"Estados psíquicos de espiritualidade"

por - 14:13

cronica espiritualidade


Devia ser uma quarta feira que antecedia feriado prolongado, pois a cada rosto que se via naquela faculdade, dava até pra sentir a vontade que todos tinham de não estar lá. É aquela expectativa de ficar dias longe de algo que se está cansado de fazer, sabe? Estava sentado num banco de concreto, esperando o tempo de começar a aula. São Paulo é uma cidade que te obriga a evitar o trânsito saindo mais cedo de casa, porém desta vez, fui traído e cheguei bem rápido ao meu destino. Não que eu esteja reclamando, mas acabei ganhando longos minutos de banco para meu deleite.



O tempo estava agradável e não tinha obrigações acadêmicas para cumprir, então resolvi fazer o que levei anos para aperfeiçoar: nada. Sentei-me e pus-me a observar as flores dançando sob a brisa que soprava, enquanto viajava em pensamentos dos mais variados, que não tinham nenhum significado específico. Só exercitando o eu-lírico mesmo. Até perdi a noção do tempo naquele estruturalismo em forma de cena de filme francês. Em um dado momento, vi passando alguns estagiários da clínica-escola, que basicamente funciona como uma clínica de psicologia, mas com alunos atendendo e preços simbólicos para o acesso aos mais necessitados. Observei a estagiária do canto, que tinha uma belíssima bundinha, mas depois voltei ao limbo de pensamentos.



Não vi exatamente quando, mas um senhor aparentando seus 50 anos surgiu e se sentou ao meu lado no banquinho do estruturalismo de concreto. Ele começa a me olhar fixamente e quando repara que estou levemente incomodado, me pergunta se estava meditando antes de chegar. Meditando? Eu não daria um nome tão bonito ao ócio, então respondi negativamente. O homem sorriu e gentilmente me explicou muita coisa sobre o assunto, inclusive me ensinando técnicas. Depois de uma aula gratuita e não solicitada só pude agradecer. Novamente o homem sorri e me pergunta o nome. “Welker”, digo. “Nome forte, hein. Você vai ser dos grandes”, respondeu. Aparentemente ele não estava sendo irônico, pois continha uma certa satisfação em manter a conversação. Com um aperto de mão forte e amigável, ele diz seu nome e vai embora. Tive a impressão de ter ouvido ele dizendo “Dalai Lama”, mas preferi não perguntar de novo. Se o ver novamente, com certeza vou me lembrar dele.



Depois de assistir a aula, me perguntei de onde o tal senhor teria saído. Tinha certeza que ele não era professor, mas não sabia o que ele poderia estar fazendo lá. Depois de um tempo descobri que o nome dele estava correto. Ele era Dalai Lama. Quer dizer, o senhor em questão acreditava ser Dalai Lama, o que explicava a razão de tê-lo encontrado próximo à clinica-escola. Mas o que mais me intrigou foi como seu delírio era muito bem estruturado, a ponto de ser coerente no que o senhor se propôs a fazer. Praticamente tudo que ele me ensinou sobre meditação era verdadeiro. De qualquer modo, o sr. Dalai Lama sempre será lembrado por mim e por seus ensinamentos, pois este foi o mais próximo que cheguei de uma intervenção divina. Se você fala com Deus, você é religioso, mas se Deus fala com você, você é maluco. A ironia em sua forma mais sublime.


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1 comentários

  1. "Se você fala com Deus, você é religioso, mas se Deus fala com você, você é maluco. "

    Essa eu ouvi do Dr. House. Isso explica os rumos da humanidade... um grande delírio.

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