DoSol para todo o Brasil: entrevista com Anderson Foca...

por - 14:09

O Anderson Foca é uma das figuras mais conhecidas da cena independente do nordeste, mais que isso, se faz presente frequentemente na cena nacional. Seja tocando, seja produzindo, discutindo música e cultura. Já teve banda de hardcore, de rock alternativo, grunge e de uns anos pra cá tem uma banda de rock instrumental chamada Camarones Orquestra Guitarristica, uma das bandas independentes que mais faz shows pelo Brasil. Abriu o estúdio e selo DoSol para ensaio e gravações de bandas independentes na cidade de Natal em 2001,  ja abriu um bar que virou um Centro Cultural, além de shows pagos e gratuitos de bandas locais e de todos os lugares do Brasil, funciona como um ponto de encontro do independente potiguar no bairro da Ribeira, centro histórico de Natal.


Realiza o festival DoSol desde o ano de 2002, sendo um dos festivais independentes mais importantes do Nordeste atualmente e um dos mais divertidos. No portal DoSol, aparecem vários vídeos produzido pela marca, além de discos de bandas gravadas no estúdio e lançadas pelo selo. É uma produção insana, não passa um mês sem aparecer alguma coisa nova, fora as datas e eventos agendados com folga e muita organização. Com a necessidade de expandir-se dentro do Rio Grande do Norte, o DoSol anunciou um novo espaço na cidade de Mossoró no final do mês passado. Aqui você lê uma entrevista com Anderson Foca, falando sobre a banda, a cena potiguar, o cenário nacional, novidades do Festival DoSol 2012 e contando um pouco da historia de quem tem se dedicado inteiramente a música independente desde 1997!


Quando você decidiu tirar o seu sustento através da música, seja produzindo, tocando ou empreendendo? Qual foi o momento que essa necessidade se fez presente?


Eu sempre me vi fazendo música desde moleque. Quando tinha tipo 11 anos já tava ouvindo Slayer e Ultraje a Rigor. De um fã para um cara que trabalha com música foi um passo. A virada mesmo foi quando larguei minha universidade de Contabilidade para me dedicar só a música, isso foi em 97. De lá para cá é o que venho fazendo sem parar, seja tocando, produzindo, gravando e agora, recentemente ilustrando. Nunca cogitei fazer outra coisa.


Quando rolou a transição de Bar para espaço Cultural?! Você acha que isso foi um dos principais fatores para os 10 anos do Dosol?! Isto é, a ação da marca em diversos trabalhos e espaços ao mesmo tempo.


Não, as coisas pro Dosol aconteceram bem antes.  Das atividades que empreendemos hoje o Centro Cultural Dosol é o mais "novo" equipamento cultural que temos. Acho que o que nos fortaleceu foi perceber que Natal não tinha uma produção continuada para música e que podíamos fazer isso de uma maneira menos radical com menos síndrome de "minoria esmagada" muito comum ao underground  - agora bem menos do que antes. Esse "estalo" se deu em 2001. Já conhecíamos os festivais independentes, já tinha ido a várias edições do Abril Pro rock, tinha trabalhado no MADA, já produzia shows e já tinha tido uma banda respeitada no underground nordestino, que se chamava Ravengar e naquele momento estava com uma banda nova, tocando na noite e gravando disco chamado Officina.


Com esse acúmulo de experiências diferentes fundamos o Dosol como selo e estúdio de ensaio. Já éramos Produtora, selo e estúdio. Em 2002 fizemos a primeira edição do Festival Dosol (naquela época um festival para as bandas do selo). Começamos a gravar no estúdio, por consequência disso aumentamos o número de lançamentos e abrimos um espaço próprio pra receber essa produção. Por último abrimos a Dosol Image que vem trabalhando com vídeos para música desde 2005. Nos reconhecemos como Centro Cultural Dosol em 2006 quando percebemos que tudo o que estava em volta da gente era muito mais que música. Criamos uma plataforma meio sem querer.


Os editais são realmente o maior incentivo para manter um circuito independente com o mínimo de qualidade?! Como você enxerga o uso do dinheiro público na cultura hoje em dia?!


Os editais são incentivos para todas as tecnologias novas no Brasil. Eles estão em todas as áreas da economia brasileira, seja na produção de trigo, na fabricação de um liquidificador ou no disco do Lirinha. É tudo investimento para que novas tecnologias sociais sejam desenvolvidas. Dito isso fica claro que os investimentos públicos em cultura devem existir principalmente porque o lance gera muita renda, movimenta uma economia criativa e limpa, cria empregos para as pessoas e ainda contribui para o processo educacional do país. É uma mistura perfeita em minha opinião.


