Pedrada na orelha e na cuca: entrevista com o Chinese Cookie Poets

por - 11:08


O Chinese Cookie Poets (CCP) é uma das bandas mais tortas de uma "nova geração" do experimentalismo nacional. Uma hora, flertam com o free jazz, outra, com um noise estridente e completamente doido. Os caras tem 3 discos cheios na bagagem e um single, todos bem malucos e regados a uma dose de esquizofrenia da boa. É bem provável que já ouviu falar sobre eles, principalmente agora, com o lançamento de Worm Love, pela net label Sinewave, do parceiro Elson Barbosa (Herod Layne). Vendo essa fase, seria bem babaca deixar de entrevistá-los, então aí estão algumas perguntas que os caras responderam. Equipem-se com um bom capacete, uma dose de ironia e deixem levar pelas respostas e pelo som. Aconselho que ouçam algum dos álbuns que podem ser baixados clicando no nome do trio lá em cima, enquanto leem isso aqui.


Paulo Marcondes: Como ouvinte da banda desde o primeiro EP, pude notar que vocês adotaram uma pegada mais noise no som. Queria que falassem como foi essa mudança.


Marcos - Nossa forma de tocar sempre foi intensa, por isso acho que você está se referindo especificamente ao worm love, onde usamos umas texturas mais sujas mesmo. Isso se deu na pós-produção, enquanto procurávamos a estética do disco. Acabamos chegando a um disco mais pesado, com muita manipulação em estúdio, mas tudo em função do material bruto que tínhamos da sessão que deu origem ao disco. Além disso, estamos sempre com idéias/propostas novas, por isso acho que nenhum disco vai ser igual ao outro. Temos mais material pra lançar e provavelmente vai causar a mesma impressão que o worm love causou.


Felipe – Desde o início da banda e até hoje tivemos o hábito de idealizar álbums, amarrando-os à um conceito, uma temática, que por sua vez direcionaria a estética musical (agora consigo lembrar de uns três ou quatro). Mas até hoje, nenhuma dessas ideias foram postas em prática, por enquanto estão só no “papel”. Logo, no primeiro EP e em Worm Love não houve um direcionamento prévio que ditasse como soaria o disco ao final do processo. A “cara” de Worm Love foi surgindo aos poucos, fruto da interação entre o material bruto (improvisos) e o processo de edição.


PM: Eu sempre brinquei com o trocadilho de "Biscoitinhos Chineses", mas de onde vem o nome da banda?


Felipe: O Marcos também é escritor…é quase que uma tradição na família. Um primo dele, poeta, trabalhou num China-fast-food desses e gostava de escrever suas próprias frases para colocar nos biscoitos, sem que o chefe soubesse. Aí ele foi demitido; morreu um ano depois.


Marcos – Na verdade é o nome de um livro que eu li quando era moleque, meio que uma mistura de "Os Meninos da Rua Paulo", do Ferenc Molnar, e de "O Ateneu", do Raul Pompéia.



PM: Worm Love foi um disco que a crítica "indie" não sacou direito ao que pude notar. Alguns falaram de uma precipitação, entretanto, não saquei nada disso. Por que vocês acham que rolou essa reação?


Marcos - Por crítica indie imagino que você está se referindo às duas resenhas que falam mal do disco... Bem, acho que foi uma questão de desconhecimento mesmo. Os caras devem ter ido esperando uma coisa e encontraram outra. Mas foi interessante porque me lembrou o modelo de crítica musical do começo do século passado, cheio de especulação e atribuição de intenções que não correspondem necessariamente ao que ocorreu no momento da criação da música. Além disso, o Zappa já dizia que os jornalistas de música são pessoas que não sabem escrever, entrevistando pessoas que não sabem falar, pra pessoas que não sabem ler. Nesse contexto isso faz algum sentido.


Felipe: É interessante ver pessoas criando fatos a partir da pura imaginação. Mas isso é comum em crítica musical; só nos resta achar graça.


PM: Tava falando com o Cadu (Sobre a Máquina) esses dias e parece que a cena aí está crescendo aos poucos. Vocês botam uma fé nisso ou temem ser algo passageiro?


Marcos - Bom, a gente já falou sobre isso em outras entrevistas, e o que posso dizer da minha experiência aqui é que sempre vi muita gente fazendo experimental, principalmente no Plano B. E depois que a AudioRebel passou a sediar o Quintavant essa coisa cresceu por juntar as pessoas, e acho que isso acaba incentivando/motivando os artistas a criarem mais.


PM: Vocês estão trampando em algum outro lançamento para esse ano ou para 2012 tá bom e agora é tentar rodar fazendo shows?


Felipe: No momento não estamos fazendo muitos shows. Temos três discos na gaveta pra lançar ao longo do ano. Temos programada para o final do semestre uma parceria com o duo carioca Duplexx (procure conhecer!) – vamos fazer um show como quinteto que posteriormente se transformará em disco. Fora isso temos alguns outros projetos…com excessão de Worm Love, acho que 2012 será para nós o ano das parcerias.


Marcos - O CCP é frenético. A gente tem bastante coisa pra lançar, mas se adiantarmos perde a graça. Mas tem uns discos quase prontos pra saírem no segundo semestre, coisa fina.



PM: Uma pergunta clássica nas minhas entrevistas, principalmente com quem faz um som bem incomum com o que o pessoal tá acostumado é essa: vocês vivem do Chinese ou cada um tem um trampo por fora?


Marcos - Viver de música instrumental no brasil já é difícil/impossível. Sendo diferente de samba/jazz/choro/rock então, é inviável. A nossa intenção é que isso aconteça em algum momento, antes que a fome nos mate ou tenhamos que colocar uma garota de biquini cantando.


Felipe: ainda estamos almejando o 0x0.


PM: Por fim, aquele clássico momentos para vocês xingarem uns hipsters, disseminarem informações, enfim, o espaço é de vocês!


Felipe - Ao ouvir o disco novo de um artista, as pessoas tem o hábito de falar na escolha de um “caminho”, em “firmar uma posição”, como se ele representasse a consolidação de um direcionamento na carreira. No caso do CCP, os discos são só discos; Worm Love é só um disco, representa o que criamos naquele momento. Apesar de considerar que temos uma identidade estética, nela cabem muitas possibilidades. A prova disso está no próximo lançamento, que não deve demorar.

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1 comentários

  1. É realmente triste ler pessoas alienadas resenhando discos... Discos são obras de arte, obras de arte são únicas, para serem contempladas individualmente ou não, são totalmente livres de critérios pré-estabelecidos.

    Pessoas com algum "crédito" como críticos estão analisando obras de forma completamente metódica (ex: comparando com os discos anteriores da mesma banda ou discografia, ou até mesmo com bandas que lembram vagamente a mesma em analise ou se encontram na mesma cena)

    É uma uma lastima ler que uma banda está cometendo os "velhos erros do passado em seu novo disco", que por sinal você ouviu antes de ler a resenha e achou maravilhoso, inclusive o "Worm Love"!

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