Dos Parágrafos para as Telas, parte 2: 10 Livros que deveriam virar filmes.

por - 14:24


na postagem passada eu dei a letra dos meus preferidos do combinado "livro que virou filme". acho que deu pra ter uma idéia do nível "aceitável" (pra mim, ao menos) do que uma adaptação descente, né: uma estória boa, basicamente, já é suficiente. na atual qualidade da tecnologia cinematográfica, nem é preciso se preocupar mais se algumas coisas realmente serão passadas pra tela. TUDO é possível atualmente. nesse quesito "imaginação e possibilidades", acredito que o cinema atingiu um nível de realidade realmente surpreendente, e ainda caminhando para a perfeição. não vou citar "idéias boas de fotografia", porque isso é, pra dizer o mínimo, obrigação do cineasta.


desde sua criação, no fim do século 19, o cinema é uma valvula incrível para a vazão da imaginação e criatividade humana, mas até míseros 15 anos atrás, algumas idéias que ainda eram praticamente impossíveis de se produzir - Perfume, por exemplo, citado no texto anterior - hoje começam a tomar forma tendo em vista o que já é possível. desse modo, a gente pára pra pensar em algumas estórias que já lemos e vêm aquilo na cabeça, tipo "porra, seria legal essa estória visualmente contada, no telão de um cinema". e isso é pura questão de tempo.

então, me adiantando aqui, deixo minhas dicas de 10 petardos literários que DEVERIAM ir parar no telão, pra quando o Darren Aronofsky, o Peter Jackson, ou o Alex Proyas, por exemplo, acessarem o Altnewspaper pra conferir as novidades (sic...) peguem as dicas e digam "boa idéia, cara! vou filmar isso!!". sugiro que vocês, que lerem isso, também deixem suas dicas, assim os caras podem acatar suas idéias também, que tal??? ...gênio, né??!

pra lista então!


10 - Teleco o Coelhinho ( e outras estórias), de Murilo Rubião: começando com essa maravilha subestimada da literatura brasileira, os contos bizarros de Murilo Rubião dariam incriveis filmes de David Lynch, por exemplo. surreais e tenebrosos, cômicos às vezes, o universo de Rubião ainda é deixado de lado por grande parte dos leitores brasileiros. o conto em destaque (Teleco o Coelhinho) conta a estória de um cara que é abordado por uma criança(?) que se transforma em diversos animais(??), mas adquire a forma de um coelho na maior parte do tempo. mas conforme os acontecimentos vão se sucedendo, inclusive de acordo com a situação, outros animais são revisitados. me lembro quando li essa estória pela primeira vez, ainda no primário, me bateu um medo fudido do final, mas um medo estranho, do surreal, do desconhecido. isso me lembra que crianças devem ler Ziraldo e Maria José Dupré, e não Murilo Rubião...


9 - A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro: o pai do Bento Ribeiro é um cara que realmente tem algo pra dizer. é sem dúvida um dos grandes escritores brasileiros, não há como duvidar. acredito que Ubaldo tenha livros mais importantes que esse - inclusive já ouvi gente dizendo que esse livro é uma "cartilha do sexo", um Kama Sutra da brasilidade... esse povo exagera um pouco. Qualquer conto erótico da Hilda Hirst é mais intenso que esse livro; de qualquer forma, essa estória tem um refinamento, uma sensibilidade incrível. pra quem não leu, é a estória de uma ex prostituta que relata sua vida sexual, desde o defloramento até os relacionamentos extensos. o relato ocorre como se fosse um diario, em forma de monólogo. os segmentos são cativantes, prendem a leitura, e Ubaldo se sai muito bem descrevendo tudo na perspectiva feminina. ficaria bom na mão de Karim Aïnouz, ou Claudio Assis de Amarelo Manga, ou Heitor Dhalia: sinceramente, só um brasileiro daria a malícia e malemolência necessárias pra estória.



8 - On the Road, Jack Kerouac: esse é um que eu SEMPRE quis ver na tela; a saga maior da liberdade humana, a de ir e vir como quiser, sem grana no bolso, vagabundando e enchendo a cara com gente estranha. a poética estória de Sal Paradise, um garoto tipo "crazy por vida", e seu truta Dean Moriarty (Deeean MO-RI-AR-TY!!) de fato já está em produção, e prestes a ser lançado, pelo diretor brasileiro Walter Salles. essa é outra estória que inspirou, por anos à fio, vários diretores como Copolla, mas nunca saiu do papel. até agora. o que impediu que essa estória virasse filme durante tanto tempo? não sei. é um relato simples, radiante, mas que focaliza uma juventude cheia de sexo e drogas. talvez seja esse o motivo para o delay de quase 50 anos, mas filmes mais polêmicos do que sexo e drogas já foram realizados nas ultimas décadas, então... não há razão. ao menos agora, sai!!



