"Carta aberta a todos que já frequentaram uma escola pública"

por - 14:17

cronica escola


Este é um texto real escrito por um aluno de (na época) 16 anos cuja vontade de ser ouvido falou mais alto. Obviamente ele não foi ouvido e seu relato foi silenciado, tal como tantos são em meio a uma discussão relacionada à educação pública no país. O texto é longo, portanto não lhe culpo se não quiser lê-lo, assim como tantos outros fizeram.


"Após ver tudo que foi feito até aqui e ter meditado profundamente, quase desisti de tornar pública minha "opnião" (sic) - especialmente por entender que não fará diferença alguma -, mas num lapso irracional, resolvi que mal não fará e vou comentar assim mesmo. Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que, cínico que me tornei após ver tão de perto a situação, não espero que nada venha a ser resolvido e probabilíssimamente nem ao menos sequer considerado por ninguém, mas já que comecei a escrever, vou até o final.


Pois muito bem, o negócio é o seguinte: começo dizendo que o corpo docente deste ano de 2009 que agora finda, apesar de ter realizado boas contratações que vieram a proporcionar resultados visivelmente benéficos em relação a anos anteriores e positivos em relação à aprendizagem dos alunos, há ainda muito a ser feito em prol da melhoria das condições de ensino e aprendizagem no campo da aplicação real do conteúdo adquirido em sala de aula no "mundo lá fora". Isto quer dizer que, ao tentar implantar o sistema imposto pelo governo, a escola esqueceu-se de que a grade curricular é responsável não só pela formação do aluno, mas pela formação e conscientização de centenas de cidadãos em si, e, portanto, faz-se imprescindível que na formação deste seja desenvolvido todo tipo de atividade que busque a dinâmica da interatividade entre professores e alunos, entre alunos e escola e até mesmo entre os alunos entre si, pois faz parte da recepção do aprendizado ao conteúdo aplicado a condição psicológica do indivíduo.


Inegável o fato de que todos têm suas deficiências - sejam eles alunos ou professores -, entretanto, a grandiosidade humana está em saber contornar os empecilhos aparentemente intransponíveis em todo e cada tipo de situação. Grande parte dos alunos vêm de bairros muito distantes apenas para estudar numa escola que acreditavam ser de qualidade superior em todos os aspectos (e o que é mais impressionante: provavelmente ela é) e tem que lidar com certas discrepâncias, como, por exemplo, o fato de por vezes ser questionada a banalidade de se lidar com um atraso, como se fosse uma escola de ensino fundamental. Por serem tratados como infantes, os alunos assumirão a responsabilidade de tais, pois deles nada mais é cobrado e nem esperado. O mesmo se aplica à entrada na segunda aula. Para começo de discussão, teoricamente, esses alunos que moram longe (como eu, por exemplo) por lei não eram aceitos em tempos primórdios, então, uma vez que uma chance a eles foi dada, é trabalho da diretoria cobrar a chance que deram a eles, pois não é segredo que vivemos num país de terceiro mundo, representante da desigualdade e mau uso de verba.


Intenções boas existem, mas elas sozinhas não fazem muita coisa nesses dias... Infelizmente. É preciso agir além de falar muita coisa repetidamente se realmente se quiser atingir algum tipo de objetivo. Não posso omitir, também, o fato de que a coordenação e alguns dos professores realmente têm boas intenções e visivelmente esforçam-se para tentar fazer tudo dar certo, mas uma escola é composta pelo magistério e pelos estudantes - ela não pode funcionar sem os dois. Não adianta os professores lutarem para manter a ordem quando não se fazem ser respeitados pelos alunos, da mesma forma que não adianta alunos que reivindicam mudanças e agem inapropriadamente, em desacordo com o acato de suas propostas. Houve um tempo onde a beleza maravilhosa da transmissão de informações era muito apreciada e devidamente admirada, onde os professores eram tratados com respeito e devidamente referidos como "mestres" - pois é o que são, afinal -, mas hoje esse tipo de realidade é desprezada e por muitos até mesmo ridicularizada em tom depreciativo e por vezes ofensivo.


É claro que alguns alunos podem ser e são demasiado problemáticos - seja decorrente de personalidade perturbada, falta de estrutura familiar ou fase de desenvolvimento intelectual (o que não vem ao caso) -, mas acontece que, como em todo o resto do sistema, um joga para cima outro e acha que assim ninguém vai perceber que, no fundo, ninguém sabe o que está realmente acontecendo. Se os alunos fazem certas coisas que não deveriam ser aceitas, é porque essas atitudes sempre foram e continuarão a ser aceitas pela direção da escola, que prefere culpar a delinquência de mentes semiformadas a moldá-las de acordo com seus preceitos parcialmente defendidos e timida, além de contraditoriamente divulgados. Garotos e garotas sempre serão o que são e sempre foram, e cabe a quem os dirige coordenar a sua formação e desenvolvimento: trabalho esse dos parentes, amigos e mestres (leia-se professores, aqueles que detém o conhecimento - e, por que não? - a experiência de vida); e se alguém tem culpa no cartório, esse alguém é a própria (insira sua escola aqui)  e todo o seu patrimônio.


