revolução será Instagramada – Ou #freeinstagram

por - 14:09

[caption id="attachment_14015" align="aligncenter" width="612" caption="Foto: Instagram de Priscilla Buhr"]Ocupe Estelita[/caption]

Esse texto nasce de um incômodo. No último domingo, estive presente no Cais José Estelita, acompanhada de mais ou menos mil pessoas (ao menos foi o que pareceu), que participavam do Ocupe Estelita. Pra quem não é do Recife, este é um protesto organizado de forma não política, que combate um projeto chamado “Novo Recife”, organizado por algumas construtoras, que são os que realmente mandam na nossa querida província.


Entre os planos do Novo Recife, está a ideia de transformar o terreno do Cais José Estelita (hoje sem uso) em um espaço com vários prédios de 40 andares, e, segundo eles, espaços para lazer da população, bares, restaurantes e livrarias. O negócio é que quem conhece o trabalho da Moura Dubeux e Queiroz Galvão (algumas dessas construtoras) na cidade tem fortes motivos pra duvidar disso. É algo como pedir pro pessoal de São Paulo confiar no Kassab.


Na verdade, o mais provável (e aqui estou sendo simpática) é que venha a destruição da paisagem, com a construção das fortalezas elitistas, e um parquinho cheio de concreto com meia dúzia de árvores pra tapar a boca do povo.


Não vou me alongar muito sobre o Ocupe Estelita. O domingo foi lindo, cheio de famílias, pessoas preocupadas com o Recife e dispostas a demonstrar o seu amor pela cidade. Quem quiser saber mais sobre o Ocupe, pode acessar esse link aqui. Sobre como foi o protesto, aqui um vídeo do coletivo Vurto, e aqui um texto muito bacana de Ivan Moraes Filho.




[caption id="attachment_14016" align="aligncenter" width="612" caption="No Recife, a ganância também vibra."]Ocupe Estelita[/caption]

Fiz essa introdução básica pra situar onde começou o problema. No final deste mesmo dia, a jornalista Téta Barbosa publicou um texto em seu blog que deixou muita gente irritada (eu fui uma delas, em parte, por acreditar que os argumentos dela...bem...argumentos?). E é aí que começa a coisa. Logo no começo do texto, uma pergunta maravilhosa:


“Alguém que faz parte do movimento contra a verticalização mora, na prática, em casas com jardim e quintal? Porque eu não entendo uma sociedade que mora em prédios protestar contra a construção de, de, de… Prédios?”


Alguém, por favor, explique a quem segue essa linha de pensamento, quanto custa uma casa no centro do Recife, ou nos Aflitos. Ou em Candeias. Ou em Setúbal. Pois é. Se eu pudesse, moraria em uma casa. Caso um dia eu consiga juntar dinheiro suficiente para morar em uma casa (isso se elas ainda existirem por aqui), eu com certeza farei isso. E arrisco dizer que boa parte das pessoas que estavam ali concordam comigo.


E, olha, não vou nem começar a falar sobre os impactos de dezenas de prédios de 40 andares em uma cidade onde o trânsito já é caótico, e o sistema de saneamento não dá conta, e o que um dia foi um rio, hoje é um grande esgoto a céu aberto. Sim, eu moro em um prédio, mas, sim, eu tenho consciência de que a cidade está sufocando sob o peso deles.




[caption id="attachment_14017" align="aligncenter" width="612" caption="Carros no muro do Cais  - Instagram de Priscilla Buhr"]Ocupe Estelita[/caption]

Aí vem outra pergunta, e aqui começam argumentos que não são utilizados só por ela, mas por muita gente que não vai a protestos e depois que eles acontecem, vem falar coisas como:


“Se isso acontece a tanto tempo, porque só agora decidiram protestar?”


Vou responder citando um post de Leonardo Cisneiros no twitter: “Princesa Isabel, a escravidão sempre teve por aí, por que só agora você foi se preocupar?”. Gente, esteja você no Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Acre: não importa a quanto tempo aquilo vem sendo feito, e sim o que é feito para impedir, ou mostrar a indignação dos moradores. Sei lá, sempre achei que isso fosse meio lógico.


