"Como reconhecer vendedores filhos da puta"

por - 14:10

crônica vendedor

Jogador de futebol, ator pornô, fotógrafo de mulher pelada, degustador de chocolate, testador de colchões, vendedor de amendoim, apóstolo de Jesus, modelo de mãos, músico. Estas devem ser as profissões mais cobiçadas do mundo. Vai dizer que você nunca sonhou em ser um destes! Eu duvido! Ou mais ou menos, afinal, sabemos que é um caminho árduo e difícil para se chegar a estes patamares da sociedade brasileira e ser comparado a deuses do Olimpo e a recordistas aposentados. Sobretudo se você quer ser ou já pensou em ser músico.


Não sei em relação ao resto do Brasil, mas aqui em São Paulo, é difícil simplesmente tocar um instrumento musical. Não há muito apoio e nem incentivo à prática e absolutamente TUDO custa muito caro, como se dissessem “hey, nem tente” antes mesmo de você pensar no assunto e se o fator custo não for suficiente, temos também algo que me incomoda profundamente: os famosos vendedores 171. Se você já assistiu “A Turma do Pateta” ou qualquer filme onde a caricatura do vendedor de carros usados, que pinta ferrugem, altera quilometragem dos carros e faz carros movidos a pedalinho parecerem máquinas possantes, você sabe exatamente o que são vendedores 171. E não pense que estou falando de todos os vendedores de lojas de instrumentos musicais são uns filhos da puta, mas estou dizendo que há filhos da puta entre eles. E acredito que eles se reconheçam. Se eu os reconheço, não deve ser difícil acha-los.


Mas como identificar verdadeiros cretinos de uma figa sendo leigo no quesito “instrumentos musicais”? Bom, você não precisa ser expert no assunto para identificar os boçais que peidam na farofa, mas você precisa saber apenas uma coisa: ouvir bem o que ele diz. Para poder explicar e exemplificar melhor, fui ao lugar mais conhecido por paulistanos para comprar seus aparatos de fazer barulhinhos gostosos, a Rua Teodoro Sampaio. Esta é uma rua muito conhecida pela grande quantidade de lojas de instrumentos musicais e também por conter muitos fanfarrões que tentam vender cabos de vassoura com cordas chamando-os de guitarras. Com apenas dois objetivos, analisar um modelo X de guitarra e comprar palhetas novas, visitei 4 lojas diferentes, das quais não serão identificadas, e falei com 4 vendedores diferentes, que também não serão identificados. Não identificarei nada porque quero que você, leitor, seja capaz de identificar gente tosca por si só, caso contrário, chamaria o teste de “OPERAÇÃO BANANARAMA – PEGANDO NO PULO”.


Loja 1, Vendedor A – Fui atendido assim que entrei na loja. Este é um bom sinal, afinal, nada me deixa mais puto do que implorar pra ser atendido porque algum vendedor está ocupado demais falando sobre Iron Maiden com a menina do caixa. O vendedor foi gentil, ouviu tudo o que eu queria e me atendeu com precisão. Buscou o modelo X de guitarra, porém ele não o tinha no estoque. Tudo bem, já dizia Gilberto Kassab, ninguém é prefeito. Procurei as palhetas e ele até as tinha em vários modelos e formas. Bastante versátil. Fiquei feliz por ter encontrado uma boa loja e um bom vendedor logo de cara, exceto pelo estoque, que por ter este nome, devia ter mercadoria dentro.


Loja 2, Vendedor B – Entrei na loja e fui atendido rapidamente também. E pensar que chegamos ao ponto de ficar feliz por alguém pra me atender numa loja. Tá fácil pra ninguém mesmo, hein. Conversei com o vendedor, que parecia que tinha vindo surfando no trem, de tão bagunçado que estava o cabelo, mas ele não tinha o modelo X de guitarra. Aí que as coisas foram decaíndo e o primeiro xanxalão foi detectado. “Não tem esse, mas que tipo de som você vai tocar?”. Este é o sinal que você precisa para abrir o olho. ”Vou fazer um rock alternativo, se pá um clássico, pouca coisa” disse. “iih, quer fazer sonzão? Nem precisa de guitarra... pega um amp legal” e me mostrou um. Não discordo dele, ter um bom amp é importante, mas considerando que eu estava procurando uma guitarra e considerando que ele não sabia os motivos pelos quais eu queria aquela guitarra, o comentário de bom moço vai pelo ralo. Junto com sua comissão se eu comprasse o que ele me empurrou. Ele também tinha as palhetas, mas todas não me agradaram por sua falta de variedade.