Quando se financia cultura seja na área pública ou privada é por esse viés que a coisa deve ser enxergada. O problema é a síndrome de "primo pobre" que ainda existe no meio cultural e também a falta de conhecimento técnico de muita gente do próprio meio. Isso nos atrapalha muito. Só nos últimos quatro ou cinco anos que algumas universidades abriram seus cursos de produção cultural para preparar melhor o setor. Economicamente estamos há anos luz de outras áreas e se compararmos investimentos feitos em cultura com o de outras vertentes da economia vamos perceber que somos realmente os "primos pobres" do setor produtivo do país. Pela nossa contrapartida não deveria ser assim.


Com o aumento desse incentivo público, existe também um crescimento do interesse privado nos eventos ou você acha que o inibe? Como você vê as empresas privadas se inserindo nos eventos e atividades culturais?!


Hoje acho que as empresas privadas ou mistas devem injetar mais dinheiro em cultura do que o próprio governo. Não tenho os dados, mas essa é minha sensação. Pelo menos no Dosol quase todos os editais que ganhamos foram de empresas privadas (ganhamos três editais públicos e só recebemos um). Acho excelente que o marketing das empresas enxergue a cultura como uma coisa positiva e que passa coisas boas, como de fato é. Isso só reforça o que disse na resposta anterior com relação ao mercado cultural.


Lembro-me de três bandas suas que vi e todas tinham vocal. Porque resolveu ter uma banda instrumental?! Tem alguma relação mercadológica, do instrumental estar se afirmando na cena desde o inicio dos anos 2000?!


Não tem relação mercadológica, o Camarones foi uma grande “zebra” que deu certo. Nos juntamos para aproveitar o Estúdio Dosol, fazer um grupo de estudo, tocar uma trilhas de filme. Acho que a única banda mais instrumental que eu ouvia era o Man or Astroman e os clássicos da surf music. Só que quando percebemos, o Camarones já estava no palco do RecBeat e do Rock Cordel mesmo sendo um projeto. Só aí caiu a ficha de que tínhamos realmente uma banda, com uma proposta interessante e que poderíamos leva-la adiante. Por isso que mudou radicalmente (todos faziam parte de outros grupos) de formação e ai sim começamos uma carreira de “banda”. Interessante é que não tocamos muito com bandas instrumentais. 90% dos nossos shows são com bandas com vozes. Acho que é porque somos mais uma banda de rock sem vocal do que uma banda instrumental, eheheh.


A Camarones é uma das bandas que mais tocam no Brasil. Inclusive realizaram tour pela América Latina. A base da banda ainda é em Natal?! Como você vê essa necessidade de ir morar em São Paulo, caminho comum para bandas do NE?


A sede da banda é Natal e sempre vai ser. Tenho minhas ressalvas em tocar um projeto musical em São Paulo. A primeira delas é estatística: a maioria dos meus amigos músicos que foram para São Paulo ou voltaram ou não trabalham mais com música lá.  A outra ressalva e a mais óbvia é a seguinte. Na sua cidade Natal você tem segurança de estar mais focado na música, tem a família perto que se faltar o dinheiro do hambúrguer você pode filar um rango na casa de mainha, essas coisas. Quando você se joga a prioridade é ficar vivo e depois de criar e empreender então você abre uma concorrência ferrenha na sua própria vida.


E outra, hoje com internet rápida o mundo é literalmente um ovo de codorna. Então aquela mesquinharia do contato morreu. Tipo: “moro em SP e vou visitar o Sesc Pompéia, você de Natal não tem como fazer isso”.  Isso morreu. Te dou o email do cara do Sesc em dois minutos. Está no site deles, ele responde, troca ideia, e afins. Fim do “Fator SP”! Amo SP, amo os grandes centros, mas prefiro mil vezes morar, criar, produzir e viver em Natal


O DoSol é uma das produtoras que mais investem no audiovisual e produção de vídeos, como por exemplos os DVD's dos festivais e o DoSol Sessions TV, onde diversas bandas independentes que passam por Natal acabam participando. Qual a relevância do uso desse formato e qual o alcance deles?!


