"Crônicas de um carro de boi"

por - 14:09

cronica lotado

“Segunda feira. O ódio todo concentrado de uma nação é o que provavelmente faz este ser um dia arrastado, pesado, carregado. Ataque e defesa, não? Se todos me odiassem, eu não sairia sorrindo e mandando beijos a todos. Ou talvez sim. Parece até implicância, mas o ônibus parece ligeiramente mais lotado nesse dia da semana, como se fosse engraçada a ideia de todo mundo espremido odiando algo. Mas assim segue a vida. Estava de pé, deixando o balanço da caixa com rodas e cheia de gente me guiar pelas curvas acentuadas e o cheiro forte de esgoto do centro da cidade me embrulhando o estômago como mamãe faz com minha marmita. Tive que fazer o possível para me equilibrar no chacoalhão do ônibus e no segurar da mochila pesada com livros, comida e uma futura carreira promissora. Ninguém sequer pensa em te ajudar e segurar um pouco suas coisas. Não, esta trilha você percorre sozinho. ‘Moço, quer que eu segure sua sacola?’ ouço ao longe, mas não era comigo. Esperança é artigo raro em São Paulo. E então o homem entrega sua sacola a uma mulher sentada. Sorte ou interesses sexuais? Nunca saberei. Tempo vai, tempo vem e o homem resolve dar o sinal pra descer. Com um ônibus abarrotado de gente, aprende-se a dar sinal quando se está mais perto da porta, para que ninguém sofra com empurrões não amigáveis e apressados de alguém. Ele não havia aprendido esta lição. ‘LICENÇA, VOU DESCER, ME DÁ LICENÇA’ era o que se ouvia, na voz quase desesperada de um homem de meia idade que aparentemente não estava acostumado com esta rotina. Depois de descer do ônibus, tudo parecia tranquilo até se ouvir porradas na lataria do ônibus. ‘MINHA SACOLA, EU ESQUECI MINHA SACOLA’. A mulher que as segurava olha pela janela e sem pensar, na tentativa de agilizar o socorro, arremessa a sacola pela janelinha do ônibus. ‘Sua sacola, moço!’, seguido de um barulho de vidro quebrado. A sacola continha garrafas de vidro. Lá se foi a segunda feira de alguém...”


“Você já teve um dia na vida em que quis explodir uma estação meteorológica por ter previsto chuva e frio num outono onde na sombra a temperatura é de 31°C? Eu já. Felizmente vesti uma camisa preta, conhecida por absorver calor e transforma-lo em amor e pizzas debaixo dos braços. Nada mais nutritivo. E para variar, o ônibus estava atrasado. O melhor jeito de se ir pro trabalho, lembrando que se vai ouvir esporro por chegar vinte minutos atrasado e ter aquela dedução do salário que já parece até o troco da padaria. Delícia! Mas ainda era extremamente difícil esperar o ônibus em um daqueles pontos sem cobertura pra ao menos fazer uma mínima sombra e me proteger da disco ball do inferno. Todo mundo em volta trabalhando furiosamente as glândulas sudoríparas e olhando o horizonte na esperança de ver o ônibus chegando. É até engraçado como somos um povo esperançoso apesar de tudo. Mesmo sabendo que é tecnicamente impossível não ver um ônibus de 20 metros passando numa rua estreita, continuamos olhando diretamente para o lado em que ele surgirá, só pra termos esta imagem na mente e ficarmos tranquilos quando ele aparecer. Finalmente quando ele surge e todos entram nele, sentimos na pele o que é morar em Cuiabá. Estava infernalmente quente. Tão quente que uma mulher resolve desmaiar dentro do ônibus. Não é culpa dela, eu sei, mas se tivesse sido ideia dela, não seria uma boa. Ela caiu nos braços do homem ao meu lado e todos, desesperados, começam a receitar as mais variadas receitas para fazê-la acordar. ‘TIRA O SAPATOS’, ‘DEITA ELA’, ‘TIRA A BLUSA’, ‘JOGA ÁGUA’ e tantas outras. Eis que a voz da sabedoria ecoa: ‘ELA PRECISA DE AR’, diz o cobrador. Como se Jesus tivesse dito, todos abraçam a ideia e, como num stage dive, todos levantam a mulher desmaiada e genialmente abrem o teto solar do ônibus e colocam pouco mais da metade da cabeça dela para fora, como numa forca improvisada. Problema resolvido, ela estava tomando ar. Pensei em citar as janelas como alternativa, mas depois lembrei que poderiam estar prezando por sua segurança por conta das placas de trânsito e de outros carros que poderiam arrancar sua cabeça. O teto solar era mais seguro, acho. Após longos cinco minutos, a mulher pede pra descer e a população, orgulhosa de seu feito heroico pergunta a ela se está realmente tudo bem. Ela diz que sim e salta no ponto seguinte. E assim a cidade salvou uma vida das garras da morte. E eu cheguei atrasado no trampo.”


cronica lotado

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2 comentários

  1. É a velha metáfora do porco-espinho, que ilustra a natureza das relações humanas em sociedade. Se um afasta-se do outro, morrem com o frio do inverno, mas se aproximam-se demais, acabam com o rabo atravessado de espinhos alheios. Ainda bem que é a metáfora do porco-espinho, imagine só se fosse a do encanador bigodudo, famoso por entrar em canos coloridos.

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