O que eu leio e o que eu faço - Nando Magalhães

por - 14:09


Mesmo sabendo que algumas perguntas não vão ser capazes de explicar porque alguém vai de basketeiro para metaleiro, de metaleiro para nerd, de nerd para indie, de indie para psicólogo e de psicólogo para produtor cultural full time, a “O que eu leio e o que eu faço” de hoje não é com apenas um músico, é para alguém que respira música e cultura as 24 horas do dia (isso quando consegue dormir). Hoje em dia a vida de Nando Magalhães se resume a fazer parte do Coletivo Popfuzz, de Maceió-AL. Com atribuições às mais variadas possíveis Nando se reveza na gestão do coletivo, na atuação política enquanto agente cultural e na manutenção da sede do coletivo, localizada no quase isolado bairro de Jacarecica, em Maceió.


Lendo essa entrevista você vai entender um pouco do que faz parte do universo da mente de Nando, que era um estudante de psicologia com uma boa chance de ingressar no universo da Academia enquanto pesquisador e professor mas que, nos últimos semestres de graduação, decidiu trocar tudo pela idéia de fazer a cultura em seu estado dar passos mais largos. Nascido em Arapiraca, agreste alagoano, Nando veio morar na capital, Maceió, quando passou no vestibular em psicologia, na Universidade Federal de Alagoas. Chegando pela capital Nando, junto com seus amigos arapiraquenses Marcos Cajueiro, Emílio Lima, John Harrisson, e dos amigos que foi fazendo aqui fez parte de bandas e projetos da pequena cena indie que se constituiu por aqui.


Tocou baixo na promissora Magnólia, que infelizmente nunca passou de um projeto, na banda Super Amarelo, durante a única formação 100% masculina da banda, e hoje tem um projeto eletrônico com a alcunha de Don Gizmo. Recentemente Nando fez a trilha sonora do filme ‘KM 58’, do também arapiraquense Rafhael Barbosa, filme que foi exibido no Cine PE desse ano e que teve comentários elogiosos tecidos pela crítica. Também é baixista da “A Ilha mais Isolada da Terra’, banda que tem com os amigos Caíque Guimarães e Rodolfo Lima, também integrantes do Coletivo Popfuzz. Veja agora então a entrevista que fiz com Nando, comemorando minha volta a esse querido site (sabe como é, fazer mestrado e trabalhar é complicado...) fiquem com as ótimas respostas de Nando, deixem o site de alguma livraria online aberto e aproveitem!


Quais são as suas primeiras memórias de quando você começou a escutar rock?


Tenho três memórias muuuito antigas de quando comecei a ouvir música. A primeira talvez seja de estar colocando o The Dark Side Of The Moon e sentir a tensão da introdução soturna de Time e de fazer medo a minha irmã colocando Speak To Me. Um dos primeiros Cds que botei porque de alguma forma já gostava foi o Revolver dos Beatles, eu gostava de Taxman e Yellow Submarine, provavelmente porque são músicas meio engraçadas, mas até hoje toda vez que ouço Eleanor Rigby sinto muita nostalgia, são cenas bem claras na minha cabeça, acho que eu não tinha 6 anos na época. Antes disso eu lembro de pedir para o meu colocar pra tocar uma Big Band de Jazz, não lembro o nome da banda, sei que eu curtia dançar aquilo, a musica era agitada e engraçada. Depois disso todos as minhas memórias são de domingos em que meu pai ficava ouvindo ou o Amused to death (Roger Waters), o The Final Cut (Pink Floyd) ou o Zooropa do U2. Dai pra frente as coisas se misturam e Pink Floyd já passou a ser a banda da minha vida...


Você acha que o que você lê influencia o que você ouve e vice-versa?


Sim. Acho que mais diretamente o que eu leio influencia o que eu ouço. Não no campo das referências e etc, porque não leio quase nada que tenha referências musicais e etc. Mas, acho que um livro tem uma "vibe", o livro produz sentimentos em nós, consequentemente me faz querer ouvir algo que me remeta ao respectivo sentimento, seja de uma música nostálgica que o livro provocou a necessidade através de uma associação com uma memória da minha vida, ou pela necessidade de descarregar alguma emoção que o livro produziu em mim.


E as primeiras memórias com a literatura, quais são?


Da mesma forma, tenho duas lembranças muito vivas das minhas primeiras experiências com literatura. A primeira é da minha mãe lendo o Sítio do Pica Pau Amarelo pra mim, tinhamos a coleção inteira na prateleira, 20 livros. Todos os dias minha mãe lia um trecho pra mim e minhas irmãs, uma paciência infinita que criou um costume que nunca larguei, até hoje para eu dormir bem, preciso ler ao menos um pedaço de um livro. Essa coleção foi a primeira que eu li (claro, fora os quadrinhos da Turma da Mônica, né?). Ao mesmo tempo tenho uma memória nítida do primeiro livro que escolhi comprar. Meu pai me levou numa livraria e perguntou qual livro eu queria, me falou um pouco dos livros e eu escolhi um chamado Sete Contos Russos, era um livro que contava 7 fábulas clássicas russas, todas meio tenebrosas, todas misteriosas.



 Hoje em dia, o que você lê?


Sempre to lendo um livro de ficção. Hoje mesmo estou lendo o ``Ultimo Vôo do Flamingo``, livro de um dos melhores autores que li na minha vida: Mia Couto. Um grande amigo meu me apresentou esse autor há alguns anos e de lá para cá tento ler tudo que me aparece desse cara. Além desse eu já li o ``Terra Sonâmbula`` e o ``Antes de Nascer o mundo``, todos os livros são absurdamente poéticos e crus, ásperos e ao mesmo tempo fantasticamente bonitos. Esse é um dos temas que mais me atraem em um livro, a crueza das relações humanas. Por isso curto muito autores que de alguma forma abordam isso: Philip Roth (em Complexo de Portnoy), Paul Auster ( A Invenção da Solidão), Sándor Márai (As Brasas), Chuck Palahniuk (Cantiga de Ninar) e Will Self (Cock and Bull).


