"O coringa da sociedade"

por - 14:10

crônicas mal estar


Estava andando numa rua relativamente movimentada pela manhã, pensando na vida e no que fazer com ela enquanto outro senhor, provavelmente fazendo a mesma coisa com a vida dele se aproximava de mim. Quanto mais nos aproximávamos, mais era certo que íamos colidir como duas locomotivas desgovernadas daqueles filmes em preto e branco que passam na TV Cultura. Ironicamente, mesmo sabendo disso, não queria desviar porque sabia que o Efeito Chapolin ia agir e a situação ficaria ainda mais embaraçosa, então relaxei. Quando estávamos bem próximos, o bufão tentou se desviar, mas acabou numa dança patética com sua autoestima e a física se encarregou de completar o balé clássico. Paramos os dois, frente a frente, como dois rivais de um filme de faroeste do Clint Eastwood e assim ficamos por longos segundos esperando que um de nós tomasse o lado e seguisse a viagem.


Nesta hora deu-se o Efeito Chapolin, que acontece quando duas pessoas tentam ir para o mesmo lado, fazendo com que os indivíduos se comportem como um mímico francês no auge de sua arte de rua. Ok, talvez não tenha sido tão artístico, mas senti-me como um príncipe conduzindo uma princesa da Disney numa dança no salão principal do castelo. Foi engraçado. Muito engraçado. Mas o tio não gostou, fez cara de puto e me trombou, na esperança de reaver seu orgulho perdido. Acredito que ele não tenha tido sucesso nesta investida literal, o que fez tudo ser ainda mais engraçado. Ri alto, não quis nem saber. “Eu vou trabalhar, caralho”, ouvi ao longe. Era o tio. Claro, porque todo mundo que é realmente ocupado vai levar uma dança muito a sério.


Continuei rindo sozinho até chegar no semáforo. Dali em diante, se continuasse rindo, ia ser enquadrado por porte ilegal de felicidade, então parei e segui viagem até reparar que o ônibus que tinha que tomar já tinha saído do ponto e estava parado por causa do trânsito. Sendo dependente do transporte público, você deve imaginar o desespero que te dá quando você vê o único busão escapando por entre seus dedos. Eu sei como é isso e não gostaria de viver de novo, então corri pra ver se ele me deixava subir. Bati no vidro da porta do ônibus e sinalizei singelamente. O motorista ficou puto. Via ele gesticulando e balbuciando palavras que pareciam alemão misturado com dialetos aborígenes, porém, pela porta fechada, não ouvi absolutamente nada do que ele falou.


Quando ele abriu a porta, ouvi um “...mas que coisa!” como no fim de uma grande bronca que você toma dos seus pais por ter chegado tarde ou por ter deixado a porta da geladeira aberta. Era como ter assistido a um daqueles game shows em que botam um cara na cabine de som e ele fala tudo que pode sem ninguém ouvir nada. Talvez por ainda estar bobo da outra experiência, ri na cara do motorista, sem nenhuma intenção de humilhá-lo ou mesmo de tirar uma com ele. Murmurei um breve pedido de desculpas, mas ele soou como um “desculpe o caralho, estou rindo de você mesmo”. Tentei não foder com tudo e fui pro fundo do busão.


Quando o efeito da malandronina passou, fiquei refletindo no motivo pelo qual tanto o tiozão quanto o motorista do ônibus ficaram tão putos, mas não dá pra comparar os dois. Um eu não fazia a menor ideia do que fazia e o outro estava em estresse constante porque carrega vários filhos da puta sem educação que riem dele por ele ser bom no jogo de mímica. Engraçado pensar que você precisa de pouco pra ser o vilão de alguém, seja por uma dança ou por um risinho semi-inocente. Não estou tentando me vitimizar, mas me vilanizar por pouco também foi sacanagem. Por mais que tentemos ser sociáveis e de serventia para a sociedade, é difícil exercer uma função nobre e o que nos resta é a face malígna, que cospe no seu café, te prende no trânsito e caga na mão e esfrega na cara alheia. Bom, fazer o que, né? "I am what Gothan needs me to be".


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