Cláudio Assis anda cercado de amor e poesia

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Febre do Rato


“O ser humano é estômago e sexo”. A partir desta teoria, Cláudio Assis expôs o homem, suas amarguras, fragilidades, o egoísmo e o grotesco em seu primeiro longa-metragem, Amarelo Manga (2003). Depois, virou o cinema de cabeça pra baixo em Baixio das Bestas (2006), pesando a mão em fortes cenas de estupro e humilhações para denunciar a situação de mulheres de um pequeno povoado na zona da mata pernambucana. A violência, presente nos seus dois primeiros filmes, deu um tom característico à filmografia do pernambucano, considerado uma das figuras mais autorais e polêmicas do cinema brasileiro contemporâneo.


Contudo, espremido entre o ódio e o caos da capital, o amor foi encontrando seu espaço através das palavras de Zizo (Irandhir Santos), protagonista de Febre do Rato, terceiro longa de Assis, que estreou no dia 22 de junho. O slogan do filme - “Agora é só poesia” - deixa clara a opção do diretor por bater de frente com as críticas de que seu trabalho seria violento, apelativo e movido por excessos. Durante a semana de estreia, Cláudio teceu duros comentários sobre o cinema nacional. “O cinema é feito por babacas, muito pior do que filhos da puta. Tem muita coisa boa sendo produzida no Ceará, em Pernambuco, mas sem acesso. Não faço cinema pra comprar um apartamento na Avenida Vieira Souto, no Rio. Cinema não é vender Coca-Cola”, afirmou em uma de suas entrevistas.


Cláudio Assis quer uma mudança de cenário. Quer atitudes movidas por paixão, quer entrega. Em Febre do Rato, buscou tocar o coração da juventude, seja através da poesia ou da ótima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho, que remete à estética do Cinema Marginal do final da década de 1960. Na história, Zizo é um poeta que propaga suas ideias através de megafones pelas ruas e num pequeno fanzine que publica de forma artesanal, o “Febre do Rato” - gíria pernambucana para algo que está fora do controle. Inquieto, provocador e anarquista, Zizo tem suas ideias confrontadas quando se apaixona por Eneida (Nanda Costa), uma jovem de 18 anos. “Para um poeta até que tu dá um ótimo publicitário”, comenta a personagem, num dos diálogos do filme. Eneida é o retrato da nova geração, enquanto Zizo, que é a própria representação do diretor, tenta de todas as formas conquistá-la, tanto com olhares como com belas palavras.



O sexo, como nos outros filmes de Assis, tem forte presença. Porém, desta vez, cercado de paixão. O protagonista constrói ao seu redor uma atmosfera de amor manifestada nas mais diversas formas: o “amor livre” vivido entre Rosângela, o namorado traficante e dois amigos; as indas e vindas do relacionamento entre o coveiro Pazinho (Matheus Nachtergaele) e a travesti Vanessa (Tânia Granussi); o forte laço de amizade entre Pazinho e Zizo, rendendo belos momentos no filme. O roteiro, bem como os poemas de Zizo, foram escritos por Hilton Lacerda, em mais uma parceria com o diretor. Para viver o personagem, Irandhir – no papel mais complexo (e completo) de sua carreira – confessou ter tido certa dificuldade no início, precisando entender sob que contexto os poemas foram produzidos, para poder se apropriar das falas.


Após 10 anos de estrada, Cláudio entende Febre do Rato como uma produção libertária. Sonha que ela ganhe bilheteria, que atinja o máximo de espectadores possíveis e que eles possam entender o recado. O filme obteve destaque no Paulínia Festival de Cinema, no ano passado, quando abocanhou oito prêmios, entre eles o da crítica, melhor filme e atriz. É, definitivamente, o melhor filme do diretor caruaruense, que provou saber cavar, na sujeira da marginalidade, seu lado mais simples e belo.


* Texto originalmente publicado no site da revista Continente

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