Raça Negra, o AC/DC do pagode

por - 11:09

 raça negra resenha


Escrever para o altnewspaper tem sido uma ótima experiência  e agradeço muito a todos os envolvidos em meu ingresso para esta grande família muito unida e também muito ouriçada, mas lambança de sacos a parte, preciso fazer algo não só por mim, mas por todos que leem o espaço e que gostam de música nacional. Estava ouvindo umas coisas antigas num domingo mal passado, tipo aquele bife de vaca, duro feito um cacete, que seu tio faz pro churrasco de família, e por acaso descobri algo que não estava em segredo para ninguém, mas que me surpreendeu. O Raça Negra ainda está na ativa! Sabe o que é o Raça Negra? Não? Puta merda.


O Raça Negra é sem dúvida nenhuma o grupo de pagode/samba rock/samba mais foda do universo, sendo considerado o pioneiro do pagode romântico, que veio a estourar especificamente nos anos 90. Posso estar sendo injusto com vários outros grupos que marcaram época, mas só posso lamentar por isso. O grupo se formou em 83 na zona leste de São Paulo, mas só gravou o primeiro disco em 91, sendo marcado como o estouro da boiada de sucessos clássicos que marcaram muita gente dessa época, inclusive eu, que tinha acabado de nascer. Não satisfeitos? O grupo também é recordista de vendagens na música brasileira, vendendo mais de 30 milhões de cópias em 27 anos de carreira e sendo os antigos defensores do recorde mundial de “música mais tocada em um dia”, sendo 600 execuções de apenas uma música. Agora o recorde é da Shakira, com aquela música da bunda dela que chacoalha e não mente.


Mas vamos ao que interessa. Quando soube que a banda ainda estava na ativa, fiquei muito feliz, principalmente porque antes soube de algo que me deixou perplexo. Um dos ex-integrantes do grupo atualmente estava vivendo nas ruas, por não poder mais pagodear graças a um derrame e por problemas familiares. Depois de um tempo nas ruas, agora ele recebe ajuda da assistência social da igreja Mundial, tanto para cuidados como para tratar o problema que tem com as drogas. Mas aparentemente a perda de um dos membros da banda não desanimou o grupo, que tocou a vida pra frente e gravou um disco ao vivo em 2012, porém, resenhei o disco de 2009, “Raça Negra vol. 36”, que é um disco de inéditas. Muito foda, né? Então saca só.




[caption id="attachment_16043" align="aligncenter" width="486"]raça negra resenha Edson Café, marcado na imagem, é o integrante que se fodeu mais que o cara do Legião Urbana =/[/caption]

O disco é absurdo. Mais de vinte anos se passaram desde o primeiro disco lançado e ele soa como se ainda estivéssemos em 91 no que diz respeito à identidade da banda. A ação do tempo não alterou em NADA o som do grupo, o que é ótimo, visto que o som era bom antes e continua sendo. Instrumentalmente, o disco é muito bem servido, com a utilização de metais em praticamente todas as composições, instrumentos de sopro pra dar a melodia característica e a percussão de um pagodão de mão cheia. As violas são de encher os olhos, extremamente envolventes e dando à música aquele ar romântico que caracteriza uma era que já passou. Apesar de ter dito que o disco soa como os antigos, não acho que o novo seja repetitivo ou ao menos preguiçoso em algum quesito instrumental.


Luiz Carlos, o vocalista, faz um trabalho excelente desde 91 e continua neste registro. Antigamente, seu problema de língua presa era notável em muitas músicas, dando um toque único a seus vocais, mas agora é engraçado ver como quase não dá pra reparar esta característica, exceto quando a palavra exige uma puxada de R ou de S. A presença de backing vocals deixa o disco romântico ainda mais romântico, contribuindo para a fama que o grupo carregava se mantenha firme e forte em 2012. As letras são impressionantes. Na maioria das vezes, não passam de um pagode romântico, como tantos outros, mas se comparado a outros grupos da década, estes senhores são PhD em letras, tornando toda a experiência em algo muito diferente do que ouvir algum outro grupo.




[caption id="attachment_16044" align="aligncenter" width="480"]raça negra resenha Luiz Carlos, acima de tudo, tem uns coletes muito foda![/caption]

Por fim, “Raça Negra vol. 36” é um disco sólido e muito bacana. Talvez não se compare com os primeiros discos, mas sem dúvida nenhuma foi um dos melhores lançamentos nacionais de 2009, apesar de ninguém ter sequer comentado ele. É tarde para pedir perdão por não ter resenhado este disco antes, mas paciência. Com essa coisa de tanto tempo na estrada e o som não mudando muito, acho que dá pra comparar, ainda que na brincadeira, o Raça Negra com o AC/DC. Ambos são bons fazendo o que fazem, sem nem precisar tirar e nem por nada, já que possuem um som tão consistente que beira até a imortalidade de seus registros, muitas vezes, absolutos. Apesar de gostar mais de Raça Negra que de AC/DC, mas tudo bem.


O Raça Negra disponibilizou este disco inteiro para ser ouvido online (clique aqui e saboreie). Isso não é foda? Como é um disco muito legal mesmo, recomendo a todos que gostavam daquele tempo do pagode. Estes sim são os verdadeiros mestrões.

Você também pode gostar

0 comentários