VICTIM! e a exposição de traumas

por - 11:09

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É complicado tentar me pautar em algo para falar sobre esse trabalho assinado pelo Cadu Tenorio. Eu confesso que nunca tinha escutado nada tão brutal assim. Claro, já ouvi Atrax Morgue, uns caras noise malucos fazendo um tributo ao Marco Corbelli, o Merzbow e outras coisas que foram feitas com o único sentido de fazer o teu ouvido sangrar e te testar para ver quando tempo você aguenta com o fone de ouvido ali.


O VICTIM! (com essa grafia), nasceu a partir de traumas que acabaram de algum modo formando o front-man do Sobre a Máquina. Pornografia pesada, episódios estranhos que acontecem na sua infância, adolescência conturbada, enfim, problemas que todos passam e não sabem como descarregar. Nesse projeto de death industrial e PE (power eletronics), se é que podemos tentar classificar algo tão claustrofóbico assim, ele conseguiu, do modo dele: brutal, estridente e angustiante, aliviar tudo aquilo que todos querem: traumas.


Não é atoa que as faixas não possuam nome, apenas o número acompanhado de um #, o número do trauma. Se a ordem é cronológica, não sei e talvez seja bom não saber. Voltando ao som, eu me recuso a tentar fazer uma resenha detalhista, colocando cada elemento que foi usado e sabem por quê? Porque é impossível. O cara usou desde gavetas e torneiras pingando a sintetizadores Roland. Gavetas, isso mesmo. Secador, violino... a lista é imensa e aposto que você também não vai sacar tudo. É como Cadu me disse: “cada vez que você ouvir, acabará percebendo outro som”.


O álbum, carinhosamente chamado de Sexually Reactive Child, começa com um clima que leva você para o mundo do disco em questões de segundos e avisa: se não está preparado, é melhor desistir, porque daqui para frente a coisa vai ficar cada vez pior (no bom sentido). Vários berros são dados ao longo da música e com um ruído estridente de fundo, a atmosfera é das melhores se você não foi juvenil para desistir de curtir o som.


Trauma #2 pode ser resumida em um clima sufocante do início ao fim, já a seguinte, Trauma #03, me faz sentir um frio na barriga. Uma sensação estranha. Sem comparações, até porque as coisas são diferentes, mas o sentimento é o mesmo de quando ouço algo do Corbelli no Atrax Morgue, seu projeto em que expõe bastante seu fetiche por cadáveres (necrofilia, camaradas). Berros, o clima te colocando numa parede com muitos demônios do seu passado, cada um gritando em um ouvido, uma espécie de tortura psicológica que nem o Fleury conseguiu.



O Trauma #4 tem um violino. Não, não pense que isso torna a música menos complexa e bizarra do que estava antes, o modo que é tocado faz tudo ficar novamente mais estranho e absurdamente claustrofóbico. A faixa a seguir tem explosões. Como disse no início do texto, não vou me atrever a falar com o que foi feito, mas isso continua me deixando com uma sensação bem ruim. Tô vendo que o Cadu tem uns traumas bem fodidos mesmo. No quinto trauma, Cadu se desculpa, na faixa mais curta de todo o disco, com apenas 1 minuto e 54.


O sexto trauma é surpreendente. Vamos lá: imagine você escutando um som com samplers de filmes de pornografia hardcore da boa. Daqueles que rolam fist fucking e o caralho a quatro. Então, isso dita praticamente todo o ritmo da música. Ruídos, gemidos, barulhos que fazem teu ouvido sangrar e doer e a voz do Cadu. Acho que pela surpresa, essa acabou sendo uma das minhas músicas prediletas de Sexually Reactive Child.


Vai pensando que Trauma #07 por seu início é tranquila. Temos um barulho bizarro no canal direito do fone (vejam só, tô ficando profissional nisso). Parece uma furadeira entrando bem devagar no seu ouvido. Imaginem isso. É, agora vocês já devem ter uma dimensão de como esse projeto é foda e complicado. Para informação: não é uma furadeira, por mais que pareça, é um secador de cabelos.


Para encerrar a sessão de falta de ar e sensação de incomodo, trauma #08 é a última música do disco. Um noise que já começa mostrando para o que veio. Os berros, cada ruído filho da puta em um canal. Seu ouvido pulsando e tentando reconhecer o que é cada elemento mas ficando um tanto confuso e no fim, Cadu te dá um pouco de paz, deixando as coisas um bocado mais tranquilas para o final chegar.


Olha, eu realmente não tenho palavras para definir esse projeto. A coisa é bem mais pirada do que pensei que fosse. Eu tava escutando isso no trabalho e a sensação foi bizarra. Hoje, ouvindo e resenhando, senti algo diferente e creio que será assim até o final. Eu recomendaria que todo mundo escutasse isso, por mais que não esteja preparado, dê uma chance para conhecer os traumas alheios e ficar submerso a um mundo musical bem diferente do que a maioria conhece.

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