Porque o rock e a insanidade nasceram de mãos dadas

por - 11:08


esses dias atrás levantaram a lebre dessa parada, a tal entrevista polêmica (sic) da Xuxa, bandejando alguns fatos estranhos pro povão. entre outras coisas, essa história maluca que Michael Jackson teria pedido a mão dela em casamento.


já parou pra pensar nessa união? no casal willy wonka que daria?? "lombra sinistra, de droga pesada",pensei comigo. não só pela bizarrice do fato em si, onde a premissa seria unir dois adultos que tiveram suas infâncias deturpadas a ponto de se sentirem eternas crianças em plena vida adulta, e representantes universais dessa primeira idade; mas também pelo fato de que isso pode ter sido constrangedoramente VERDADE! coisa de Twilight Zone, de universo com realidades paralelas, claro, mas se tratando das excentricidades cometidas pelo old boy Jacko durante sua vida, não duvidei.


e pensando bem, esse lance todo de schizo-style no mundo musical já é bem comum e aceito, desde os primórdios do assédio artistico pelo público insano e pela mídia descontrolada; ascensão e queda repentina, drogas pesadas, traumas de infância, alcoolismo e abandono fazem parte da estória de muitos músicos e envolvidos com a fama em geral.


isso acabou me remetendo à algumas boas figuras, notáveis por seu talento e trabalho no mundo do rock e na música em geral, porém totalmente esquizofrênicos. preparei uma listinha dos meus preferidos, com destaque aos "fatos bizarros". não que essas estórias sejam um exemplo de fato "curtível"... em absoluto: ser esquizofrênico ou viciado não é de forma alguma uma coisa classificável "legal", convenhamos.


mas vamos à lista, e você entenderá o nível do desvario a que me refiro:


* um dos grandes nomes da esquizofrenia musical é Roky Erikson, vocal e guitarra da seminal psicodélica 13th Floor Elevators. os companheiros de banda notaram que Roky começou a falar coisas sem sentido em 1968, no auge da banda e de toda a loucura lisérgica da época. também concordam unanimes que o uso contínuo de LSD, mescalina, DMT e outras porcarias contribuiram significativamente pra chapar o cabeção, que já era perturbado por natureza, e Roky passou vários anos preso em instituições mentais, dividindo seu tempo entre gravar discos e levar muito choque na cabeça e altas doses de thorazina. acredito que isso não surtiu muito efeito positivo: um tempo após ter saido dos sanatórios, inventou uma estória louca que era um alienígena e os humanos estavam o atacando psiquicamente (!!). Erickson é um ícone no meio alternativo, participando até hoje de gravações do Mogwai ou excursionando com o Okkervill River como banda de apoio, por exemplo.


* o produtor musical Phil Spector tem um curriculo de surtos psicóticos, pedofilia, uso indevido de armas de fogo e até um assassinato bem sinistro em sua carreira. começou trabalhando com grupos femininos do fim dos 60, trabalhou com Ike e Tina Turner, gravou o Let it Be dos Beatles e alguns solos de Lennon e Harrison. uma das grandes estórias que envolvem essa criatura diz respeito à gravação do clássico ramonesco End of the Century, quando manteve cativo Joey Ramone por várias horas sob ameaça de um cano carregado. no mesmo dia, encarcerou os quatro Ramones numa sala e ficou tocando "Baby I Love You" no piano pela madrugada inteira, com sua arma apontada pros velhos punks. o medo que os Ramones devem ter passado não foi nem um pouco exagero, pois anos depois a atriz Lana Clarkson foi morta por um balaço na cabeça, na mansão do produtor, sob circunstancias um tanto quanto estranhas. Spector está nesse momento guardado na prisão de tratamento por abuso de entorpecentes, na Califórnia.


* o que dizer de Brian Wilson, além de se tratar de um gênio musical, e que quando está tocando imagina que a platéia está prestes a subir no palco pra matá-lo?...


