Uma viagem sádica e religiosa por Vulgatam Clementinam

por - 14:09

bemônio - vulgatam clementinam


Bemônio é Paulo Caetano, carioca, talvez da gema, que lançou um disco via Toc Label, intitulado Vulgatam Clementinam. Drone, experimental, eletrônico, noise, um combo de tudo que as pessoas que acompanham os materiais que têm saído pelo selo de Cadu Tenorio e Thiago Miazzo, manjam que é o que tem saído por lá.


Confesso que não dei a devida atenção para o disco assim que saiu. Ouvia algumas faixas, ia fazer outras coisas, baixava, deixava ali, começava a ouvir, alguém em casa gritava, tinha que sair e essas paradas todas. Agora estou escutando pela terceira ou quarta vez com a atenção que deveria ter sido dada desde o início e me espanto.


Carregado de uma temática religiosa (o nome das faixas dão a entender isso), é possível notar um sadismo quanto a parte cristã. O disco é cheio de pequenos barulhos ensurdecedores e quando ligado àquela religião, o clima fica um tanto quanto assustador. Ritos Iniciais abre o leque de experimentações de Paulo Caetano e evidencia toda a parte ressaltada de sadismo.


Comunhão, segunda música do álbum, ecoa em seus ouvidos algo estridente, com pequenas variações ao fundo. Nunca fiz a Primeira Comunhão, mas aqui entro num mundo ateu praticante de atos cristãos quando criança. Não sei se é o caso de Paulo Caetano, mas o barulho da Comunhão, do encontro com a divindade, é tão bizarro e pitoresco que, de alguma maneira, o contato está sendo feito e estamos de algum jeito, tomando o sangue e comendo o corpo de Cristo, mas não de um modo católico, numa ideia bastante perturbadora.


A terceira faixa de Vulgatam Clementinam recebe o nome de um feriado que nunca entendi: Corpus Christi. Ela é, até agora, a que mais ganhou variações de ruídos e a que te faz refletir e ficar confuso quanto às procissões que passam na sua rua quando chega o bendito dia. Durante dez minutos e quarenta segundos, microfonias que parecem gritos, barulhos que te fazem ficar um pouco distante de todo o mundo real, apenas entrando de cabeça no convite a religião macabra apresentada por Bemônio.


Salmo Responsorial não é uma oração. Não tem nenhuma relação com nada que está escrito na bíblia. Ao menos que você já tenha entrado na onda do disco, que novamente digo, é de um sadismo religioso enorme. Aqui, o barulho é constante, as variações praticamente nulas, a não ser no final, que as coisas dão uma acalmada, mas pode ser capaz de você não querer embarcar no restante da viagem.


Com 4 minutos e cinquenta e seis segundos de duração, Evangelho Segundo São Marcos começa num clima lo-fi, parecendo até que algumas guitarras estão sendo tocadas numa qualidade muito baixa de gravação. Mas isso não é sinônimo de uma faixa calma, Paulo Caetano, em alguns momentos, coloca sons agudos e distorcidos, principalmente no final da faixa.


Har Meggido é uma colina em Israel que segundo a Bíblia, será onde o grande juízo final acontecerá. A palavra, quando mal traduzida, deu origem ao que conhecemos por Armagedom. O título da música acaba explicando tudo o que foi feito na faixa, os sons quebrados, sem muita continuidade, leves experimentações num ritmo mais calmo do que já foi feito no disco. Me chama a atenção do compositor não cair no clichê de coloca-la como última faixa do álbum, eu mesmo teria feito isso.


A sétima música, Eucaristia, é a mais longa: exatamente catorze minutos e vinte e quatro segundos de duração. Ela é, como todo o processo cristão, misteriosa e sombria. Convenhamos que, tomar um vinho simbolizando o sangue de um ser humano e comer um pedaço de Doritos (alguns chamam de hóstia), dado por um padre, é um processo esquisito. Justamente por isso, Eucaristia é a música mais torta e sombria de Vulgatam Clementinam.


Vindo de um fim repentino da faixa anterior, Ritos Finais é a última música do disco e a mais tranquila, sem sombras de dúvida. Enquanto até aqui, todo o álbum sofreu variações de ruídos, barulhos misteriosos, sombrios e ensurdecedores, na décima faixa, tudo faz parecer um grande sonho e que isso é uma música ou algum cântico em latim de monges.


Vulgatam Clementinam é um disco ótimo e que em listas de discos de melhores de 2012 que tendem a ser sérias, provavelmente aparecerá ou será mencionado, pois de fato, é um álbum muito bom. Só que é aquilo, não adianta nada você não curtir esse estilo, provavelmente achará babaca, cansativo e ridículo. Como gosto, fica aqui a apreciação por ele e a dica: se estiverem preparados, ouçam.

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