Loja 3, Vendedor C – A maior loja que entrei até agora e que pela lógica, devia ser igualmente grande no atendimento. Mas não. Se quisesse, podia ter levado tudo que queria sem que algum idiota dissesse qualquer coisa. Depois de rodar um pouquinho, vi que todos os vendedores estavam ocupados. Uns realmente ocupados, com caixas e pranchetas e outros fazendo os solos de Master of Puppets (todos errados). Fiquei puto e chamei um dos idiotas tocando pra me atender e claro, fui muito mal atendido. O cara nem viu se tinha o modelo que eu perguntei, mas não sem antes perguntar duas vezes o nome do modelo com um ar de “você sabe mesmo do que está falando?”. Quando o vendedor vem com essas ideias, é bom se ligar porque ou ele será um idiota ou vai te empurrar algo “semelhante”. Este também veio com o papo de que o amplificador era mais importante que a guitarra. Novamente concordei com ele, mas este foi audacioso. “Dá uma olhada nesse marshall aqui! Ele tem 120w, transistorizado e valvulado ao mesmo tempo”. Detalhe que amplificadores não podem ser transistorizados e valvulados ao mesmo tempo. Ou é um ou outro, mas enfim. O preço: caríssimo. Nem quis perguntar das palhetas.


Loja 4, Vendedor D – Loja modesta, não muito grande, mas com vendedores disponíveis. Assim que entrei, um empurrou o outro pra me atender. Sempre achei esse tipo de movimento um tanto constrangedor, me recordando dos tempos em que ninguém queria fazer par com a garota gordinha e cheia de espinhas da escola. Ainda assim pedi o modelo X de guitarra e ele a pegou. Enfim, eficiência. Porém, quando fui tocar, ela não estava afinada. Apesar de ter me sentido o Thruston Moore, fiquei com a guitarra por segundos até o vendedor se oferecer para afiná-la para mim. Permiti e cometi um erro. O vendedor começou a afinar e fazer caras de “porra, essa é a minha hora”, então ele começou a tocar coisas que soavam difíceis, mas que não eram tão trabalhosas de se fazer, como numa tentativa de me seduzir pelo som. Foi um pouco triste. Mesmo depois de ter arrumado a guitarra, o cara se perdeu no próprio som e não me ouviu perguntar sobre as palhetas. Fui embora.


Em conclusão, apenas um vendedor tinha o modelo que procurava e dois tinham palhetas. Os outros estavam ocupados demais com suas funções ou com seus sons radicais. Novamente digo que a intenção era dar dicas de como não ser passado para trás nessas situações e não de denegrir os vendedores de lojas de instrumentos. Conheço vendedores muito bons e posso garantir que eles são muito competentes, porém, tem uns que simplesmente dá vontade de jogar ácido sulfúrico na teta. Como dicas finais, sugiro que a atenção ao que o cidadão fala é crucial e se ele falar rápido demais ou gaguejar, peça pra ele repetir. Se ele for pimpão, vai cair em contradição. E como em todas as experiências da Eliana, se tiver dificuldade, peça para alguém te ajudar.


cronica vendedores

Você também pode gostar

1 comentários

  1. Texto engraçado, mas meio equivocado em certas partes, causando certa vergonha alheia pela arrogância. Por exemplo, ao contrário do que foi escrito, existem sim vários modelos de amps que são valvulados e transistorizados ao mesmo tempo, sendo muito comum o pré valvulado e a potência transistorizada.

    ResponderExcluir