"Sobre a ingenuidade que precede a cagada"

por - 14:08

cronica cagada


Todo mundo espera algo de uma noite de sábado. Eu não. Estava eu sentado num banco de madeira, pensando na vida, falando sozinho, assustando famílias burguesas com meu ar ligeiramente psicótico. A noite estava gostosa, daquelas que você adoraria encerrar bebendo uma garrafa de detergente sabor limão, só pra tirar uma onda. Aliás, por que fazem detergente com cheiro de frutas? A ideia não era de deixar a louça sem cheiro nenhum? Até porque, se eu quisesse deixar algo com cheiro de limão, eu esfregava limão ao invés de sabão. Mas enfim. Vejo um manobrista girando uma chave no dedo, voltando a seu posto de trabalho e cruzando seu caminho, vejo um homem de meia idade acompanhando sua donzela ao restaurante. Típico de uma noite de sábado, certo? Pois bem.


De repente, num movimento rápido, o homem derruba sua carteira. Achei que uma carteira fosse o tipo de coisa que é fácil sentir falta, mas não para aquele homem. Ele entra no restaurante com sua acompanhante, deixando ali o volume. “O cara deixou cair a carteira”, aviso ao manobrista. Ele olha para o retângulo de couro no chão e me lança um olhar de dilema. Não me parecia uma situação tão complexa, era só devolver pro dotadão e pronto. Mas não, tinha que ter o elemento surpresa. Apressado, o manobrista pegou a carteira, gritou o homem descarteirado e me jogou as chaves do carro que ele segurava. “Segura aí pra mim, valeu?” disse ele, correndo pra dentro do restaurante como se estivessem distribuindo comida de graça.


No momento, fui tomado pela solidariedade em ajudar alguém que nem conhecia, mas que estava tomado pelo mesmo sentimento. Segurei as chaves como se estivesse segurando uma ogiva de plutônio. Sabe-se lá o que poderia ter feito com aquelas chaves. Ou melhor, com aquele carro. Ele era um daqueles tão potentes que provavelmente até voltam no tempo, de tão velozes. Por ser um modelo esportivo, poderia até pagar de gatão por aí ou fazer como o Fred Durst e só fingir que sei dirigir, como você fazia quando criança com o carro do seu tio ou do seu pai. Minha mãe ficaria orgulhosa, só de me ver com uma chave daquelas na mão. Ainda que ela ficaria decepcionada se soubesse que as chaves não eram minhas.


Em todo caso, é engraçado como em momentos de necessidade, um tipo tão singelo e espontâneo de inocência pode surgir, fazendo com que as situações sejam muito mais fáceis de lidar, ainda que num momento de sã consciência, tudo pareça insano, como realmente é. Por mais que o mundo seja cravejado de maldade e malandragem, é de se admirar que as vezes as situações nos empurrem a ver a solução mais maluca como a mais simples, sem nem ao menos pensarmos um pouco. Não acho que dê pra nos culpar quando estas situações acontecem. Muito pelo contrário. Quem mantem viva alguma inocência tem muitas chances de alcançar um nível de satisfação em algum ponto da vida. Posso estar sendo simplista de alguma forma, mas também é admirável como este tipo de pensamento foi tecido. Digo, nem precisei de fotos pelado na internet pra pensar tanto sobre o assunto, certo Sra. Dieckmann?




[caption id="attachment_14622" align="aligncenter" width="560" caption="POIN!"]cronica cagada[/caption]

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