Entrevista: Há algo de podre no reino de Minas Gerais

por - 11:09

lupe de lupe


Por aqui, nós já falamos bastante sobre a Lupe de Lupe. Uma das bandas que mais elogiei no ano de 2011. Foi realmente um baque escutar os mineiros fazendo um noise loucão dentro da Livraria da Esquina no show do Jair Naves. Uma ótima surpresa, diga-se de passagem. Esse mês, eles lançaram um single, chamado "Há algo podre no reino de Minas Gerais", com uma letra polêmica e contestações nada animadoras para a cena. Vendo isso, seria muito idiota da minha parte não perguntar algumas coisas ao "frontman" Vitor Brauer (vejam uma outra entrevista feita com ele aqui, pelo Bruno Jaborandy na coluna O que eu Leio e o que eu faço).


Dada a apresentação, abaixo a entrevista. Extensa, tão polêmica quanto a letra e mais do que isso, sincera pra cacete. Foi bem legal trocar uma ideia com ele, principalmente porque paramos no meio dela para falar sobre o Loco Abreu e o Fernadinho (aquele jogador do São Paulo que corre até acabar o campo). Enfim, confiram aí.


Paulo Marcondes: Ó, antes de mais nada, como rolou a ideia pra criar essa música nova?


Vitor Brauer: Nossa. Acho que foi quando a gente começou a pensar em fazer letras mais pessoais mesmo. Letras que dissessem alguma coisa sobre as nossas vidas. Porque tá tudo meio impessoal na música brasileira, os músicos estão muito políticos e por isso as letras que todo mundo canta tão muito balofas, querendo soar poéticas, mas não dizendo nada demais na verdade. A gente tá nessa onda de querer fazer letras mais diretas e tal, que falam frases diretas sobre as coisas. Acho que foi daí que surgiu a idéia de todo o conceito das letras desse nosso novo disco.


PM: Falando em novo disco, conta um pouco sobre ele, quando sai, se vai ser ep, disco cheio e tals


VB: A gente tem problemas com nomeclaturas eu acho. Nem o nosso primeiro EP deveria ser chamado de EP eu acho. Tem um limite de minutos pra ser chamado de EP, a gente resolveu chamar porque era uma coisa menos profissional e tal. Agora a gente só chama de disco (risos). Esse novo EP/disco, Sal Grosso, vai ter 8 faixas. Pra muita gente isso já é disco cheio. De qualquer forma, a gente sempre encara como se fosse disco cheio, completo. Então fica por conta dos outros pra chamar de EP ou disco cheio. Vai sair em julho, se deus quiser.


PM: Voltando ao lance da música nova... aqui em SP, apesar de ter diminuído, toda semana rola uma banda cover de Los Hermanos, coisa chata, boba e manjada. Por ai tá osso também?


VB: Nó, aqui o problema é outro. Digo, esse negócio de banda igual Los Hermanos é um trein complicado demais, nossa. É dificílimo fugir do Los Hermanos, hoje em dia. Eu tava ouvindo uma história do Marcelo Jeneci, por exemplo, que diz que começou a pensar em fazer música quando ouviu o Ventura num avião. De certa forma, essa é a realidade de muita gente daqui. Muita gente começou a pensar em fazer música, depois que ouviu Los Hermanos. Aí veio o problema inicial que foi todo mundo fazendo banda igual Los Hermanos. O problemão que existe hoje em dia, na minha opinião, é que o povo tá tentando mostrar que tão diferentes, mas que no fundo tão iguaizinhos os Hermanos. Com os mesmos problemas. Um dos maiores problemas é, por exemplo, a limpeza das gravações do Los Hermanos. Todo mundo quer gravações IGUAIS as deles. Por isso, tudo soa meio igual pra mim hoje em dia. Salvo algumas exceções raras. A ferida que o Los Hermanos deixou, na música brasileira, é profunda. Todos nós temos de lidar com ela, de uma forma ou de outra.



