"Sobre o dia depois d'A Noite"

por - 14:09

crônica final da liberta


Se você voltou da caverna ou saiu da bolha somente agora, o Corinthians venceu a Taça Libertadores da América. Talvez até se você tenha chegado hoje de Marte, já deve estar sabendo, visto que a comemoração foi dantesca. Não sou corintiano e nem “anti-corintiano”, porque poxa, tem que ser muito espírito de porco para torcer para o outro não ganhar. É como ver um motoqueiro empinando sua moto e torcer para que ele caia ou ver aquele seu amigo fazendo um castelo de cartas todo bonitão e você soprar pra ver o feito sendo destruído. Muito deselegante.


Por mais que alguns torcedores beirem ao fanatismo xiita de quem tem que ir para a linha de frente morrer e torcer por seu time, não acho correto fazer o mesmo pela causa contrária. Por outro lado, torcer para um time pode ser algo bacana, mas se feito de maneira que não afete mais do que seus amigos, que tem a obrigação de te tolerar (se forem seus amigos mesmo). Mas corintianismos e anti corintianismos a parte, fui bombardeado com a comoção popular dos dois lados. Gente torcendo para o time perder e gente torcendo para o time ganhar, sem contar nas piadas mais sem graça que eu já vi e que não gostaria de ter visto, pelo bem de meu senso de humor. Mas até aí, tá valendo, o público faz parte do espetáculo do futebol. Se não fizesse, o que teríamos no lugar disso? Eu jogando Winning Eleven no modo campeonato.


Mesmo não torcendo e nem destorcendo para time envolvido nenhum, assisti ao jogo, aos comentários, à torcida, às vítimas e aos noticiários exageradamente repetitivos sobre o feito conquistado pelo vencedor. Porém, o dia seguinte ao jogo me pareceu diferente. Dormi muito bem mesmo com os festejos da rua, então não me refiro a isso. Na verdade me refiro a algo que não vi ninguém admitir. Não digo no geral, mas meu bairro parecia muito mais tranquilo que de costume. Com a exceção do fato de que a cada vinte metros podia se encontrar cinco corintianos sorridentes e uma saraivada de fogos, tudo parecia mais leve. As pessoas sorriram mais, eram mais gentis e pareciam mais dispostas a encarar o novo dia com mais ânimo.


Tive certeza disto quando estava parado no semáforo. Um senhor e sua bengala faziam o passeio mais lento que se pode imaginar, quando um motoboy exibia sua camisa roxa de seu time vencedor para seus outros amigos motoboys estacionados na calçada. Ao entoar o hino de seu time, o velho deu um pulo e um abraço no, agora parceiro, motoboy e os dois já pareciam amigos de infância. Ninguém faria isso em outra ocasião e mesmo sabendo que esta alegria pode ser extremamente superficial e passageira, ela me inspirou certa esperança de que a sociedade como um todo não está perdida. Mesmo com as piadas extremamente sem graça de quem gosta de rir com as glórias conquistadas em tempos mais simples.


O dia após o jogo que provavelmente parou São Paulo foi bom. Estamos tão mal das pernas que qualquer comemoração se torna a válvula de escape perfeita pra se esquecer dos problemas. Só espero que quando a ficha cair e todo mundo reparar que foi apenas um troféu, todos ainda tenham o mesmo ânimo para continuar vivendo em meio às tretas que virão. E se for pela tranquilidade do paulistano que vive de saco cheio, puto e sentado em cima do próprio saco, espero que outras Libertadores sejam ganhas pelo Corinthians. Mas que o Boca facilitou, sinto muito,  facilitou sim.


crônica final da liberta

Você também pode gostar

0 comentários