Brian Wilson é um perfeccionista compulsivo e seu mal foi a paranóia. ele entrou de cabeça numa competição com os Beatles, da qual só ele participava. Wilson finalizou Pet Sounds, e os Beatles apareceram com Revolver. Wilson se sentiu diminuido pela obra prima dos Beatles e começou a produzir o que seria seu maior trabalho - Smile - mas demorou tanto na engenhosidade das harmonias que os Beatles lançaram o Sgt Peppers... quando Wilson ouviu A Day in the Life, uma das grandes faixas de Sgt Peppers, ele abandonou Smile e enlouqueceu completamente, se isolando do mundo e engordando uns 30kg refugiado em casa. aparentemente nunca se recuperou, e apesar de ser considerado um dos grandes compositores americanos da musica pop, a paranóia é sua constante na vida.


*nosso próximo doidinho é Daniel Johnston, artista folk que não tinha muita visibilidade até se mudar pro Texas e os músicos locais cameçarem à frequentar em seus shows, aos quais ele entregava fitinhas gravadas. o fato de ser diagonosticado como esquizofrenico e maniaco depressivo também aumentou a curiosidade da galera, e de repente Kurt Cobain usava camisetas estampadas com capas de seus discos. ele tinha (ou tem) uma certa paranóia com o diabo: se recusou a assinar com a Elektra, porque o Metallica fazia parte do cast da gravadora, e o bicho enfiou na cabeça que o Diabo fazia parte da banda. outro episódio maluco foi aquele que ele, dentro de um bimotor em voo com o pai, disse que era o fantasma Gasparzinho e arrancou a chave do cantato, jogando-a pela janela. o pai conseguiu controlar o avião e fez um pouso forçado pra evitar merda pior.


independente da esquizofrenia que o ataca, Johnston é de fato um genio compositor, com melodias carregadas de tristeza e nonsense, recebendo até um disco-tributo que inclui Tom Waits, TV on the Radio, Eels e Flaming Lips, entre outros.


*um dos que mais me atrairam atenção foi um cara que se entitulava "The Legendary Marvin Pontiac". descobri um disco desse cara, que dizia ser seus greatest hits; um som que mixava um blues calmo com jazz e uma pitada de afrobeat que dava uma combinação extremamente agradável. ouvi tanto o disco que comecei a procurar informações sobre o cara, e tudo que eu encontrava parecia muito vago e maluco: Marvin Pontiac era um mendigo insano, meio africano meio judeu, que vivia abandonado num hospício, sem parentes, enrolado em túnicas e turbantes e óculos escuros o tempo todo. gravou seus discos lá no hospicio. o disco trazia apenas duas fotos desfocadas do cantor, pois Pontiac nunca se deixava fotografar com uma superstição semelhante à indigena de que sua alma seria roubada pela imagem. estória maluca. uma informação adicional que indicava Marvin Pontiac como primeiro lugar durante um bom tempo nas paradas de sucesso da Nigéria (??!!) me fez desconfiar como aquilo tudo não passava de balela.


anos depois descobri que o tal Marvin Pontiac NEM EXISTIA: era um alter-ego do saxofonista e ator John Lurie, que tocava na banda "no wave/fake jazz" Lounge Lizards. Lurie gravou tudo e inventou essa estória cabulosa sobre um maluco mendigo. um tempo depois, soube que Lurie teve uma síncope, brigou com TODOS os amigos e familia, e sismou que um cara chamado John Perry estava stalkiando sua vida. sumiu do mapa por conta dessa estória. em 2010, Lurie foi diagnosticado com uma doença crônica chamada mal de Lyme, que causa artrites, surdez, meningite e problemas cardíacos. e insanidade, ao que parece...



* Arnaldo Baptista é oficialmente o nosso louquinho brazuca. mais um exemplo do que pode fazer o uso abusivo de LSD combinado com frustrações pessoais, um fim de romance que nunca foi superado, uma dose de comportamento introspectivo e mais uma certa predisposição pra parafuso solto. acabou com o cara surtando pesado e se jogando da janela de um prédio médio. por pouco não entra pro time dos "suicide rockstars". não morreu, mas os problemas mentais se agravaram consideravelmente, e durante um bom tempo, Baptista se dedicou à pintar quadros naive-psicodelicos; retornou aos palcos somente a poucos anos, num revival dos Mutantes, e agora para seus shows solos. hoje ele parece bem, afinal ele mesmo diz que "mais louco é quem lhe diz, e não é feliz. ELE é feliz!"