7 - Neuromancer, de William Gibson: o futuro. ambiente preferido do universo cyber-punk. um hacker viciado em smart drugs tenta roubar seus empregadores, e é punido com uma toxina que desestabiliza seu acesso orgânico à matrix. você já ouviu todos esses termos em algum lugar? pois é, eles começaram aqui. uma estória genial que inclui detetives andróides, perseguições, garotas cibernéticas nuas, drogas ainda não inventadas, portais interestelares... a matrix (ela mesmo). um mundo incrivelmente... possível! caras como Willian Gibson, Phillip K. Dick, Bruce Sterling, Rudy Rucker foram profetas da modernidade, com olhares visionários na tecnologia e nos costumes humanos de integração social-cibernética, nos dominios de super conglomerados comerciais, entre outras coisas mais complicadas e que sempre me rendem interesse e assunto. reza a lenda antiga que Neuromancer está em produção. já tem até diretor definido, Vicenzo Natali, que coordenou o primeiro Cubo (um antecessor de Jogos Mortais, mais político, bem melhor); potencial de ficar bom, tem bastante.


6 - Musashi, de Eiji Yoshikawa: essa estória é tão incrivel e tão grande que daria pra fazer não só um filme, mas uma mini-série com ela. começa com a volta de Musashi e seu amigo Sasaki Kojiro da Batalha de Tokugawa, para sua aldeia natal, em Miyamoto. no decorrer da estória, fica evidente a grandiosidade animalesca de Musashi, que quase sempre luta - e vence todos - com katanas de madeira (!) ou com espadas embainhadas; uma luta com uma escola INTEIRA de samurais, estilo Yoshioka, é arrebatador. a melhor batalha é deixada pro final, onde ele luta com seu maior inimigo (Sasaki) na praia de Ganryu, usando um "remo" no lugar de espada. a cena toda exala testosterona, claro!

existem alguns filmes japoneses sobre o tema de Musashi, óbvio, o cara é até hoje a maior lenda do Japão e do mito do Bushido - o Caminho do Samurai, então claro q existem filmes sobre ele. Toshiro Mifune encarnava-o com paixão, por exemplo, mas são filmes pra tv, a maioria dos anos 60/70. as cenas de guerra, o ambiente do Japão feudal e a brutalidade da lutas de Musashi descritas são magníficas, eu fico pensando nessas cenas com a nova tecnologia do cinema atual... seriam estonteantes, sério. alguém, faça esse filme!!! Zhang Yimou é o cara pra fazer isso. mas ele não gosta de japoneses....

5 - o Kentucky Derby é Decadente e Depravado, de Hunter Thompson: uma popular raia de cavalos no lugar mais hostil da "América" caipira, narrados por dois caras chapados de tudo que é porcaria que se possa imaginar. sente o drama? a descrição de Hunter sobre os tipos em volta e sobre as reações seu amigo desenhista Ralph Steadman são simplesmente assustadoras, sério! é uma visão aterradora do "american way of life", conservador, moralista, utópicamente cretino e sorridente, mas podre em sua essencia. o ambiente entorpecido e em constante ressaca do doutor Thompson propicia a enxergar melhor esse mundo hipócrita que fica mais decadente ao passar dos anos. ele acerta de mão cheia na cara da sociedade, com direito à medo e delírio real desse mundo em ruínas. pras telas do cinema, na minha opinião novamente com Johnny Depp na pele do Gonzo, e dirigido por Terry Gilliam, porque ele foi o que melhor entendeu o mundo sarcastico e alucinógeno de Hunter Thompson. alguém, por favor...


4 - A Divina Comédia de Dante: com tantos filmes sobre seres mitológicos, planetas distantes, maquinas geniais e parafernálias, não sei como ainda ninguém pensou eu fazer o Inferno de Dante. sim, SÓ O INFERNO, porquq o Purgatório é incrivel, mas já não é lá essas coisas. o Céu, nem pensar! lugar insoso, sem dinamica, sem movimento, aff... ninguém merece o céu de Dante!


mas as partes do Inferno, desde o acesso pela floresta sinistra, até a passagem pelos nove circulos, saindo montado voando nas costas do Gideon, cara... que caralha de estória foda! a cada descida, o inferno fica muito mais interessante em torno das lendas cristãs e dos personagens encontrados nesse caminho, com suas estórias de vida "pecaminosa", motivo de como vieram parar ali. contos pra assustar crianças, lógico, mas são fascinantes. esse é outro dos livros que mudaram minha infancia. Esse livro na mão de Guilhermo Del Toro seria a maior obra fantastica do cinema, de verdade.

