Virada Cultural 2012: digna para o fim do mundo.

por - 11:09

[caption id="attachment_14756" align="aligncenter" width="570" caption="o inferno na terra: Virada Cultural 2012."][/caption]

e lá se foi mais uma edição da Virada Cultural. pois é. 2012... ano cabalístico, fim do mundo, essas coisas. e a Virada tentou entrar nesse clima!


dessa vez, sob o peso de muitos protestos, vaias, tumultos, empurra-empurra, arrastões, alguns tiros e facadas... correu tudo bem, digo, fora isso tudo bem!! assim, né: pode-se dizer que o panorama Medo e Delirio tá virando parte tradicional da festa!!... mas isso é um mero detalhe, certo??


bem, provavelmente a maioria das coisas que você lerá aqui, você já leu em algum outro lugar da internet. mas ok, eu sei que você tem tempo pra ler mais alguma baboseira sobre isso, não tem?... então tá.


nesse ano peguei leve: menos álcool e zero THC. energéticos, nem pensar! odeio essa porcaria; só como medida preventiva, pra ficar mais atento ao que acontecia em minha volta, tive que abdicar à minha lombra particular. não que eu não confie nas minhas próprias atitudes e instintos, claro que confio: eu não confio são nas 4 milhões de pessoas que zanzavam sem direção pelas ruas do velho centrão paulistano.


sai de casa com destino certo já: a começar pelo palco fixado na praça da República, onde o veterano do jazz McCoy Tyner debulhava seu piano em companhia do seu incrível quarteto. McCoy Tyner já tem lugar garantido no meu pedestal dos grandes músicos da história por ter feito parte, entre outras coisas, do quarteto de John Coltrane que gravou A Love Supreme. a partir disso não preciso dizer muito, além de reforçar que foi um espetáculo destruidor para os fãs do bom e velho jazz e da música em geral. espetáculo curto, uma horinha apenas, mas ok, o tiozinho já não tem mais idade pra isso, vamos combinar. se tava ali naquela muvuca desesperadora, é porque é guerreiro do jazz mesmo. de qualquer forma, mais um dos grandes shows de 2012 pra listinha.



na sequência toca Lou Donaldson, outro mestre da era bebop, mas tive que encontrar meu irmão naquele inferno, e preferi deixar pra lá, infelizmente. partimos direto pro palco onde tocariam os Man or Astroman?, banda americana que faz um surf-punk com um terço de garageira e outro terço de psicodelia, uma das grandes e esperadas da noite. destilando o mais puro barulho de guitarras vintage, o quarteto do alabama, que agora inclui uma bonita e virtuosa guitarrista/baixista, pareciam mais uma versão de Big Bang Theory vestidos com trajes de astronautas de filmes do Ed Wood - visu típico de anos calcados no mesmo tema: ficção cientifica barata e surf music sujaço. esses caras são um bando de doidões da cena alternativa com algumas idéias geniais, como a tour de "clones" que fizeram certa vez, colocando outras pessoas pra tocarem em seus lugares como se fossem suas cópias genéticas (como se não bastassem os originais). com um pouco mais de uma hora e meia de espetáculo, destruiram tudo que se refere à tímpanos, com direito à stage dive de astronauta, interação no telão em estilo "3D" (o guitarrista Star Crunch se dependurando na frente da tela), e no ápice do espetáculo, um theremim em chamas "tocado" em máxima potência, para delírio dos presentes. um must do punk rock, sinceramente, e fudidamente perfeito.


mas foi no meio dessa apresentação bombástica que a faceta "hardcore gonzo" do evento começou a despontar: do meu lado passou um doidão com um rasgo imenso na cara, sangue escorrendo pescoço abaixo, totalmente sem direção. corria lateralmente à grade que separava a calçada da rua, indo e voltando, no encalço de alguém, provavelmente, até sumir no meio da multidão após avistar um grupo de policiais. algo dizia que nem tudo corria bem dessa vez, e de repente caiu a ficha de que um festival de rua com milhares de pessoas nas dezenas de ruas em torno pode não ser tão tranquilo assim...