Verdade seja dita: se alunos desvirtuam e desonram a sala de aula em vez de estudar e impossibilitam, assim, a execução da aula e o aprendizado de outros alunos, esses alunos precisam de punição, e quanto mais esta for procrastinada, inevitavelmente maior se fará o agravamento da situação, pois os alunos que perturbam perceberam que não têm o que nem a quem temer. Quanto à utilização do patrimônio integral da escola: imagino que toda instituição, pública ou privada, deva ter um limite apertado o suficiente relativo a seu fundo financeiro e deve ter certas irregularidades (sejam elas de qual natureza forem) na administração das finanças, mas nunca cheguei a utilizar de forma sequer minimamente aproveitável o aparato da sala de informática e do laboratório de química da nossa querida e adorada escola e não faço a menor ideia do porquê. Será por falta de dinheiro para pagar instrutores? E a licença desse ano dos professores? Foi avisada um dia antes para não conseguirem eventuais professores substitutos? Essas são perguntas que vão ficando jogadas pelo ar... Longe de mim criticar sem fundamentações - vejam bem, não é essa a minha intenção: imagino que não seja fácil dirigir uma organização do porte de uma escola estadual majoritária da cidade de São Paulo, mas ainda assim a realidade se faz presente.


Eu estou tentando não atentar para o mérito pessoal de cada professor, pois isso seria indelicado e até mesmo rude de minha parte, além de ser um tema mui desagradável. Porém, faz-se necessário um constante debate abordado diretamente com consentimento dos professores que devem sempre estar abertos, como profissionais maduros que são, à integração das críticas construtivas e descarte das que não tiveram a felicidade de ser consideradas. Acredito, no entanto, que a ética profissional deve ser capaz de superar a péssima faixa salarial dos professores da rede estadual pública a ponto de motivá-los a parar de faltar regularmente. Com relação aos métodos particulares misturados ao programa de conteúdo da grade curricular desenvolvido pelo governo do estado de São Paulo, eles têm de ser baseados na consciência do professor após testemunhar a opinião e o parcela do resultado no desenvolvimento dos alunos, caso contrário não farão diferença alguma e apenas estarão atrapalhando. O que acontece é que alguns professores simplesmente parecem não se dar conta disso.


Abordando pontos mais específicos, acredito que, se os professores alegam péssimas condições de ensino e falta de interesse por parte dos alunos, os alunos reclamam de falta de determinação e sistemática por parte dos professores, e a própria lógica da realidade do assunto revela uma grande deficiência por parte da direção. O papel da diretoria é coordenar a escola e todas as suas atividades, dar a chance à população de adquirir a dádiva que são os conhecimentos desenvolvidos pela raça humana ao longo da sua história e aplicar as atitudes necessárias à situação - não importando qual ela seja - sem declarar meias-palavras que vão ser contraditas e subertidas no primeiro acontecimento. É fácil jogar a responsabilidade nas costas dos outros e ainda por cima ficar cobrando isso. Chega a ser um sadismo muito difundido nesses dias atuais.


A direção e coordenação da escola parecem, aos olhos do corpo estudantil, evidentemente ausente e deficiente, ao passo que negligencia atividades que poderiam vir a integrar os alunos com a escola, fazendo desta um local a eles prazeroso, onde realizariam algum tipo apresentação, festival, encenação, local de consultas didáticas, entre muitos outros. Ainda que ciente dos pontos fracos do sistema público de ensino em geral, não faço pouco da melhora significativa que poderia vir a ser apreciada se cada um efetivasse metade do que imagina. É claro que essa é uma questão que precisaria de uma monografia para ser melhor desenvolvida, em virtude de todos os fatores que influenciam nessa situação (desde a formação da personalidade de quem comanda a escola, ao conteúdo que é considerado importante em virtude da visão de sociedade sobre "importância", à formação desestruturada dos estudantes. É sabido que, afinal de contas, os alunos buscam aprender, uma vez que vieram de tão longe a tão cedo na manhã.


Não sei se serei omisso neste meu próximo ponto, mas não me recordo da última reunião de pais que houve nessa escola e não estou em posse de nenhum de meus boletins. Votações de fachada foram realizadas para a escolha de um grêmio formado por jovens a princípio impetuosos, cuja motivação pareceu desaparecer progressivamente (o que já foi mais do que poderíamos esperar, considerando que sua chapa não enfrentou oposição nas votações para representantes de sala/classe que representam um grande conjunto em branco e nada mais) até serem completamente suprimidas pelo comodismo e caindo em total esquecimento.


Enfim, a nível de conclusão declaro que, sobre tudo isso: se os alunos têm deficiências, o professorado também têm; e se alguma mudança real é pretendida, mais vale ações conjuntas e efetivas a promessas vagas e impalpáveis de pessoas que querem fazer alguma diferença, mas não têm a menor ideia do que fazer. Disse e repito: não tenho absolutamente nenhuma pretensão de que nenhum comentário randômico num blog mal frequentado e sem nenhum impacto na tomada de decisões de quem quer que seja vá fazer alguma diferença em alguma coisa, mas, mesmo assim, gostaria de deixar registrado que não precisamos de mais alienação por aqui. Se for para viver entorpecidamente embebido na mais pura hipocrisia, ao menos que ela seja sutil o bastante para não causar vergonha a todos. Aproveito o ensejo para deixar meus mais benevolentes votos para que as gerações futuras de alunos que venham a utilizar os aposentos da (insira aqui sua escola). Espero que eles tenham a oportunidade de usufruir de tudo que nunca pudemos e não podemos inteiramente."


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