Chuck Jones, o mestre do "timing".

por - 11:08


confesso que fui daquele tipo de garoto viciado em desenhos animados. video games não me atraiam: jogava 15 minutos de Enduro, Pitfall ou River Raid, e  já encostava o Atari num canto, pra voltar aos cartoons.


não gostava muito de amizades, pra ser sincero. morava num condominio gigantesco, na periferia de Guarulhos, mas evitava ao máximo sair de dentro do meu apartamento. menino bitolado de apartamento, isso mesmo, pode falar!


sair pra jogar bola não era o meu forte também: no máximo, a garotinha do apartamento ao lado me chamava pra brincar de casinha - eu era o papai, ela a mamãe, arremedávamos o dia-a-dia do que víamos, de nossos respectivos pais, em nossas casas - menos as intimidades, claro!, cresci num ambiente saudável, ok!... mas era só isso: logo cansava e voltava pra casa, pra novamente assistir mais desenhos animados na pequena tv de 14 polegadas.


pensando de um angulo mais "sociável", isso não era de todo bom, claro; de fato as três únicas coisas positivas disso eram 1- não me metia em confusões na rua, 2- acabava dando beijinhos na garotinha vizinha e 3- peguei justamente a melhor fase da historia dos desenhos animados na televisão.


trata-se daquela fase Hanna-Barbera / Walter Lantz / Tex Avery / Warner Bros, sacoé?... só os clássicos dos clássicos: Pernalonga, Patolino, Tom & Jerry, Droopy, Woody o Pica-Pau (não existe motivo pro Pica-Pau se chamar SOMENTE Pica-Pau: ele tinha um nome), Andy Panda, Zé Colméia, Dom Pixote... e por aí vai. você sabe exatamente das obras-primas quais me refiro, certo? aqueles animaizinhos com personalidades humanas, violentos até o osso, que só queriam se matar das mais variadas e criativas maneiras, sem a minima noção de politicamente correto, só na joselitagem mesmo. era perfeito. e olha que nem me tornei um sociopata degenerado por conta disso, veja só!


com o tempo desenvolvi uma visão "criteriosa" sobre cartoons. minha geração toda (ou ao menos 75% dela) também desenvolveu esse filtro. por exemplo, nos anos 80 os animes (com excessão de Speed Racer, Astroboy, Sawamu, A Princesa e o Cavaleiro e Fantômas) não eram tão populares assim, afinal a principal função dos cartoons era aquele mundo fora do nosso alcance, o ar surreal, o ato impossivel, a tirada gag. e como fui sacar bem mais tarde, o "timing" pra piada.


Timing é tudo num cartoon, aquela pose caricata, a freiada milimétrica, unida com o sentimento de "a hora H", o segundo que o personagem pára pra pensar e faz aquela cara de "puta que pariu!" ou "sifudi"... e o sujeito que melhor captou isso até hoje foi Charles "Chuck" Jones. derivadas em grande parte da era das comédias mudas, de Chaplin, Harold Lloyd e Laurel & Hardy, as sacadas de Chuck Jones eram incrivelmente perfeitas, unidas à trilha sonora carregada de expressividade de um outro gênio, esse da cacofonia e do avant-garde, chamado Carl Stalling. o lance é que Chuck Jones fez escola, e hoje tudo que se diz respeito ao mundo impossível e surreal dos cartoons tem sua influência.


pois bem, não é aniversário do Chuck Jones, nem dia do cartoon, nem diabo nenhum desse tipo. precisa de alguma data simbólica pra assistir desenho? não! portanto dedico esse txt à arte magnífica de Chuck jones, juntamente com 10 dos melhores cartoons criados pelo tiozão. esse é pra sentar na frente do monitor com um saquinho de pipoca e só relembrar como era bom não ter trampo, nem faculdade, nem relacionamentos complicados, nem contas pra pagar, ou merda nenhuma importante na cabeça bagunçar seu dia. só senta e aproveite!


***

The Dover Boys of Pimento University (1942): os primeiros espasmos de genialidade de Chuck Jones encontram-se nesse desenho. Dá pra notar na movimentação e caricaturização dos personagens e situações, tudo muito bem sincronizado.



Chow Hound (1951): aquele que o cachorro escraviza um gato e um rato pro seu deleite gastronômico. "O QUÊ??!! SEM MOLHO??!!" é o chavão.



A Bear for Punishment (1951): a família de ursos com o pai "estouradinho", lembra desse? tenho muita vergonha alheia com esse desenho.



Feed the Kitty (1952): o cachorro Marco Antonio, todo bruto que era, pega um gatinho pra cuidar. na boa, quem não se emociona com esse desenho tem um coração de pedra...



Much Ado about Nuttin' (1953): um esquilo descobre uma "castanha" muito grande, mas não sabe como abri-la. esse cartoon é uma aula de timing e sonorização.



Punch Trunk (1953): um micro-elefante provoca pânico e as expressões mais esquizofrenicas numa cidade grande. clássico absoluto.




 

One Froggy Evening (1955): esse é o mais marcante cartoon criado por Chuck Jones, aquele do sapo cantor, que só se expressa na frente de seu dono. é considerado o mais perfeito e sincronizado desenho já feito, sério...


http://youtu.be/NRnX4quv5W4  (direitos autorais impedem a incorporação do desenho...)


Rocket Bye Baby (1956):  um "erro" faz com que um bebê humano e um bebê marciano sejam trocados de pais. tudo pode acontecer no universo de Chuck Jones...



Boyhood Daze (1957): as aventuras de um garotinho que viaja acordado e sem entorpecentes (claro, é uma criança!...)


The Dot and the Line (1965): esse cartoon é simplesmente incrível. um romance completamente coerente é criado a partir de um ponto e uma reta, é quase inacreditável. só vendo pra crer.

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