3 - Estação Hawksbill, de Robert Silverberg: já tinha ouvido falar de Robert Silverberg? não? eu também não, até uns anos atrás, quando encontrei uma coletânea de contos dele, num sebo sujo do centro de SP. estórias realmente incríveis, sempre em torno de um cataclisma futurista, viagens no tempo, descontrole social, totalitarismo. coisas caóticas. em Estação Hawksbill ele relata a estória de um futuro que não comporta mais prisões e prisioneiros e transfere uma prisão de segurança máxima para... a Era Mesozoica! os prisioneiros são mandados pra lá numa máquina do tempo que, teoricamente, não tem botão de reversão. não tem volta. pessoas indesejadas são simplesmente descartadas pro passado. e pra uma época onde só tem pedra, mar e trilobitas - as primeiras formas de crustáceos gigantes do planeta, portanto, não há como eles fazerem algo nesse passado distante que reflita em nosso presente, ou algo parecido. pra sobrevivência, esses prisioneiros recebem mensalmente um conteiner com comida, roupas e medicamentos, até o dia que um novo prisioneiro é enviado ao grupo... estória impressionante, pra quem gosta de ficção. Ridley Scott ou Alex Proyas que levam jeito pra filmar isso.


2 - O Paraiso Perdido, de John Milton: esse é mais ou menos na pegada do Inferno de Dante, mas com o "agravante" (ou vantagem) que Lúcifer é o personagem principal! na pegada da maldade, Lúcifer confabula contra God Almighty usando seus bonequinhos de brinquedo: Adão e Eva. a estória todo mundo conhece, mas porra! os efeitos seriam demais... demais!!! mas o caso aqui é muito mais grave que os outros: o filme já estava sendo feito! com diretor definido, Alex Proyas (ó ele aí de novo!) e grande elenco também finalizado, deixando o novo "boy-magia" da mulherada Bradley Cooper na pele do cramunhão em pessoa. o que acontece? o orçamento estourou e a produtora empacotou o projeto... que beleza!... ok, sairia caro, mas seria A OBRA sobre um dos contos mais incriveis da mitologia religiosa. o Vaticano bem que poderia bancar essa produção né? um super filme que focaliza a figura de Estrela-da-Manhã como o herói da epopéia, diz aí se não seria legal??? a Igreja já fez coisa pior, vá!!

1- A História do Judeu Errante, de Jean D´Ormesson: essa estória, meu amigo, é de arrepiar. um casal jovem sentado à beira de um pier começa a conversar com um simples marinheiro solitário, e conforme as estórias que ele conta vão se desdobrando, descobrem que se trata nada menos do Judeu Errante em pessoa!! saca quem é? é mais uma estória fantástica da mitologia judaica-cristã: na Judéia, ano 30, o sapateiro Ashverus é apaixonado por Maria Madalena, uma mulher moderna pra época, engajada, cheia de atitude. ela conhece um "profeta" com novas idéias. começa a segui-lo, e esquece Ashverus. um tempo depois, o "profeta" é condenado à morte por crucificação. ele passa em sua via crucis pelo sapateiro, e pede piedosamente um copo dágua. o sapateiro responde "não! continue sua caminhada", e o profeta o maldiz: "caminharei até a cruz, mas você caminhará pela terra até o dia em que eu voltar". pronto! nasceu o Judeu Errante, que atravessou os tempos em todas os continentes, em todas as grandes civilizações (contadas no livro numa dissertação fragmentada) até os dias presentes. preciso explicar mais sobre o quão fudida é a estória? não né. como é uma produção faraônica, teria de ser um diretor enorme: eu diria Spielberg ou James Cameron, se eles não fossem uns vendidos de merda e que só produzem lixo comercial; quem sabe o Peter Jackson faria a empreitada descentemente, mas tenho minhas dúvidas. o Darren Aronofsky, de A Fonte e Cisne Negro, daria conta do recado, eu imagino.


essa foi minha lista. por enquanto não vai mudar, mas tem muita coisa ainda pra ler. "vai que", né! tem idéias melhores? joga na roda ae, fica à vontade!

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5 comentários

  1. Interessantíssimo post!

    Admito que tenho preconceito com On the Road, mas muitos livros me interessaram e verei de ir atrás!

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  2. Diego Albuquerque5 de abril de 2012 15:44

    Um que eu sempre quis ver num filme é homem duplicado de Saramago, e soube hoje que ta vindo o filme por ai, vamos ver como vai ser.



    hehehehehehe



    Boa a lista!

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  3. Sem dúvida faltou o "Apanhador no Campo de Centeio" do J.D. Salinger.

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  4. é Diego, Saramago é sempre uma boa pedida pra uma adaptação dessas; provavelmente qualquer livro dele daria uma boa estória pro cinema. inclusive como você citou no post anterior, revi o Ensaio Sobre a Cegueira e, de fato, deveria te-lo incluido na lista de melhores adaptações já feitas...



    e DOMRAFA, eu fiz a minha lista baseada na ideia desse site http://www.complex.com/pop-culture/2012/03/25-nov... e nele já constava o Apanhador do Salinger, entre outras pérolas... então resolvi variar com alguns que não estavam naquela lista. mas com certeza O Apanhador seria uma estória e tanto pro cinema, sem dúvida!!

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  5. Bicho, eu acho que esse livro é tão foda, que se fizessem um filme cagariam.

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