Um rolê com o Psilosamples em Mental Surf

por - 11:08

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Zé Rolê recebeu em 2012 notórios elogios da crítica musical por conta de seu ótimo lançamento, Mental Surf, disco que pipocou em muitos e muitos sites de cultura, inclusive sendo elogiado pela Vice, melhor disco do mês, e os caras tem um critério bem maluco para a escolha disso. Além disso, se apresenta no Sonar em São Paulo, no mês de maio.


Psilosamples é o pseudônimo de Zé neste projeto, um tanto eletrônico, mas um bocado orgânico também. Orgânico porque como Eterna Criança do Mato, não poderia ser diferente, não poderia deixar de colocar elementos que, mesmo que criados no computador, remetam ao cotidiano do compositor.


Em Mental Surf, Zé Rolê atingiu algo com seu som que acaba sendo complicado por demais classificar. Experimental, simplesmente eletrônico, uma mistura de IDM com uma par de coisa ou apenas uns sons bem sinceros feito pelo mineiro do interior de Pouso Alegre? A julgar pela obra como um todo, ficaria com a última opção sem dúvidas.


Psilosamples mescla nesse disco, tanto a vida do interior, do campo, com as batidas e os elementos  eletrônicos. Em Eterna Criança do Mato, uma sanfona aparece no meio de tudo o que está sendo feito. Além de um sample de um filme que eu não descobri qual é (tenho dificuldade com isso).


Ovelha Negra é tão do interior que em seu começo você acaba imaginando uma bela festa de campo, com seus avós dançando e tudo mais (se eles moram em regiões distantes das capitais). O sampler de uma fala usado nessa música é engraçado e o ritmo interiorano segue, com pequenas variações um pouco mais caóticas e de fundo o clássico “au au au mia mi ó, miau miau miau cocorocó” em alguns trechos.


A terceira faixa do álbum, Estrada de Terra, é orgânica demais. Uma viola e uns efeitos eletrônicos leves se combinam de uma maneira ímpar e é tudo tão gostoso de ouvir que até um grilo faz barulho em um pequeno pedaço dela. É claro que em alguns trechos você acaba se balançando, o som do Zé Rolê acaba de contagiando.


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Coroação de Urtiga (Interlúdio) é uma vinheta, por assim dizer, por conta de seus 36 segundos de duração e é inteiramente composta por uma viola a moda antiga sendo tocada e uma leve camada eletrônica acompanhdo-a. Ela é, interlúdio a próxima faixa, que talvez seja uma das mais tocadas de Psilosamples em seu novo trampo, Princípe da Roça.


A quinta música é meio que uma somatória de tudo o que foi feito aqui com um pouco mais de “agito”. Uma viola no começo, como em Coroação de Urtiga (interlúdio) e com o passar do tempo as coisas ganhando uma agitação, uma forma mais “cidade grande” e quando você acha que será pego por uma explosão, Zé Rolê interrompe-a e coloca, novamente, a boa e velha viola. E não se engane pela metade da música, quando por um certo tempo a canção parece sombria, Psilosamples retoma tudo com uma baita perfeição, adicionando elementos novos, outros sons e levando o ouvinte, ao menos conseguiu comigo e falo isso por mim, sentir que se bem feita, a música eletrônica serve para bem mais coisas além do ecstasy.


Bom Dia Menina Pelada! Acho que esse foi um dos melhores títulos de música que já vi em toda minha existência, principalmente se tirar os do Anal Cunt e aquelas coisas bizarras que só um gordinho que entrou em overdose consegue. Retomando com o Psilo, essa música é tão suave e lindamente bem feita que eu poderia ouvi-la o dia todo, da hora que eu acordo a hora que saio da faculdade, sem ser incomodado por ninguém. De verdade, uma flautinha que parece ser tocada de fundo, bem lá de fundo mesmo, um canto de passarinho e o lado de rapaz de cidade do interior de Zé volta para tomar conta de toda essa música. A calmaria desses locais, talvez seja assim que eu possa resumir a sexta canção do álbum.


Meteorango Kid começa com uma fala, de onde é? Não sei. Mas as risadas me lembraram o Bonitinha, Mas Ordinária. Talvez seja de alguma pornochanchada, talvez eu esteja viajando. Mas o começo festivo e a entrada de uma batida de fundo torna tudo tão agradável que essa música também é bastante lembrada por quem ouviu Mental Surf. A base que acompanha toda a canção me lembra o Alto da Compadecida. Não sei porque raios isso me vem a cabeça, mas é bom, pelo menos para mim, que acabo voltando a uma época ótima da vida. Uns gritos no fim da faixa e uma agitação que depois passa, marcam o término de Meteorango Kid.


Psilosamples


A oitava música, Ok, Zé da Roça, tem um início bem diferente das outras, uma coisa um tanto mais experimental que as faixas anteriores. Mas quem disse que isso é ruim? Não se assuste, tudo depois, com o passar do tempo e sem pressa, como bom mineiro que é, Psilosamples solta o som que vocês estavam se perguntando para onde tinha ido, numa música bem ácida, entretanto, com a ponderação para não ser algo forçado e que estragaria todo o belo álbum.


Para encerrar o disco, uma faixa bônus, RÁleluia. Mais sombria e misteriosa que as demais, porém, tão gostosa para ouvir quanto tudo o que já passou. Algumas passagens chegaram a me remeter a quando vou na casa da minha avó, quase na divisa do Mato Grosso do Sul. Provavelmente por RÁleluia fechar o disco, acabo fazendo uma releitura de tudo o que foi feito até aqui e tudo o que ouvi e por isso, minha cabeça nas viagens que já fiz para lá, cidadezinha com menos de 15.000 habitantes, algumas ruas de terra e tudo mais. E você deve se perguntar por que falei isso. Eu explico sem problema nenhum: é que o clima interiorano nessa faixa é imensurável, para quem ao menos já passou mais de 2 semanas nesses lugares.


Fazendo um apanhado geral com a clássica consideração final, afirmo que, Mental Surf foi um dos melhores discos que já ouvi em 2012. É muito capaz que ele esteja presente em minha futura lista de álbuns desse ano. Tanto pela sua simplicidade quanto pela complexidade eletrônica de como tudo funciona e ao contrário do que possa imaginar, isso não se contradiz. Zé Rolê é simples por não criar coisas conceituais demais, apenas músicas feitas com o coração e levando o ouvinte a tradição dele, afinal, não há como perder isso e complexo, porque porra, você já tentou usar esses programas de computador? Pois é, a coisa é bem mais difícil do que parece.


Anotem, Mental Surf, candidato a álbum do ano por muita gente, inclusive por mim e por favor, caso não tenham escutado esse disco até agora, baixem, porque é, sem sombra de dúvidas, o retrato de como fazer música eletrônica para cativar até mesmo quem não a curte.

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