Kamau - ...Entre...

por - 11:08


Kamau é MC, mas faz música brasileira contemporânea, sem nunca ter precisado ir muito além do Rap em seu trabalho. O mais recente lançamento do paulista, o EP com cara de álbum "...Entre..." é mais uma prova disso.


Som ambiente de portas se abrindo e pessoas adentrando algum espaço antecedem a poesia e instrumental de violão e teclados que dão as boas vindas a quem está entrando no EP. E então após o despertador tocar, a faixa-título chega com colagens que mostram por que Erick Jay é considerado um dos melhores DJs do Brasil e a letra bem lapidada (como de costume), com a primeira parte descrevendo a arrumação da casa pra receber os ouvintes e a segunda construída em cima da palavra Entre, o que rende versos como "Entre Holocausto Urbano, Ventura e Dwitza... Entre dedos cruzados, punhos cerrados e mãos unidas em prece pra que nada dê errado". Além do refrão muito bem cantado pela Paola Evangelista e Di Ferrero (Nx Zero).


Os outros instrumentos utilizados acrescentam bastante aos beats escolhidos para esse EP. É o caso das guitarras de André Maini (Strike) em Eu Vou, que é daqueles raps que você logo imagina num show, com refrão pra "put your hands up" e tudo mais. Uma inusitada passagem dos Sete Anões se encaixa perfeitamente entre essa faixa e a seguinte, Música de Trabalho, esta sem dúvida um dos destaques do álbum, com uma letra que varia entre bom humor e sarcasmo sobre as agruras e alegrias da vida de MC e que não só músicos, mas qualquer trabalhador artista deve se identificar. "Não pago contas com respeito e consideração/ não peço mais do que respeito e remuneração", reivindica o rapper.



Quem acompanha o trabalho do Kamau já tinha ouvido falar no nome Renan Samam, quando o single "21-12" foi lançado no final de 2009. A música recebeu o registro digno entrando para esse EP e o nome do Samam se mostrou ainda mais fundamental nesse material. Responsável pela maioria das batidas do disco, o beatmaker carimbou seu nome entre os mais relevantes do país. É dele a batida de outro grande destaque do Entre, a pesada "(Eu quero) Mais", com uma das melhores letras já feitas por Kamau. O beat soa como um soco e a letra como um tapa na cara de quem duvida que o "rap ainda é dedo na ferida". Abordando questões raciais com versos como "Quero mais liberdade, muito mais que abolição/ Eu quero mais que um presidente só, eu quero uma nação... Mais que ser chamado pelo termo mais correto, quero o justo quero o certo... Eu quero mais que uma protagonista/ Ou escolher a mais bonita pra ser capa da revista" e fazendo rap auto-crítico em trechos como "Mais que ter o flow mais cabuloso/ Mais que ser famoso, eu quero o meu trabalho mais reconhecido... Eu quero muito mais que o som batendo no falante da balada".


Mesmo com momentos de peso, no geral a atmosfera do Entre é carregada de melodia, o que já parece ser característico do trabalho do Kamau. Em "Lágrimas do Palhaço", o MC se junta ao piano Rhodes de Daniel Ganjaman e os vocais de Tulipa Ruiz para tornar essas melodias ainda mais agradáveis. Música linda mesmo, à altura de Vida, do disco anterior. Ouça o refrão de Lágrimas do Palhaço num fone de ouvido bom e surpreenda-se com o quanto a Tulipa soube encaixar bem seu talento num rap.




[caption id="attachment_16644" align="aligncenter" width="610"]Foto: Jess Penido Foto: Jess Penido[/caption]

Responsável pelas poesias da introdução do EP e da faixa Acorde, o poeta Emerson Acalde volta a aparece em Hora de Partir, sua participação mais feliz na obra e que conta com um verso que parece resumir o papel de Entre na carreira do Kamau: "Se temos uma essência, ela é nômade". Nessa etapa em forma de EP, ao mesmo tempo em que o MC mantém seu estilo, arrisca experimentando levadas, temas e sonoridades instrumentais. Na mesma faixa de Hora de Partir, aparece um bom exemplo disso: a música "(Eterna)mente". Num beat seco e pesado, Kamau versa toda a letra com rimas na terminação "ente" e o conteúdo não é deixado de lado: "Consciente de que a única constante é a mudança/ Consequentemente, todos os dias uma lição diferente".


Ciclo encerra oficialmente o EP, que ainda traz três faixas bônus: os remixes de Só (anteriormente conhecido pelo clipe) e de Resistência, que além da participação da MC Invincible, de Detroit (USA), ganhou um beat pesadão assinado pelo Renan Samam e ainda tem espaço pra Pretinha, versão do hit da Flora Matos, com Rael da Rima no refrão.


Mais um registro de qualidade na sólida carreira que o Kamau vem construindo com sua música. Não se limitou ao êxito de Non Ducor Duco e foi além, com um EP composto por músicas que podem agradar desde os ouvidos mais xiitas do rap até aqueles que não estão lá muito familiarizados com o estilo. Rap puro, mas nada limitado, letras muito bem lapidadas, beats escolhidos com maestria e detalhes que farão valer a pena cada audição do Entre.

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2 comentários

  1. Obrigado Fernando por registrar uma critica tão fundamentada um trabalho que realmente cumpre o conceito que vende. ...entre... e que venha o futuro do Kamau e da original música rap brasileira.

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  2. kamau sempre Kamau, fazendo pra durar.

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