A documentação e a comunicação talvez sejam as áreas mais ativas do Dosol. Para a gente é de vital importância não só criar o ambiente do show, mas também postergá-lo, fazer com que ele gere conteúdo próprio. Você já parou para pensar que além de ser um registro monstruoso da atual cena brasileira, os vídeos do Festival Dosol também são nossa maior “peça de marketing” de um ano pro outro? Quem vê o vídeo do Conquest For Death no ano passado do festival e curte hardcore sabe que pode vir em 2012 que o bicho vai pegar. Ninguém falou que é legal, ele viu!


E outra, vivemos um momento de afirmação muito grande, onde não basta só fazer coisas legais. Você tem que fazer coisas legais e mostrar que fez para ter alguma visibilidade e poder crescer na área. O mundo é estranho, cria essas barreiras e você tem que saber transpor cada uma delas. O Dosol TV Sessions, também é uma espécie de contra-partida e agradecimento para os grupos que vem de longe e escolhem Natal para se apresentar (sabemos o quanto é difícil). Se temos condições de fazer isso com recursos próprios, porque não?


Nunca os vi na MTV, os vídeos passam na TV também?! Existe esse contato ou ideia futura de entrar nessa mídia, ou o lance é internet realmente?!


Temos o nosso programa próprio, meia hora semanal com várias reprises numa TV local. Estamos cavando espaço semelhante em Mossoró. Alguns vídeos já passaram na PlayTv, ofereci recentemente os vídeos pro MultishowHD mas nunca tive resposta. Fato é que eles tem qualidade para passar em qualquer canal. Queria exibi-los mais, mas a plataforma da web já nos satisfaz bastante.


O DoSol acaba de anunciar um novo espaço na cidade de Mossoró, local onde ano passado aconteceu uma edição do Festival. Porque fazer uma casa em outra cidade?! Existe o projeto de estender pra outras cidades do Rio Grande do Norte e outros estados do Nordeste?


Não temos a pretensão de fazer uma expansão para fora do estado, não no momento. Passamos quase oito anos com o CCDosol Natal aberto para levar essa tecnologia para outra cidade. Estamos numa área em que o processo é lento, gradual e tem que ser muito bem pensado. Fomos para Mossoró porque já tenho um relacionamento de shows com a cidade há quase dez anos e agora encontramos uma oportunidade de otimizar isso.


É um misto de vontade e ambiente ideal de se realizar algo do tipo. Temos uma galera muito comprometida por lá. Kalyl e Amilon do Monster Coyote, Rafão do Quintura, Luan dos Red Boots, Sabrina Bezeera que é uma designer, só para citar alguns. Sentimos que temos um “case criativo” acontecendo e que se parece com a gente. Então fomos lá somar forças e potencializar o trabalho. A pegada é essa.


Como é o espaço em Mossoró?! A ideia é ser multiuso (gravadora, estúdio, etc) como o DoSol em Natal?!


O Centro Cultural Dosol Mossoró é um espaço no corredor cultural da cidade com dois andares. Embaixo vamos ter uma sala para shows, exibição de vídeos, palestras, vernissages e outras atividades culturais. Toda a área é climatizada e recebe um pouco mais de 100 pessoas por vez. Temos também um escritório e uma área externa interessante. Em cima teremos um estúdio de ensaio e gravações e  um quarto de hóspedes que vai receber artistas que faremos na casa. Fazemos a mesma coisa em Natal, mas em lugares diferentes e um pouco maiores. Em Mossoró todas as atividades serão no mesmo lugar, o que é muito legal! Estou muito na pilha de ver como vai funcionar!


O DoSol é uma das produtoras que mais realizam ou fazem a intermediação em tours de bandas independentes pelo Nordeste. Qual o motivo para essa estratégia?


Gostamos disso, é o que fazemos e o porquê de existirmos. Acho que ainda fazemos pouco para o tamanho continental que tem o Brasil. Não é estratégia, é vivência, faz parte do nosso DNA. Nem curto ser chamado de produtora mesmo sabendo que somos uma. Para nós é simples, tour é a essência básica de qualquer movimentação com música, é onde as bandas melhoram, onde o network se amplia, onde você aprende ouvindo o que ainda não ouviu e onde você observa projetos interessantes que podem ser replicados na sua cidade Natal. Resumindo: tour é a universidade real da música.


Quão atrelado isso está ao movimento Fora do Eixo?! Já que o DoSol é um dos principais espaços e festivais atrelados ao FDE no Nordeste.


