"Histórias que o povo conta... sem você pedir"

por - 14:12

cronica historia


Eu poderia passar horas falando das vantagens e desvantagens de morar numa cidade como São Paulo, mas nada seria mais maçante e desnecessário. Por mais que tenhamos mais desvantagens que vantagens e por mais que eu goste de exagerar em alguns pontos, fazendo com que este lugar pareça a Detroit do RoboCop, viver numa cidade como esta me faz refletir sobre vários aspectos. Fico pensando no quanto isso tudo vai mudar quando for mais velho e nas histórias que contarei sobre estas mudanças. E claro, quem ouvirá estas histórias sem cair no sono, de tão chatas que elas seriam.


Contar histórias de um tempo remoto pode sim ser divertido tanto pro contador de histórias como para aquele que ouve tudo, mas nem sempre as coisas são assim. Tudo envolve uma questão mais profunda, que vai desde a história em si até o modo como o contador de causos se coloca. Já ouvi grandes histórias sobre as coisas mais bobas e histórias muito elaboradas e interessantes que se tornaram encantamentos para dormir. Em alguns momentos, eles até são úteis, visto que nem sempre durmo o suficiente, mas corro o risco de parecer mal educado. Não seria a primeira vez, mas é incômodo ser tachado por algo que não se é... ao menos não o tempo todo.



Numa de minhas andanças pela vida, vivenciei algo que equivale a experiência. Meia noite na Rua Augusta e o ponto de ônibus com apenas minha carcaça vencida pelo cansaço. Eis que surge uma simpática senhora, que me vê jogado no ponto. Como uma mãe que observa o corpo do filho na guerra, ela se abaixa carinhosamente até mim e pergunta com carinho “já passou o último ônibus?”. Ninguém se importa com gente jogada na calçada. Não que eu quisesse atenção, mas achei que fosse o caso naquele caso. Respondo que não e ela continua, emendando uma história antiga dos tempos em que era menina. “Tudo era diferente antigamente. Não tinha tanta paquera no trânsito e as pessoas não achavam bonito usar drogas.”. Ela tem sua parcela de razão.



Não contente, ela conta histórias dos tempos em que conheceu um alguém especial. Ele não era brasileiro, mas quando a encontrou na rua, declarou seu amor a ela. Encantada, fez das tripas coração, literalmente, vendendo o que tinha pra fugir com ele. Feito isso, ela descobre que seu amor era um galinhão e que comia até camareira de hotel. Decepcionada e frustrada, volta ao Brasil para viver uma vida pacata e sem seu amado. Tempos depois, ele a reencontra, fazendo as mesmas juras de amor, mas ela fica balançada. “Não sei se volto pra ele”, ela disse. Depois de ouvir tal história, não sabia o que dizer. Além de estar cansado demais para tecer um comentário pertinente sobre a história, não quis que a opinião de um boçal como eu estragasse todas as suas expectativas. “Amor é assim. Difícil, mas vale a pena”.



Quando o ônibus chegou, fiz meus esforços pra subir nele e seguir com minha volta para casa. Definitivamente meu comentário não acrescentou nada a vida dela, mas acredito que só o fato de ter ouvido a epopeia de uma vida já deve tê-la ajudado de alguma forma. Seja pela necessidade de contar a alguém ou pela pura inocência em acreditar que um rapaz qualquer pudesse compreendê-la em seus momentos joviais. De qualquer maneira, a história até me tocou de alguma forma, caso contrário, não teria lembrado dela e esqueceria na primeira roncada que desse. Amor comove. Depois até pensei na possibilidade da senhora na verdade ser uma golpista ou dela estar tentando me seduzir, mas as descartei logo em seguida. Amor comove. Não?


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