Demonização da arte?

por - 14:08

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Sempre que vou a Recife, dou um jeito de passar no Cine São Luiz, situado na rua da Aurora, Centro. O antigo cinema foi comprado e reformado pela prefeitura, sua arquitetura original foi mantida. Assisti, na primeira visita a essa sala, ao filme pernambucano A Filha do Advogado, com música ao vivo, executada por Arrigo Barnabé, durante a Mostra de Cinema Silencioso. Voltei à sala novamente durante a VI Janela Internacional de Cinema do Recife. Sem saber da programação, fui informado sobre uma retrospectiva da obra de Stanley Kubrick. O filme da noite seria uma cópia devidamente restaurada de The Shining (O Iluminado). Comprei o ingresso duas horas antes, corri até o Centro Antigo para beber um tradicional “maltado cubano” bem gelado e retornei à sala. Costumo dizer às pessoas que a sala do Cine São Luiz, com seus vitrais laterais, é tão bonita e mágica que até assistir a tela em branco já é um evento. Eu poderia ficar horas naquela sala, frente à tela em branco. Durante a sessão lotada, tive uma leitura do filme inédita para mim.


Além de todo terror presente em O Iluminado, há uma trajetória marginal do personagem Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson. Esse trajeto, talvez, passe despercebido para a maioria dos espectadores. Vou tentar reproduzir aqui a reflexão que tive naquele espaço lúdico chamado Cine São Luiz.


Jack é um ex-professor, aspirante a escritor, que conquista o emprego ideal: cuidar de um isolado hotel de temporada no interior, em pleno ócio. O novo emprego é a chance de se dedicar a sua literatura, ao mesmo tempo que desfrutará de um salário fixo. Jack leva sua mulher Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Loyd) para passar a temporada sozinhos no afastado hotel.


No início do filme, encontramos os principais elementos da trama e de todo horror que surgirá a seguir. A começar pelo plano vertiginoso da abertura, que apresenta o medo diante do primeiro elemento: a natureza. Em planos abertos, mas angulares, Kubrick filma a partir de uma visão superior o percurso do carro de Jack rumo ao seu futuro trabalho. Ele está partindo para o isolamento; a natureza, suas belezas e seus perigos estão em volta. Jack caminha para o centro dessa natureza. O hotel funcionará como uma espécie de caverna, um refúgio do mundo do trabalho que lhe causava desgosto para o deleite de sua arte. A sensação de sedução e temor diante dessa natureza é reforçada pelo tema musical de Wendy Carlos e Rachel Elkind.


O segundo elemento do horror é o poder sobrenatural do menino Danny, sempre acompanhado de seu amigo imaginário Tonny. Se no primeiro caso, “o natural” é o principal sinal de perigo, mas traz elementos aprazíveis, além do temor; no segundo, há uma distinção, pois o sobrenatural não transmite para o público nenhum conteúdo sedutor, apenas medo perante o desconhecido.


O Iluminado


Esse talento sobrenatural gera um terceiro signo para a trama, um trauma familiar. A médica de Danny, ao perguntar para a mãe sobre o período no qual o menino começara a conversar com Tonny, descobre (e descobrimos junto com ela) que a criança fora vítima de violência doméstica por causa dos excessos alcoólicos de Jack. Durante a explicação, Wendy comenta com a médica que Danny havia derrubado os escritos de Jack e que, em um acesso de fúria, o pai, sem medir a sua força ao retirar o menino do local, deslocou o ombro do filho. A partir dessa pequena história introdutória (que se revela a partir da boca de Wendy e não dramatizada em cena), descobrimos que, no momento do acidente, a escrita estava acima de qualquer outra coisa para Jack, a ponto de levá-lo a ferir seu filho no momento em que este ameaça sua carreira artística. A arte de Jack está acima da família, é a sua obsessão.


Temos os três elementos que serão matérias-primas para o horror: o natural, o sobrenatural e a aspiração artística.


A natureza é sempre uma ameaça ao ser humano, seja pela sua grandeza ou pelas suas características imprevisíveis. Se esse ser humano for originário do centro urbano, os perigos e riscos causados por essa natureza aumentam. No filme a natureza aparece inicialmente como o elemento isolador entre a família Torrence e o mundo externo, eles estarão ilhados pelas florestas, montanhas, geadas, neves, tempestades. O hotel, que poderia ser um refúgio, é justamente a toca do lobo, é lá que se concentra todo mau agouro capaz de forçar as tentações mais obscuras de Jack a se revelarem.


Sobre o elemento sobrenatural, nos questionamos a respeito do verdadeiro caráter de Tony. Ele está longe de ser um amigo imaginário, porque fala através da boca de Danny, como se surgisse num estado de transe. Sempre que Tony se manifesta no corpo de Danny, este fica com uma feição séria, sombria, e sua voz ganha as mesmas características. Não sabemos se Tony é bom ou mal, essa persona é dúbia e isso é o que a torna interessante. Tony tem duas manifestações amigáveis durante o filme: uma, no começo do filme, quando aconselha Danny a não ir morar no hotel, e outra, em que aconselha o menino a ficar longe do quarto 237, local onde o antigo zelador do hotel cortara a sua família em pedaços. Ficamos no dilema, na encruzilhada, entre os bons conselhos e a manifestação sinistra de Tony. A última cena, na qual presenciamos o estado de transe de Danny (ele se aproxima da mãe com uma faca direcionada para ela, gritando a palavra “redrum”), é a sequência que mais simboliza a dualidade de Tony. Ao mesmo tempo que ele pode representar uma ameaça com uma faca mirada para Wendy, é essa mesma faca que vai ajudá-la a se defender de Jack em seu surto demoníaco.