sai dali junto com uma muvuca volumosa, não tava afim de andar disperso, já que alguns arrastões aconteciam somente há poucos quarteirões ao lado. a intenção era chegar ao palco da Julio Prestes, onde as zero horas tocaria o grande Tony Allen, baterista da Fela Kuti e Africa 70. como o negócio não tava pra vacilo, deixei quieto e cai diretão pro largo do Paissandú, onde o palco "não-oficial" do Test já bombava de metaleiros em povorosa. e lá permaneci com um grupo de amigos, onde tocaram algumas bandas barulhentas locais - Sistema Sangria, DER, Hutt, Social Chaos, entre outras, e Test fechando. ok, já tava bom pra mim. não tenho mais a paciencia que tinha nas primeiras edições do evento, quando eu virava a noite tranquilamente e só descansava umas 3 horinhas na manhã pra voltar a acompanhar o que ainda viria... não! pra mim não dá mais isso.


na volta pra casa ainda planejei passar no Minhocão, onde rolava o projeto Chefs na Rua. avistei uma multidão descabída em cima do elevado, e meu cansaço natural só me incentivou mais à ir pra casa: "foda-se essa merda! não tou com tanta fome assim!...", eu decidi, já caindo pra dentro do meu prédio.


só no dia seguinte saberíamos a incrível presepada que foi esse lance dos Chefs: centenas de consumidores a mais, além das possibilidades das barracas, que foram montadas às pressas depois do horário determinado, por cima do público que não arredava o pé nem pra dar espaço pra montagem. falha dos chefs convidados, que não calcularam que 500 senhas não seria suficiente para um evento na rua com 4 milhões de pessoas; falha da organização do evento, que não teve tento pra sacar a proporção descabida de público e comida, nem acessoria correta para que o esquema de montagem e distribuição  fosse ao minimo decente; falha do secretário da cultura, que pensava que somente os proto-burgueses, os que "sabem apreciar a alta gastronomia", apareceriam ali, tranformando em reservado um evento de proporções dantescas; e falha também do público, que não tem a miníma noção de comportamento e organização diante de fatores que envolvem bens materiais, dinheiro em espécie ou comida. as pessoas se tornam animais insanos quando expostos à essas situações. sinceramente é nesses momentos que você saca a educação das pessoas que transitam pela cidade onde você vive, e sem querer parecer um babaca regrado e ordinário, isso não é legal. bom, esse assunto é muito extenso e complicado, e não tô afim de entrar em pormenores, portanto julgo que todo mundo foi joselito.



dia seguinte continuava a festa. tive um compromisso matina e só pude voltar à Virada as 15h, novamente no palco da República, onde se apresentava a lenda viva Charles Bradley. os maneirismos e danças que evocam diretamente à James Brown meio que auto-explicam o incrível show de soul a lá motown 60's foi presenciado nesse palco. a voz magnífica de Bradley ecoou por todo o centro da cidade, numa demonstração de folego e sensibilidade que deixou o público estático e esfuziante, de momentos à momentos. impossível explicar em palavras, teria que presenciar mesmo, pra saber do que eu falo. o cara é rei.


e nada mais me interessou. como todos os anos, faço uma lista enorme de tudo que quero ver, mas só dei conta disso. perdi o Morphine - que apesar de sem Sandman, ainda adoraria sacar um show; perdi de ver mais uma lenda do jazz, Lou Donaldson; perdi alguns mestres do afrobeat, Tony Allen, Ebo Taylor, Seun Kuti & Egypt 80; o Toots and Maytals e o Abyssinians não deram as caras; perdi o White Denim por ser muito cedo; perdi o Suicidal Tendencies, porque sinceramente já não me chama a atenção desde Lights, Camera, Revolution; perdi o Titãs tocando Cabeça Dinossauro; não vi nenhuma session de bons western spaghettis ou filmes de zumbi e uma das maiores baixas: perdi a Gretchen e Rita Cadillac no palco Cabaré!!! (damn!)...




[caption id="attachment_14758" align="aligncenter" width="620" caption="Gretchen no Palco Cabaré (impressão minha ou os pelos das axilas dela crescem ao longo de todo o braço?...)"][/caption]

resta esperar a edição 2013 da Virada: se o 21 de dezembro for somente mais uma piada de mau gosto (o que com certeza será), a Virada 2013 nos trará mais caos, destruição, indignação, tumulto, tiros, arrastões, palcos de stand-up comedy, especulação em caixa dois de contratos de serviço, prefeitos aplicando o velho "panis et circensis"... e alguns bons shows e eventos espalhados por essa grande cidade de São Paulo! que assim seja, amém!! ave Kassab e ave Alckmin!!

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