PM: O problema aí então se resume a muito indie tanga frouxa?


VB: (Risos). Pode ser que sim. É engraçado, Minas Gerais tende a pegar o pior de São Paulo e do Rio de Janeiro.


PM: Se o bom, dito por muitos, já é ruim, imagina a parada zuada? Enfim...como foi a recepção dos mineiros ao som?


VB: Estranhamente, foi muito melhor do que qualquer coisa que a gente já lançou. Muita gente adorou a letra e comentou sobre isso. Isso foi ótimo. Mas aposto que muita gente não gostou de levar o dedo na cara assim, e outros simplesmente ignoraram. Sei lá. Não sei o que é que acontece aqui. Não existe uma grande cena específica, existem vários grupinhos e tudo mais. Todo mundo é muito político. Dessa forma, o povo acaba não ouvindo uma banda que não conhece ninguém, nem tem dinheiro, igual a gente. Não faço a menor idéia se o povo do Transmissor, ou do Graveola, ou do Fusile, ou do Dead Lovers, ou da finada Monno, sequer ouviu a gente. Eles são meio fechados mesmo, ou a gente que é muito tímido. Não é que eles não ouvem coisa nova, mas é que parece que o povo não ouve a gente, não importa o quão alto a gente toque e cante. Uma hora eles vão ter que engolir e tal, mas até lá, a gente faz música pras pessoas próximas da gente, principalmente de fora, pessoas que tem contato direto com a gente, de São Paulo, de Recife, etc... Nossa música sempre teve mais repercussão fora da nossa cidade, não sei também.


PM: Então cê acha que a cena ai é bem fechada?


VB: A cena não é fechada, porque não existe só uma grande cena mesmo. Existe uma espécie de orgulho que não permite que uma banda poste sobre a outra. Lógico que existem exceções, mas eu acho que justamente por isso que não existe uma cena. Se todas as bandas se ouvissem e comentassem já seria suficiente pra que uma cena fosse criada. Mas até os seres humanos que são nossos amigos e gravam a gente não compartilham as nossas coisas ou comentam sobre elas para os fãs. Talvez por eles não acharem bom o que a gente faz. Pode ser. Mas eu sinto que quando eu consigo acertar a mão numa letra, igual essa de "Há algo...", e as pessoas não comentam é porque elas simplesmente ignoram mesmo. Foi uma das únicas letras que eu considero realmente boa das que eu fiz até hoje. Existe uma pontazinha de esperança de que você vai lançar a música e que todo mundo vai ouvir e comentar, mas óbvio que não é isso que acontece. Talvez com o tempo as pessoas de Belo Horizonte levem a gente mais a sério. A gente é de fora e é muito novo ainda né. Pra eles pelo menos.


lupe de lupe

PM: Vocês são de Governador Valadares né?


VB: Eu e Gustavo somos de Valadares. Renan é de Muriaé e o Cícero é de Uberlândia.


PM: E cêis tão desde quando em BH?


VB: Renan e Cícero eu não sei. Mas eu e Gustavo viemos em 2008 pra 2009.


PM: E curtiram essa mudança de ares ou acham que se tivessem feito o som numa cidade "do interior" talvez estivesse melhor que aí? Porque vejo uma crítica bastante aguçada em relação a BH.


VB: Pois é. A gente cresceu sonhando em ir pra cidade grande e fazer uma banda lá. Qual cidade grande não importa tanto. Se estivéssemos em São Paulo seria diferente, talvez. Mas talvez a gente reclamaria o mesmo tanto de outra coisa também. A gente não gosta nada de Belo Horizonte, mas pode ser que a gente mereça Belo Horizonte. Quando eu e o Cícero nos conhecemos, ele disse pra mim que queria fazer algo por BH, queria ajudar a cidade de alguma forma. Olhando de forma otimista com três anos pra trás, pode ser que a gente esteja tentando, só que do nosso jeito. Uma faísca pode incendiar toda a pradaria.


