"Dissecando o 'Mundo Corporativo'"

por - 14:12

cronica corporativo


Quando ouço as palavras “mundo corporativo” a primeira coisa que me vem à cabeça é aquela revista sobre negócios e empreendimentos que empesteia toda sala de espera que se preze. E por “que se preze”, me refiro às salas de espera que fazem o tempo PARAR, de tão chatas. Discovery Channel, revista antiga de negócios e cadeirinha vagabunda que dói as costas. Pronto, eis aí o sistema prisional perfeito que o Brasil não tem em suas cadeias, mas nos consultórios de dentistas ou de clínicos gerais.



Confesso que por muitos longos anos me vi preso a uma resistência enorme quando o assunto era o mundo corporativo e todos os seus clichês mais imbecis, porém eficazes em termos de irritabilidade. Mas, cada vez mais, esta resistência dá lugar ao conformismo de quem tem que largar os tempos de Peter Pan e aproveitar o resto de pó mágico para voar para a fila da carteira assinada. Não foi fácil deixar para trás os sonhos de nem passar perto de um ambiente agressivamente engravatado, mas assim o fiz para meu próprio bem, ou melhor, para meu próprio bolso. E assistir todos aqueles episódios de The Office me ajudaram bastante nisso.



Mas o que ainda me incomoda neste chamado “mundo corporativo” é o modo com que ele se assemelha a outros mundos igualmente adultos e ditos elitizados. Sobretudo, me refiro ao discurso padronizado, à monotonia e às regras sociais impostas de maneira subliminar. Talvez eu seja a favor de algumas regras para o convívio com outros seres humanos, mas acho que regras devam ser vistas mais como guias do que como ordens expressas. Em outras palavras, a rigidez de alguns destes padrões me parece desnecessária. O exemplo mais básico que consigo dar é o da roupa social. Puta que pariu, como eu odeio usar roupa social. Mas em alguns ambientes de trabalho, sou OBRIGADO a usar. E nem sempre há um motivo para isso, senão o de manter um padrão pré-estabelecido por alguém lá atrás no tempo. Veja bem, não quero criar revoluções com este tipo de questionamento, mas adoraria apenas entender o funcionamento deste tipo de regra em dados ambientes. Pensando bem, que se foda.



Há um tempo, quando fui fazer uma entrevista numa dessas empresas grandes e com nome inglês, fui pego por vários destes pequenos formalismos. Pra começo de conversa, tive que ir como um pastor da Renascer, todo engomadinho. Depois, me deram uma caralhada de testes, o que ainda é compreensível, afinal, se você quer ganhar dinheiro, tem que provar que tem capacidade para tal. Mas o passeio de charrete desceu a colina quando, por alguma razão, a selecionadora resolveu dar uma palestra de uma hora e meia sobre responsabilidades e honestidade aos tolinhos concorrentes à vaga, incluindo eu, obviamente. Foram os minutos mais longos da minha vida. E gastos da pior maneira possível. Após mais duas dolorosas etapas no processo de seleção, só restaram dois cidadãos: eu e mais um cara, ambos atordoados com um dos piores processos de seleção que eu já vi desde a convocação da copa de 2010. Por fim, nos disseram que nos ligariam em caso de termos conseguido a vaga ou não. Eu nunca mais recebi a tal ligação e como conhecia o outro cara, ele me disse que não recebeu ligação também.



Se entrevistadores se prestam a palestrar sobre um assunto de maneira que te faça sentir vontade de fazer o oposto e ainda assim não se ganha nada em troca, qual foi o motivo da palhaçada, de qualquer maneira? Ou melhor, como exigir honestidade e responsabilidade de alguém que se presta a retornar uma ligação e não retorna? O “mundo corporativo” não passa de um reflexo trêmulo de nosso sistema social. Há lobos, há cordeiros e há uma cambada de filhos da puta. Nada que ninguém já não saiba, mas se você quiser entrar neste meio, já sabe bem o que deve fazer, certo? Artes cênicas.


cronica corporativo

Você também pode gostar

3 comentários

  1. Visito o blog semanalmente mas nunca comento. Gostaria de deixar os parabéns pelas palavras que sempre encontro por aqui. Musicalmente como ideologicamente, muitas coisas fazem sentido aqui... como esse texto...hehe.

    ResponderExcluir
  2. Luiz Guilherme Prats27 de julho de 2013 12:37

    O mundo corporativo é um teatro. Ele é formado de 10% de competência técnica 90% de simulacro (de status, de saber, de importância). Às vezes esses percentuais se alteram um pouco para cima ou para baixo, mas a teatralização é sempre preponderante.
    O resultado é um ambiente esquizofrênico em que todos tentam impressionar o outro com falsos saberes, sofismas à vontade e muito dinheiro gasto com roupas para passar uma imagem de bem-sucedido(a).
    NÃo é a toa que há muitas pessoas doentes de caráter e de mente nestes ambiente.

    ResponderExcluir
  3. Achei que só eu pensava isso... ufaa... não estou doente, nem neurótica...Belas palavras!!

    ResponderExcluir