Nós somos simpatizantes de ideias colaborativas e coletivas desde que nascemos (o nosso estúdio de gravação nasceu de uma ideia colaborativa e isso era em 2001). Vimos o Fora do Eixo nascer, e desde sempre adoramos a ideia. Na verdade, qualquer combo cultural sério e comprometido que atue no Brasil nos interessa – caso do FDE. Por isso fomos associados na ABRAFIN, participamos da Rede Potiguar de Música do RN, nos reunimos com outros espaços culturais do país em outros eventos e por aí vai. Nossa relação com o FDE sempre foi muito boa e de uma troca excelente, não somos exatamente um coletivo, não atuamos em todas as áreas em que o FDE atual, mas na música, nossa “mola propulsora”, temos bastante relacionamento em comum.


Aproveitando que falei do FDE. Você é parceiro deles, mesmo que não se envolvendo no viés político da coisa abertamente. Como você vê essa necessidade política (ao ponto de soar partidária) do FDE?!  


Acho muito importante que alguém que tenha esse dom esteja nos representando politicamente. É uma questão crucial, cidadã e que deveria ser mais valorizada. O FDE faz bem essa conexão cultural e política e considero isso de extrema importância. Eu não envolvo abertamente em política porque não tenho esse dom. Me envolveria mais se tivesse, não para ter um cargo público, mas para poder exercer mais meu papel de cidadão.


Quando vejo que tem alguém brigando por mim fico feliz. Claro, não concordo com todas as brigas, se você for à convenção de qualquer partido, só para dar um exemplo, vai ver que geral troca farpa e discorda entre si, até chegar num denominador comum. É com diálogo e embate que a coisa anda para frente. Sem isso a inércia nos consome como uma preza fácil.



As preparações do Festival DoSol 2012 já estão em andamento. Sei que vai rolar uma parceria entre vocês e o Festival Maionese (em Macéio), com os festivais acontecendo no mesmo FDS. Já da pra antecipar alguma coisa, algum nome que vem?!


Olha, ainda estamos captando o festival e conversando com os parceiros de outras cidades. Tem uns gringos na fita e um muito adiantado que é o trio sueco Truckfighters, uma dos maiores expoentes do stoner no mundo, banda realmente incrível. O Test, que veio ao Abril Pro Rock também deve voltar para esse circuito de novembro além de outras novidades. Pro Dosol de Recife/EUA convidei o The First Corinthians projeto do Gomão (da Vamoz!) com um americano e eles já aceitaram, eheheh.


Quanto de gosto pessoal e quanto de parcerias ou "leitura do público" fazem parte da curadoria do festival? Porque nem sempre o que você acha bom arrasta público e nem sempre o que arrasta público é bom. Se você precisasse escolher, o mais importante é ser sucesso de público ou terem bandas que vocês gostam?


Se eu fosse colocar só o que eu gosto fudeu né? Eu sempre digo que festivais não escalam bandas, elas é que trabalham e se escalam e fica impossível não escala-las. Festival independente reflete o momento, é para isso que servem. Quando o trabalho é bem feito pouco importa se eu gosto ou se tem público, temos que dar um jeito de fazer. Tulipa Ruiz é excelente, tendo público ou não, temos a sorte de perceber que ela tem público em Natal, melhor pro festival. É bem por aí (e eu ainda gosto, aí é perfeito).


Como você vê a cena potiguar atualmente?! Uma das "criticas" que escuto é o fato das bandas dai não se reinventarem tanto no som. É mais ou menos isso, ou as pessoas não estão ouvindo a cena direito?! O que você destacaria na cena atual?!


Bem, a cena do Rio Grande do Norte é incrível, em Mossoró temos as coisas mais interessantes nesse momento. Red Boots e Monster Coyote são top em qualquer lugar do Brasil fácil. Essa parada de se reinventar no som é meio estranha né? Bandas independentes nem se preocupam com isso, elas vão lá tocam o que quiserem e quem quiser que goste, simples assim. Temos uma cena pop muito forte, a melhor da nossa história na minha opinião. Androide Sem par, os discos solo do Luiz Gadelha, Simona Talma, Talma&Gadelha, Camila Masiso, Ar, Tu e a Ventania, Kung Fu Johnny. Temo boas coisas acontecendo. Tô muito dentro do processo, gravo quase todo mundo, é difícil analisar...


Espaço aberto pra falar sobre o que quiser...


Obrigado! J

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1 comentários

  1. Bela entrevista! Foca confirma que é um dos produtores culturais mais antenados do Brasil. Parabéns!

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