PM: Mano, agora vamos falar de coisas boas, senão o pessoal vai se matar quando ler a entrevista hahahaha. 5 bandas que você destacaria daí.


VB: Agora vamo colocar a teoria na prática né.


1 - Quase Coadjuvante - Se tem alguém que eu gosto mesmo pra caralho em Belo Horizonte é essa banda. A cada dia que passa eles melhoram mais. Eu sinto um amor e ódio por eles, da mesma forma que sinto pela nossa banda. Eu já tô cansado de tudo mais antigo que eles fizeram e só aguento ouvir as coisas novas, que a meu ver, estão muito superiores. Essa música "Entardecer" mostra como eles são realmente bons no que eles fazem.



2 - Câmera - O Câmera faz lembrar de um dos maiores problemas da música brasileira: letras. É tão difícil fazer letras boas em português, letras que as pessoas consigam cantar sem se sentirem envergonhadas, letras que falem sobre coisas que interessam, coisas que sentimos, sem parecer brega ou clichê, é tão difícil que a maioria das pessoas optam por se preocupar apenas com a sonoridade. Existe um boom de bandas instrumentais no Brasil como nunca houve na história de nenhum outro país do mundo, a meu ver. Fora essas que simplesmente resolveram não cantar, existem aquelas que cantam letras ruins em português e aquelas que cantam em inglês. No caso do Câmera, eles conseguem superar essa muleta de cantar em inglês. A banda quer fazer um som ambiente, de dirigir o carro na estrada, de olhar o sol se pôr, feel good, onde as letras não importam tanto, de certa forma, o que mais importa é a sonoridade e feeling mesmo. Nisso, eles são geniais. É bom ouvir Câmera, e ponto final. Eles pegam o que há de bom no chamado "indie brasileiro" limpinho, bem gravado, que é tentar fazer esse Radiohead só que menos cabeçudo sabe. Tipo umas linhas de guitarra limpa muito bem feitas, pontes bem feitas, com tempos quebradinhos. Isso é legal, eu acho, e eles conseguem fazer muito bem. Destaque para música Isles que tem uma linha de guitarra maravilhosa, parabéns para eles.



3 - Constantina - Não sou grande fã de bandas instrumentais que querem me impressionar demais. Da mesma forma que não gosto de Red Hot Chilli Peppers. Enquanto o Red Hot ficava pulando pra cima e pra baixo nos anos 90, a gente acabou virando fã de quem ficava parado como o Dinosaur Jr, o My Bloody Valentine, etc. Eu gosto do Constantina porque o Constantina não fica fazendo solos. Eles não me enchem o saco. O post-rock brasileiro no seu melhor. Música instrumental boa, pra mim, é assim. Só não vou nos shows dos caras porque não faz muito sentido pra mim, no momento, ficar em pé, contemplando a arte dos caras, batendo palma no final das músicas, como se fosse um quadro. A gente tem de repensar um pouco a forma de fazer shows no Brasil sei lá. Uma nova proposta legal foi o que o Lise e o Barulhista fizeram com o Gabinete do Doutor Caligari lá. Exibem o filme e tocam por cima, isso foi legal.



4 - Festenkois - Só ouçam a primeira música e vocês vão entender porque essa banda tem mais energia BH inteira unida em uma banda só. Cantam em inglês também, infelizmente. Eu sempre imagino como seria o show do Festenkois se eles fossem tão famosos quanto um Black Drawing Chalks da vida. Ia ser 30 vezes melhor que os cantores do hit "Feivirou Way". Eles merecem ser tão famosos quanto o Black Drawing Chalks e a gente lucraria mais. Porque ninguém merece, eles são tão ruins que os shows deles em BH sempre lotam. É como um Vivendo do Ócio da vida, etc. Essas bandas são muito parecidas. A gente tem de louvar quando um Festenkois consegue surgir em meio a essa lama.