Outro exemplo de como não argumentar contra algo (e que vem sendo fala recorrente dos mobilização-haters):


“É fácil ser hippie de butique e protestar tirando foto com iphone, né?”


Olha, então, eu tenho outra pergunta: É fácil reclamar de um protesto que você provavelmente desconhece os pontos de vista, falando do iPhone dos protestantes, né? Nem é preciso dizer, mas vou falar mesmo assim: todo mundo conhece hoje a importância da internet na mobilização social. E se, a partir do momento em que deixamos de ser “ativistas de sofá” e fomos para as ruas, resolvemos tirar fotos no Instagram para divulgar a coisa, mostrar ao vivo como está sendo, convidar mais pessoas, eu não vejo problema nenhum nisso. Aliás, por favor, se alguém encontrar algum, me avise. Não tá gostando de ver foto de protesto na timeline do seu twitter/facebook? Vai ler um livro, ver o jogo ou fazer a marcha anti-instagram.




[caption id="attachment_14019" align="aligncenter" width="612" caption="Ativista que passa férias em Dubai"]Ocupe Estelita[/caption]

Ali não tinha nenhum “hippie de butique”, e se tinha, eles fizeram bonito. Não é fácil pintar faixas e lambe-lambes, não é fácil escrever um manifesto e organizar uma pesquisa entre os participantes do protesto, não é fácil colher assinaturas para um abaixo assinado. Também não é fácil mobilizar comunidades, como foi feito com Brasília Teimosa, que levou um maracatu e uma La Ursa, além de ideais, para ajudar o movimento. Não é fácil, mas foi feito, com organização e desejo de lutar por uma cidade melhor.


Eu poderia passar a noite aqui me alongando sobre isso, mas acho que em algum momento vocês poderiam perder a paciência de ler, e, aí, nem eu nem os meninos do Altnewspaper atingiríamos nosso objetivo de passar a mensagem completa. O que eu queria refletir, aqui, é que não se pode medir a validade de um protesto baseando-se no poder econômico dos protestantes.


Não interessa se estavam lá a menina que mora em um apartamento massa em Boa Viagem, com vista pro mar, ou um rapaz bem vestido e com cara de rico. O que interessa é que estavam todos juntos e mobilizados por uma coisa só, uma busca pelo debate e a reflexão, por um progresso que possa levar esse nome. Tampouco interessa se alguém ali passa férias em Nova York. Sério, isso é desviar o foco da coisa.


Pra fechar o raciocínio, outro “belíssimo” argumento, bastante usado por várias pessoas mundo afora:


“É preciso entender do que se trata para sair pintando faixas por aí.”


Quanto a isso: É preciso entender do que se trata antes de fazer um comentário desses. Seja na Marcha da Maconha, contra o aumento das passagens de ônibus, no Occupy Wall Street ou no Ocupe Estelita. Por favor, por favor mesmo, não me usem uma frase dessas se você também desconhece o movimento. Sabe o que é preciso? É preciso parar de julgar as pessoas basead@ em preconceitos, seja ele qual for.




[caption id="attachment_14020" align="aligncenter" width="612" caption="Até eles foram para o meio da rua!!"]Ocupe Estelita[/caption]

Obs: Gostaria de esclarecer que foram utilizados na construção deste texto a jornalista Téta Barbosa e o movimento Ocupe Estelita porque são os mais recentes, e também porque li e reli o texto escrito por ela. A ideia é que eles sirvam como exemplo, para tratar de um debate que se mostra recorrente sempre que surge um protesto. Caso alguém se sinta ofendido, estamos abertos para debate.


As fotos que ilustram esta matéria são minhas e de Priscilla Buhr, fotojornalista e ativista de Instagram.

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2 comentários

  1. Querida Priscilla foto jornalista, eu gostaria de seguir você no instagram, mas não te encontrei, qual é o seu user por lá?! Mto bacana o teu texto!



    beijo,

    @magnesio

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  2. Oi, Magnesio! Que bom que você gostou do texto!



    O meu instagram é biehalcantara, e o da minha queria Pri é pribuhr ;)



    Abraço,

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