Ao abandonar o público a essa ambiguidade de Tony, Kubrick faz com que sejamos cercados. Não sabemos ao certo em qual personagem devemos confiar. Sabemos que Jack está tomado pelo mal, que Wendy talvez não seja forte o bastante e que o menino Danny é esquisito demais. Estamos abandonados ao horror que virá de todas as direções. Dick Hallorann (Scatman Crothers), o cozinheiro iluminado, é a personagem que pode dar a luz da salvação para Danny e Wendy, mas ele leva uma machadada no ápice da ação do filme e ficamos desamparados.


No auge do horror, Tony é o que menos assusta. As visões de Danny é o que nos causa terror, é o elemento que garante grande parte das tensões da fita. No decorrer do filme, notamos que os três membros da família Torrance sofrem com visões atormentadoras. Jack delira calmamente, seus delírios surgem no crescer de sua demência (sua demência gradual deixa os planos do filme insuportavelmente simétricos e claustrofóbicos), enquanto as visões de Wendy se manifestam somente no final do filme (entre os seus delírios, vê, como o filho, a mesma correnteza de sangue invadindo o hotel). Não por acaso, essa é a primeira imagem de horror fabricada pela dupla Danny e Tonny, o sangue abre e fecha a fita. O público é banhado por esse sangue, ele caminha rumo a câmera para nos banhar.


Algumas manifestações sobrenaturais nas personagens: Jack também tem um amigo, mais fantasmagórico que imaginário, Stuart Ullman (Barry Nelson), o antigo zelador que assassinou a sua família. Stuart é o Tony de Jack, mas ao contrário do amigo do filho, seu espírito-guia tem o poder de materializar suas maldades; vide a cena em que Jack está preso e, do outro lado da porta, o fantasma do assassino o liberta para que finalmente possa matar seus entes queridos. Enquanto Tonny apenas dá pistas a Danny, Stuart é a única força sobrenatural a interferir fisicamente. A única personagem capaz de realizar alguma intervenção física (ou não) benevolente seria Dick, condenado à fatalidade. Estamos abandonados, cercados e banhados de sangue.


As duplas Danny/Tony e Jack/Stuart andam paralelas na trama e trazem inúmeras semelhanças. No final da fita, vendo a imagem de Jack entre os antigos hóspedes e funcionários do hotel, descobrimos que sua ligação com o zelador assassino é ancestral, os dois se confundem, já não sabemos quem é quem. Kubrick usa o ator Barry Nelson para representar Stuart, descobrimos com o último plano do filme que Stuart tem o mesmo corpo que Jack, é Jack Nickolson quem está na foto. Seria o ataque de loucura de Jack o prenúncio de um futuro sombrio de Danny, auxiliado pelo misterioso Tony? É como se pai e filho carregassem os seus respectivos espíritos malfazejos e compartilhassem da mesma maldição.


O combustível máximo para a demonização de Jack, apesar de tantos fantasmas ou maldições, do natural e do sobrenatural, ainda é a sua arte. Stuart e Tony são apenas desdobramentos. Jack se sente acuado, na encruzilhada, entre a sua aspiração artística e as suas responsabilidades familiares. Para a a família de Jack, a arte é o despertar da maldade, representa a instabilidade financeira e o desequilíbrio mental, a violência.


Enquanto a personagem luta para livrar a sua arte da condição marginal, encontra uma nova angústia ao se deparar com a crise criativa. Sua arte agora tem dois inimigos: a família e a falta de criatividade ou talento natural.


Jack se vê obrigado a achar um culpado para sua desgraça profissional, sua frustração. Para a personagem, a família, com toda responsabilidade que está em volta, é a maior culpada por ele ter desperdiçado tanto tempo fora do habitat artístico. E talvez seja a ausência desse habitat o fator que o levou ao fracasso artístico, ao menos Jack parece acreditar nisso. Se em um primeiro momento a arte representava o mal para sua família, para Jack o mal está em sua própria família. Há uma troca de olhares subjetivos opostos entre as personagens.


A arte em si já não é mais o demônio como conspirava o mundo que cercava Jack. Talvez ele sempre tenha sido um péssimo escritor. Seu livro consiste em repetir milhares de vezes a frase: “só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão”. A personagem não tem mais guarida em nenhum lugar, nem no meio familiar, nem no meio artístico. É expulso, como se fosse expulso do inferno para lugar nenhum. Demonizado pelos dois lados, Jack retroalimenta a sua condição marginal e passa a personificar de uma só vez a maldade humana.


Nesse caso a arte deixa de ser o demônio como parecia ser inicialmente. O embrião do mal agora é a vida metódica dos padrões sociais. Para Jack, foi essa a causa de seu fracasso ou simplesmente a desculpa para justificar a sua falta de talento. A personagem com o machado na mão encarna o discurso do artista derrotado.


Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão é o que produz tantos demônios filme afora.


(esse texto foi publicado originalmente no blog O Olho Derramado)

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