Latino, seja no apê ou na universidade

por - 11:07

latino resenha

Nunca gostei de balada. Não consigo imaginar um ambiente mais odioso, com música odiosa em atividades odiosas. Tenho meus motivos para não gostar de balada e não, nunca fui molestado por um grupo de DJs. Por que não curto tal atividade? Não importa. E sobre as músicas que tocam em tais ambientes, simplesmente não gosto. Música eletrônica me deixa enjoado, micaretas não fazem meu estilo e sertanejo, bom... contanto que não seja de faculdade, posso aturar de boa. Porém, nos ritmos de festa mais conhecidos dos anos 90, um cantor consegue passar ileso de todo o meu ódio e inconformismo sobre tudo isso. Falo do bom e velho Latino, que é protegido por um escudo de infâmia e nostalgia, com +2 para ataques de fogo e sem dano direto valendo na mana do adversário.


Na moral, Latino é um cara classe desde seu primeiro disco “Marcas de Amor”, por volta de 97, quando ele cantava sobre a Renata ser ingrata, sobre baby me leva e sobre a cadeira de rodas da menininha do baile (juro que é verdade, confira no setlist do disco), mas como você bem deve ter reparado, não mais estamos nos anos 90, para a minha tristeza. Será que poderia o time vencedor mudar sua estratégia a fim de conquistar a molecada do novo milênio e novos fãs velhos com sua música super cool prafrentex? Eu posso responder esta questão. Ouvi o disco mais recente dele, intitulado “Junto e Misturado 2 – Festa Universitária Ao Vivo”, de 2011, e pelo nome, fiquei com medo. Por acaso existe um Junto e Misturado 1, que é um disco de estúdio CRAVEJADO de participações especiais, entre elas o MESTRÃO DO AMOR, também conhecido como Belo, Bruno e Marrone, MC Buchecha, Tânia Mara, Daddy Kall, que era pra ser internacional, mas que eu nunca ouvi falar e mais uma porrada de gente. Bom, resumindo este disco, posso dizer que ele é médio. Não vale o preço, seja lá qual ele for, apesar de ter algumas músicas que te fazem lembrar o Latino de outrora. Se você curte Latino, apenas baixe.



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os aaaaammigooossss do Laaatitinononono

Mas voltando ao que interessa, “Junto e Misturado 2” tem o temido título de ser um disco voltado ao ritmo do momento, o sertanejo universitário. Parece que Latino cansou de não ter um ritmo definido e foi beber água de outras fontes, ainda que a fonte em questão seja um cano de esgoto. Meu único problema com o sertanejo universitário é a sua distância notável para um ritmo sertanejo verdadeiro. Muita gente diz que faculdade muda o modo de pensar de um ser humano, mas se este for o caso com a música também, acho que não ter ensino superior é uma ideia muito melhor. Enfim. Mas sendo Latino, será que o disco é permeado com a aura azul da imunidade musical que pairava sobre os trabalhos posteriores de Latino? Não. Definitivamente não.


Apesar de não simpatizar com o famigerado gênero, tentarei ser neutro: Junto e Misturado 2 soa como uma colisão entre um carro de boi e um trio elétrico. Mas quando digo “colisão”, me refiro a um acidente automobilístico mesmo. Latino não é nenhum matuto e nem ao menos cantor sertanejo, logo, para fazer um disco com tal título, ele novamente CRAVEJOU o registro com parcerias de duplas sertanejas provavelmente conhecidas por quem curte o som. Instrumentalmente, o disco é confuso, beirando a um experimentalismo enjoativo e desnecessário. Não sei porquê, o sertanejo universitário para mim soa como um axé misturado com forró e com uma temática que faz lembrar música sertaneja, mas claro, tudo bastante indefinido e misturado. Uma feijoada de ritmos musicais. A ironia da vida, sou vegetariano. Provavelmente pra quem curte, o disco está no mínimo, de médio a bom, mas senti que Latino não se encaixou bem ao estilo, forçando um pouco a barra em alguns momentos, soando afetado, incômodo, doído.



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aposto 5 mangos que ele não estava ouvindo o próprio disco nessa capa

Em termos de letra, só consigo destacar os refrões de praticamente todas as músicas, que são grudentos, fáceis, simples. É legal ver que algum esforço foi posto ao menos em uma parte das músicas. Não que isso tenha sido o suficiente pra deixar tudo melhor, mas ao menos mostra que um projeto de passo já foi dado para que se mantenha a musicalidade. Muitos acreditam que música é feita pra se curtir, festejar, ficar alegrão e se esta crença possui verdades, então as milhares de pessoas que cantam as músicas e gritam emocionadamente "LINDOOOO" entre o fim e o começo de cada música não me deixam dizer que a missão não está sendo cumprida.


Em suma, o disco não me agradou em praticamente nada. Por um lado, vejo um Latino preocupado em conquistar um público ainda maior, expandindo sua música como um vírus letal, não deixando de ver também um Latino visivelmente preocupado com o fator monetário, se atirando de vez nas malicias do mundo cão e fazendo com que aquele jeito humilde de Latino e as Latinetes que ele pegava gradativamente perca o foco. Senti uma diferença grande de “Junto e Misturado 2” para “Junto e Misturado 1”, conseguindo apreciar um pouco mais o primeiro e não o segundo. Por que eu não resenhei o outro ao invés deste? Porque “você já foi mais humilde, se tá ligada no que eu tô falando”. E minha tristeza em ver mais um artista do tempo bom se perdendo de suas origens é considerável. Arrisco-me a dizer que os dois volumes de “Junto e Misturado” são como “Load” e “Reload”, do Metallica. Somente o próximo disco de Latino vai nos dizer se ele será consumado pelo limbo do esquecimento e trancafiado nos porões da nostalgia ou se ele vai acabar com esse lance universitário e voltar com seu PhD na arte de ser o que sempre foi.



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Los Angeles, Latino? Nem pra ser um Vida Loka =/

 

Nota: 3,5 (4,5 para "Junto e Misturado 1")


Destaque: Zuar e Beber (a única música do disco a qual não tive vontade de pular a faixa... por acaso, a parceria nessa foi com o Molejão, que eu não sei até que ponto é universitário como anuncia o disco)

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