Lealdade suja de sangue

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Na primeira leitura de Corações Sujos, Vicente Amorim não esperava encontrar ali os ingredientes necessários para desenvolver seu novo longa-metragem. Identidade, adequação e pertencimento são características que permeiam o mais novo filme do diretor, baseado nos acontecimentos relatados no livro-reportagem de Fernando Morais sobre um episódio até então desconhecido por boa parte dos brasileiros: a Shindô Renmei ou Liga do Caminho dos Súditos, organização militar de colonos japoneses que não acreditaram na derrota do país, terminada a Segunda Guerra Mundial. Apoiados por cerca de 80% da população nipônica de São Paulo, os “vitoristas”, ou kachigumi, tinham como prática exterminar os compatriotas que acreditassem na verdade, a quem chamavam “corações sujos”, ou makegumi.


Nenhum aspecto do filme homônimo ao livro chama atenção para o fato de que se trata de uma produção brasileira, apesar da nacionalidade do diretor e das imagens terem sido realizadas aqui. Começando pelo fato de todo o elenco principal ser japonês, estão lá todos os componentes melodramáticos típicos da dramaturgia japonesa, a trilha sonora e as interpretações carregadas de sentimentalismos exacerbados. Em entrevista concedida à revista Continente do mês de abril, o diretor comentou que a opção por esses atores se deu principalmente pela dificuldade que os artistas nipônicos brasileiros tem de atuarem no país.


“O filme foi concebido para o mercado brasileiro, mas, sabendo do potencial comercial do Japão, a decisão de trazer o elenco principal de lá foi óbvia. Teríamos dificuldade de fechar os principais papeis aqui. Mesmo a colônia sendo enorme, não há oportunidade para atores japoneses no Brasil. (..) Para escalar o elenco, além de critérios artísticos, procuramos atores que fossem relevantes comercialmente”, comentou Amorim, que contou com a produtora de elenco Yukata Tachibana, conhecida pelo trabalho em Cartas de Iwo-Jima, de Clint Eastwood.


Apesar de não centrar em nenhum personagem específico, o longa é pontuado pela visão da pequena Akemi (interpretada pela paulista Celine Fukumoto, de 10 anos de idade). Do núcleo de Akemi, desponta a relação de amizade da garota com o retratista Takahashi (Tsuyoshi Ihara), um homem que, a partir do convite para tomar a frente da Shindô Renmei, realizando os assassinatos dos principais dissidentes, se vê em conflito entre o sentimento de lealdade para com o Império Japonês e a realidade em questão.





Usando a batalha como pano de fundo, Vicente Amorim expandiu para novas reflexões e temas como honra e justiça, orgulho e culpa. No entanto, peca em se concentrar demais nos dramas pessoais de seus personagens, deixando de lado questões históricas essenciais presentes no livro de Morais, o que de certa forma contribui para que o tema permaneça na obscuridade.


O conflito, que na realidade tomou proporções muito maiores – foram 23 imigrantes mortos e 147 feridos, entre janeiro de 1946 e fevereiro de 47 –, é apresentado de maneira minimalista, como uma pequena briga entre camponeses. Confuso também é o fato de que, com exceção das citações ao fim da Segunda Guerra, em nenhum momento se tem noção de tempo, provavelmente uma opção do diretor em deixar o público tão desnorteado quanto os japoneses do filme, resultado do isolamento cultural sofrido pelos colonos, que não tinham direito ao acesso às mídias. Some-se isso o fato da Shindô Renmei em momento algum ser citada na história. Dispensável é o papel do núcleo brasileiro do filme, com destaque para o sub-delegado interpretado por Eduardo Moscovis, que nada faz além de alguns interrogatórios frustrados.


Os momentos de tensão que antecedem as cenas de violência transformam o longa num verdadeiro thriller western-samurai: os dramas pessoais e o tipo de violência, além dos elementos que compuseram o setting (as ruas de terra, as casa de madeira, a poeira e o calor), ajudam a compor a atmosfera de faroeste. Ponto também para a denúncia que o filme faz às condições de total descaso por parte do governo brasileiro à época, o que talvez explique a posição defensiva dos japoneses em relação à cultura estrangeira. A falta de informação vinda de fora e a barreira da língua não permitiam que houvessem tentativas de diálogo, de consenso, entre a colônia e a comunidade nipônica. Havia ainda as proibições a toda e qualquer manifestação cultural, como mostrar a bandeira do Japão em público – considerado, inclusive, crime gravíssimo.


* Texto publicado no site da revista Continente

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