Da mesma forma sempre tô lendo algo de literatura política, sociológica, psicológica ou antropológica. No momento tô lendo o A Invenção da Cultura (Roy Wagner). O livro apresenta a construção de um conceito de pesquisa antropológica mais dinâmico, mais condizente com as características discursivas e produtoras de realidade que compõem as culturas. Antes dele eu tava relendo o Zonas Autônoma Temporária (TAZ) do Hakim Bey, toda vez que leio esse texto percebo uma porrada de coisa nova.


Qual sua opinião sobre as adaptações para o cinema? Qual a sua favorita?


Acho que as adaptações são perfeitas para conhecermos novos autores. Várias vezes pesquisei o roteirista de um filme que gostei muito, queria saber se era uma adaptação ou não. Acho que foi assim que comecei a gostar do Chuck Palahniuk, a partir do Choke: Sem Fôlego (um dos melhores) e Fatal (Phillip Roth).Talvez a que eu mais tenha gostado até hoje seja a trilogia do Senhor dos Anéis. Mas curti muitas outras, Clube da luta (Palahniuk), Adaptação (Kauffman) Sobre Meninos e Lobos, Peter Pan (o antigo), devem ter vários outros que eu não sei se são uma adaptação.


Qual foi o momento que te fez querer levar á frente a ideia de se dedicar exclusivamente a um coletivo de produção cultural?


Essa decisão foi tomada ao longo de anos. Lembro que no início de 2010, um dia depois do Grito Rock Maceió, eu tive a certeza de que eu queria que aquilo tudo que eu havia feito no dia anterior fizesse parte da minha vida pra sempre. Ao longo desse ano fui compreendendo o papel que isso tinha na minha vida, fui percebendo que eu dedicava cada vez mais tempo a isso que na minha vida era um hobbie. Pouco a pouco as coisas foram tomando esse caminho, minhas questões subjetivas foram cada vez mais orientadas pra esse campo, nesse meio tempo encontrei em mim um sentimento de ativismo político-cultural que eu nunca havia experimentado, ao mesmo tempo muita coisa do que eu li me orientou nesse sentido. Enfim, cultura é uma coisa que perpassa toda minha vida, desde os momentos mais íntimos e lembranças familiares até tudo que vivi na rua como moleque. Assim, no final de 2010 só me preocupava em "o como" eu poderia viver disso, fui conversando com amigos, com o coletivo, com família, com a galera do FdE que já tinham vivido esse mesmo conflito e tomei a decisão, apostei e continuo apostando. Inevitavelmente isso faz parte da minha vida, com sangue no olho fazemos tudo na vida, e hoje tem uma galera foda aqui junto.



 É importante que o produtor cultural se atualize não apenas em congressos e eventos mas no que ele ou ela lêem?


Acho que o principal para que um Produtor Cultural se mantenha atualizado é se manter conectado e refletir profundamente sobre o que faz diariamente. Nesse contexto, com certeza ler é fundamental. Por vários motivos, não só por questões técnicas, ou seja, de estar atualizado sobre as tecnologias de produção de hoje, ou pra compreender o atual contexto político-cultural que vivemos. Mas, além de tudo isso que a literatura pode nos oferecer tecnicamente, pelo próprio papel reflexivo que uma experiência de leitura pode proporcionar, pela possibilidade de trabalhar dentro desse processo uma série de conflitos seus, de isso refletir diretamente nas nossas vidas e nas nossas ações cotidianas.



Politicamente, qual literatura você indicaria para produtores?

- Hello Brasil, do Contardo Calligaris, pelo conceito de Cultura, pela leitura minuciosa que faz da história e dinâmicas culturais brasileiras, foi o livro que me despertou definitivamente para a utilidade social fundamental da cultura.
- TAZ (Hakim Bey) pela proposta política, pelas estratégias de mudança social, anarquista de uma forma totalmente eficiente. Foi o primeiro livro que li pela segunda vez.
- qualquer texto sobre a Ética da Hospitalidade (Derridá), é algo que te faz pensar de fato sobre os caminhos que a sociedade tomou para estruturar nossa atual forma de nos relacionarmos. Esse cara coloca tudo que construímos abaixo e propõe uma leitura de mundo muito mais justa e contextualizada.

Quais conselhos você daria para quem quer ingressar nessa área de produção cultural?

Nunca tivemos um campo cultural tão propício e preparado pra formas de gestão colaborativas em rede e autogestoras, acho que pra qualquer pessoa entrar "no ramo" tem que ter clareza da importância disso tudo.
- Cultura é política e política é cultura, não dá pra separar um do outro, pra intervirmos e agirmos em qualquer um dos dois campos precisamos ter essa compreensão.
- Sistematize tudo que foi feito, está sendo feito e está sendo planejado.
- Divida produção, arrume parceiros, mantenha-se conectado.

Pergunta clássica da coluna: quais são seus cinco livros favoritos?
Cinco livros? Posso falar seis?

- Terra Sonâmbula ( Mia Couto)
- Complexo Portnoy (Phillip Roth)
- A invenção da solidão (Paul Auster)
- Sayonara, Gangsters (Genishiro Takahashi)
- As Brasas ( Sandor Marai)
- Cantiga de Ninar (Chuck Palahniuk)

 

Você também pode gostar

0 comentários