5 - Graveola e o Lixo Polifônico - Acho a maior parte do trabalho do Graveola ruim. Eles fazem parte do que eu gosto de chamar de "cancioneiro popular". Aquela imagem do compositor da MPB e tudo mais, que gosta de fazer músicas de gêneros. Sabe? Aquele cd do Chico Buarque que tem uma música que é meio caribenha, aí outra mais samba raíz, aí outra mais moderna, aí outra um chorinho. Eu não gosto disso. Mas o Graveola consegue fazer uma ou outra composição muito simples e por isso perfeita. Sem nenhuma dessas bobagens de cancioneiro popular de querer carnavalizar alguma coisa e tentar fazer a outra ficar mais sei lá o que. Acho que eles pensam demais em algumas coisas meio erradas. Eles poderiam pensar isso da gente também, sei lá. Mas eu vou dar exemplos aqui. Uma música ruim do Graveola:




Eu não aguento ouvir nem 1 minuto desse trein. Mas aqui vai uma música boa, direta ao ponto, simples, perfeita. Um dia eu ainda vou fazer uma versão dessa porra. Esse cara que canta estranho, eu gosto demais dele, fico imitando ele de vez em quando aqui em casa. Ele canta muito bizarro, bem legal. “não, prefiro não fugir do que foi...”


PM: Bom, a gente trocou ideia pra cacete e é bem provável que quando isso for publicado, vocês amanheçam com a boca cheia de formiga, mas enfim, deixe uma mensagem aí pro pessoal, aquele abraço ou aquele "vai todo mundo tomar no cu"


VB: Um abraço pra todo mundo que um dia teve um sonho. Eu nunca fui ninguém nessa vida. Provavelmente nem nunca serei nada, todas as bandas de Belo Horizonte tem mais visão e perseverança que a gente. Sei lá, tudo isso que fizemos está sendo jogado pro ar enquanto escrevo. Mas fora isso, todos sabemos que é possível ter dentro de nós todos os sonhos do mundo. Minha vida é ficar alimentando esse meu sonho, e quem sabe um dia, os sonhos de outras pessoas.

Você também pode gostar

5 comentários

  1. bacana pessoal, sou do interior também, vim pra cá e montei a minha banda por aqui e sinto o mesmo em relação a este assunto, são várias panelas algumas bem duras de se furar, e no fim da conta todos nós perdemos porque estamos brigando uns com os outros pelo pouco espaço que existe, ao invés de unir forças para realmente fazer o que as pessoas esperam, que é acresentar algo através de nossas musicas.

    a minha banda, A GOTTA trio, tem 6 anos e agora que estamos começando a ter espaço na capital, e até falamos brevemente em uma matéria nossa recente para o estado de minas o que foi abordado aqui, um grande abraço para todos, to ancioso para chegar em casa e escutar todo o som que foi postado aqui, porque ao contrário da maioria, estamos conquistando espaço somando forças, contem conosco !

    ResponderExcluir
  2. esse cara tá falando o que muita gente tem medo de dizer... é isso aí

    ResponderExcluir
  3. Eu queria que tivesse um banda como essa aqui no interior do paraná, honesta, punk demais para os indies, indie demais para os punks como acho que já vi eles mesmos dizendo.

    Ressucitei os comentários por conta de umas postagem da banda no facebook e gostaria de ter lido isso antes.
    sobre o blog, continuem com o bom trabalho e falando das bandas que importam realmente.

    ResponderExcluir
  4. Falou tudo cara, moro no interior de Minas Gerais e sou fã dos caras. O Brasil precisa de uma banda assim.

    ResponderExcluir
  5. Sincera é o caralho, letra lixo, fala o que todo mundo em BH sabe, afinal, a banda tb faz parte de uma panela. Sem falar a deprê total desses caras, me poupem aí galera, Lupe de Lupe é muito ruim.

    ResponderExcluir