* Wesley Willis também foi uma figura exótica no cenário de Chicago, nos anos 90. foi "descoberto" por Eddie Vedder e Billy Corgan numa estação de trem em Chicago fazendo desenhos de memória dos modelos de trem que passavam pela estação. posteriormente ele mostrou seus "dotes" musicais aos cavalheiros, um estilo bem particular de som. com a ajuda de um casiotone meia boca e de uma base peba, Willis compunha suas músicas num formato "padronizado": a letra era sempre sobre um ator/ atriz/ grupo musical do qual Willis tinha admiração, sempre complementando com as frases do tipo "o show foi incrivel" e "o publico rugia como animais", falava o nome da banda, e finalizava com "rock over london, rock on chicago" e um slogan de qualquer marca que lhe vinha à cabeça. "é preciso passar uma mensagem na musica", ele dizia, "um comercial é uma boa mensagem!". a base pré-definida NUNCA mudava, era sempre a mesma. outros temas incluiam xingamentos envolvendo animais, o quanto de gordura há num Big Mac, ou capitulos de sua própria vida, como a vez que foi jogado pra fora de uma igreja. nessa fórmula, Wesley Willis gravou mais de 50 discos ao longo de sua curta carreira: chegava a gravar 3 discos por mês, tarefa não tão dificil, tendo em vista a pequena alteração nos seus esques-musicais.


os shows de Willis eram também um espetáculo à parte: sempre lotados - o pessoal ia pra curtir mesmo, e não pra tirar onda - Willis tinha uma tradição peculiar de bater com o microfone na testa, e encostar sua própria testa na do espectador que estivesse mais próximo. por conta desse costume bizarro, ele tinha um calombo mais escuro bem no meio da cabeça. outro ponto alto era quando ele parava no meio de uma música pra tomar seu "medicamento" - tarja preta pra esquizofrenia crônica - pra "espantar os demônios". Wesley morreu em 2003, de leucemia.


* não existe uma prova médica que GG Alin realmente era esquizofrênico, mas tendo como base suas atitudes esdruxulas em palco, era dificil duvidar que alguém mentalmente capaz fosse dono de tais ideias. nascido "Jesus Christ" Allin (sério), levava a idéia do estilo punk ao extremo do extremo. obviamente, ele excluia desse lifestyle as idéias políticas e sociais, e só mantinha a parte que diz respeito ao caos e destruição. GG Alin tinha o corpo coberto por queimaduras de cigarro e cicatrizes dos mais variados objetos cortantes; só tocava completamente pelado, sem se importar com as risadas e gozações em relação ao seu micro-pênis; já nas primeiras musicas dos shows ele batia o microfone na testa e nariz até cobrir o rosto de sangue, e quem estivesse por perto, homem, mulher ou criança, corria sério risco de levar um murro na cara, ou uma fratura qualquer feita com o pedestal do microfone; completamente dopado, ele se oferecia ao publico numa cerimonia masoquista, onde levava muita porrada, e permitia ser sexualmente abusado pela platéia com o microfone ou qualquer coisa que coubesse em seu rabo (esporádicamente aparecia algum maluco pra comê-lo no palco nessas ocasiões); em um desses episódios permitiu que uma garota esvaziasse a bexiga em sua boca saciando sua "sede" (...); seus próprios resíduos corporais também faziam parte do espetáculo: frequentemente ele defecava no palco, comia parte dos dejetos ("um deus não pode deixar seus dejetos em qualquer lugar assim!!", ele dizia) e o resto ele arremessava em direção da platéia, ansiosa pela trecho surreal da noite.


mas o melhor ele deixou pro final. em 1993, seu último show foi um festival de bizarrices: nas primeiras músicas já machucou pessoas da platéia e destruiu uma parte do equipamento; botou fogo no local do show e quando a policia chegou para prendê-lo pela enésima vez, saiu correndo - nu, coberto por sangue e fezes -  por vários quarteirões de Manhattan. foi encontrado horas depois morto numa festa por overdose, ingestão demasiada de heroína. Em seu velório, ele foi enterrado nu e coberto de merda, enquanto as pessoas ainda sarreavam seu micro-penis... alguém tem alguma dúvida sobre a sanidade (ou a ausencia dela) de um ser assim?...

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2 comentários

  1. Todo mundo é ,inclusive você,se não fosse,não teria chegado pra ler essa matéria.

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