Com o gosto do cloro na garganta

por - 11:06

O Gosto do Cloro


Nada como a literatura que chega a você com delicadeza, e te envolve de forma surpreendente. É assim com O Gosto do cloro (Le Goût du Chlore), primeiro trabalho de destaque do francês Bastien Vivés, e que ganhou o prêmio revelação no Festival d'Angoulême, em 2009. A graphic novel chega agora ao Brasil, pela editora Barba Negra, em parceria com a Leya. O livro chegou a mim sem que eu esperasse, e se transformou numa bela surpresa. Deixo abaixo uma pequena reflexão das minhas sensações, apenas para deixar vocês curiosos, pois acredito que cada um deve ter seu próprio mergulho nessa obra.


Silenciosa e minimalista, a narrativa transporta o leitor para a atmosfera de uma piscina coletiva, através de seu personagem principal, que é convencido pelo seu fisioterapeuta de que precisa nadar para melhorar as dores nas costas. Com ângulos quase cinematográficos e precisão nos traços - que são, ao mesmo tempo, fluidos como a água - , o jovem Vivés traduz a sensação de quem frequenta esse ambiente.


 

O Gosto do Cloro
Inicialmente atrapalhado, tanto com o esporte quanto com a convivência na piscina, que, apesar de coletiva, abriga uma prática solitária, o rapaz observa assustado algumas pessoas à sua volta, esbarra nas raias ao lado, incomoda-se com o ardor do cloro nos olhos. Aos poucos, vai se habituando, e seu interesse aumenta ao se encantar por uma nadadora que já foi campeã, e também frequenta  o lugar.


O que mais nos seduz no trabalho de Vivés é a reflexão que cresce sem exageros ou alardes, nos diferentes mundos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão diferentes: aquele que está submerso, e o que voltamos ao sair da água. O autor trata, com poucos diálogos, da solidão e das relações e, nesse último caso, da influência que o silêncio tem sobre elas. A impressões sensoriais e memórias afetivas que surgem ao longo da narrativa são intensas, de modo que é difícil parar a leitura. Ao final dela, fica a sensação forte do gosto de cloro na garganta, e do cheiro dele na pele, além do ímpeto de reler a obra o quanto antes.


O Gosto do Cloro

O texto acima foi escrito originalmente para o site da Revista Continente, e publicado aqui com algumas modificações.

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