Secret Chiefs 3 no SESC Belenzinho, 19 de Abril, ou: Adestrando ouvidos ao Bizarro Musical.

por - 11:09


quantos de vocês que lêem isso aqui gastaram mais de 100 reais num ingresso pra algum show esse ano? hmm?...


certo. e me digam: quantos desses shows valeram o preço pago?...


nesse 19 de abril, uma banda chamada Secret Chiefs 3 tocou aqui em São Paulo, no SESC Belenzinho, zona leste - aliás que complexo cultural admirável, essa unidade Belenzinho! taí um lance que acredito como sinal de bom investimento de verba pública para cultura: a maioria dos SESCs espalhados pelo país. ultima vez que havia pisado nessa unidade foi em 1999 ou 2001, não sei bem, pra ver um show super-hiper barulhento do Trail of Dead: sai moco de lá de dentro, de tão alto que foi o show. o lugar na época era um galpão com cara de metalurgia abandonada, e que tá muito, mas muito diferente do que era à 10 anos atrás. lugar surreal, sério.


enfim, show do Secret Chiefs 3. saca quem são? um resuminho: após o fim do Mr Bungle, banda experimental e inovadora noventista, um cara chamado Mike Patton partiu pro Faith No More, e diversos projetos menores, enquanto a outra cabeça pensante da banda, um tal de Trey Spruance, fundou os SC3. sobre Trey Spruance, o pouco que se pode dizer sobre essa pessoa, mas que revela muita coisa, é citar a variedade de instrumentos que ele "performa": guitarra, baixo, barítono, microtonal, orgão, clavinete, sinths, samplers, bandolim, zither, saz, trompete, dumbek, tar, cümbüs, tamborim, add'l daf, santur, rabeca, banjo, sheng, harpa judaica, carrilhão, celesta, dulcimer... chega?? alguns instrumentos você nunca ouviu falar? nem eu. mas ele toca tudo isso.


o som dos SC3 é, como posso dizer... singular! sonoridades carregadas de um certo misticismo, que remetem escalas arabescas, música cigana e klezmer, um pouco de trilha sonora de cinema, death metal, Frank Zappa, jazz avant-garde, música de desenho animado, ambient lounge, breakbeat... sim, é confuso. a formação varia entre cinco e oito negos vestidos com túnicas parecidas com aquelas de cerimônias druídistas (provavelmente daí vem o nome "Chefes Secretos") que tocam PRA CARALHO, e DE TUDO! todos eles. sério, um espetáculo bem único, sem brincadeira.


à primeira degustação, pra maioria, é estranho. pra uma minoria bem estranha, no entanto, pareceu bem legal! (faz sentido, né) e o público do show se compunha quase unanime por um "padrão eduardo e monica" (festa estranha com gente esquisita), acredite: muita gente com camisetas de bandas que não se vê por aí, Mastodon, Dillinger Escape Plan, Young Gods... Mr Bungle, claro. um casal com visu no-wave dançava "tango" enquanto a banda tocava; um garoto com cara de jeff tweedy posava com cara de imbecil pra foto com a banda tocando ao fundo e os dois polegares esticadões na frente da camera; um cara atrás de mim comia uma tijela de açaí! enquanto assistia ao show. de pé!... enfim, você entendeu: gente estranha.


começa o show, e o que dizer de uma banda que inicia tocando Personnae, tema principal do filme Haloween, dirigido (e composto) por John Carpenter???!! se você não se lembra da música, é essa ae debaixo:



agora que você lembrou do som, imagina esse som tocado ao vivo numa versão mezzo Massive Attack, mezzo Slayer. imaginou? pois foi isso; já fiquei em estado de choque logo no começo. o show inteiro, variando os temas arabescos já citados, e mais avant-garde, escalas jazzisticas entrelaçando as composições, desconstruções sonoras que lembravam muito sua antiga banda Mr Bungle, trilhas inspiradas em Giorgio Moroder, Krystoph Komeda, blaxploitation, Ennio Morricone, tudo isso com muito reverb na guitarra criando um clima surf music fuderoso. o baixo extremamente grave carregado de overdubbing, nivel Jah Wobble. o baterista parecia estar brincando, enquanto executava as quebras de tempo mais cabulosas que já presenciei num show: meu queixo simplesmente não conseguia se afixar na mandúbula.


não tem muito mais sobre o que contar, a não ser pela proximidade do final do show com a execução linda, espetacular, maravilhosa de Exodus, música-tema do compositor Ernest Gold para o filme de mesmo nome, de Otto Preminger, iniciando com um trompete solitário e deslanchando no melhor estilo western-spaghetti a lá Ennio Morricone.



daqueles shows memoráveis, pra se recordar pra sempre como um feliz acaso o fato de presenciar isso, num atual mar de porcarias que se encontra a música contemporanea, o que me leva à refazer a inefável pergunta do inicio do texto: você já gastou, esse ano, mais de 100 reais num show meia boca? você gastou os 500 reais nos dois dias do fraquíssimo Loolapalooza? pois então: os preços pra assistir o Secret Chiefs, num lugar confortável, sem empurra, com cerveja barata, sentado num confortável sofá de lounge se quisesse, variavam entre módicos 12 à 24 reais. 6 (seis) reais, se você fosse comerciário. S-E-I-S  R-E-A-I-S.


...


fim da mensagem. câmbio e desligo.

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3 comentários

  1. Por isso que shows no Sesc >>>>infinito>>>> qualquer festival aqui no Brasil.

    Com 100 reais tu vê uns 10 shows no Sesc, que no final do ano daria um lineup no mínimo épico.

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  2. 2012 e ainda temos a boa e velha síndrome de underground!

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  3. ahhh, temos sim, AINDA BEM que temos, COTO; sinceramente não sei o que seria da cultura, diversão e informação que corre marginal, paralelo ao mainstream, que nos é enfiado goela abaixo movido pura e simplesmente pelo senso comum, se não fosse eventos como esse que ainda ocorrem, geralmente sem apoio de nada e de ninguém. nem tudo está perdido!

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