Day in, day out: o Joy Division e seu dom de mudar a adolescência de inúmeras pessoas

por - 14:08

Joy Division


Uma vez fiz um texto sobre o Nick Cave aqui e tudo o que ele despertou em mim ao ouvir sua voz grave pronunciar palavras estranhas, num clima sombrio e fúnebre numa aula de filosofia. Fiz também uma pequena observação sobre o quão importante os Smiths foram na minha vida, todo aquele remelexo do Morrissey vale de algo na cabeça de um adolescente – e não, não sou gay. Depois, expliquei o quão fã eu era do Ludovic e basicamente dissequei os dois álbuns deles e fiz pequenas exaltações em relação a banda comandada por Jair Naves. E você deve estar se perguntando por que raios esse texto começa assim, não? Porque ele só faz sentido nesse contexto. Falarei aqui do Joy Division e como o Ian Curtis bateu em muita gente.


Era um mês de maio, e só sei disso porque foi no domingo de virada cultural, 2008, 16 anos, uma compulsão tremenda por músicas que falassem algo realmente relevante e sombrio, abondando um pouco as raízes políticas do punk. Consegui, não sei como, um link que me levava a uma compilação chamada Warsaw, com várias músicas do Joy Division. Baixei correndo, contei os minutos e quando acabou, dei play. De início, senti-me frustrado: isso é punk, caralho!, resmunguei. Mas bateu tão na hora que passei a ouvir e gostei bastante de músicas como “The Leaders of Man” ou a própria “Warsaw”.


Passando um tempo, comecei a guardar dinheiro para comprar discos de vinis e decidi que o primeiro álbum que eu compraria era o Ziggy Stardust do David Bowie (é sério e eu gosto desse disco até hoje, bem como o Alladdin Sane). Corri em uns sebos e nada. Um deles já tinha vendido o disco um dia antes por apenas R$5. Pensei que deveria ir pra Galeria do Rock e colei lá e aí começa toda a história.


Entrei na Baratos & Afins e nem sabia o quão grande a loja era, além de ter um preço mais alto do que as outras. Comecei a procurar o Bowie e pã, 55 mangos. Desisti, tinha só 50. Passei a me lembrar de coisas que eu gostaria de ter em vinil: Cave, Smiths, Cólera, Black Flag, mas tudo isso seria caro. Achei o disco de covers do Nick Cave (Kicking Against de Pricks, 1986): R$25. Peguei. Num lapso, me lembro do grandioso Joy Divison e peço pro vendedor que eu quero o primeiro. Ele me deu um disco com a capa preta e eu fiquei pensando “mas que porra era aquela”. Perguntei se era o primeiro e ele disse que sim (pra mim o primeiro registro (não álbum) era o Warsaw, como de fato é, mas não a minha compilação).


Joy-Division


Chegando em casa, coloquei o álbum preto, sem título, com umas montanhas para tocar e para minha surpresa, em nenhum dos lados (nele não há A e B, é Inside e Outside com o rótulo de um branco e do outro preto) tinha nenhuma música da minha coletânea. Por segundos fiquei puto, pensei “caralho, tomei um balão”. Resolvi dar uma chance para aquele álbum que eu não sabia o nome e nunca vou me esquecer de Disorder abrindo aquela noite.


Sentei-me na poltrona e comecei a notar cada nota, cada palavra pronunciada naquele disco, vez ou outra eu até me perguntava se era o mesmo carava que cantava Transmission na coletânea de singles que eu tinha pego. Ouvi o álbum umas três vezes seguidas e então fui dormir, surpreso e tomado por tudo aquilo que o Joy Division tinha me proporcionado.


No dia seguinte, comecei a procurar na internet o nome do álbum que eu tinha para poder ter em mp3 também (e foda-se você, senhor eu não baixo música) e descobri que era o Unknown Pleasures. Fiz o download e quando fui ouvir, era isso, exatamente isso. A voz de Ian Curtis, Disorder, ela perdendo o controle, Shadowplay e todas as músicas estavam lá. Então, cai de cabeça na discografia do grupo.


O Closer trouxe uma comoção enorme para mim: era a evolução artística de Ian Curtis, que infelizmente, estava totalmente aliada com sua depressão e seu problema de epilepsia. Em Isolation, sentia-me desolado e como se eu tomasse um soco do vocalista a cada verso, mas principalmente nesta estrofe: “Mother I tried please believe me, I'm doing the best that I can. I'm ashamed of the things I've been put through, I'm ashamed of the person I am” (em pt-br, numa tradução porca: mãe, eu tentei por favor acredite em mim, eu tenho feito o melhor que posso, eu me evergonho das coisas que tenho feito, eu me envergonho da pessoa que sou).



Claro que o segundo álbum e último com Ian Curtis vivo (se não me falha a memória), me chamou a atenção por várias coisas e principalmente por um comentário do Welker que o lado A e lado B são sempre diferentes, um é mais “feliz” que o outro, uma alusão talvez a bipolaridade de Ian Curtis, mas chega de falar dele. O Substance contém algo que encerrou meu ciclo de admiração e fez com que o Joy Division entrasse naqueles tops de bandas: a faixa Atmosphere.


Ela é, sem sombra de dúvidas, um canto triste e totalmente fúnebre da parte de Ian Curtis: “Walk in silence, don’t walk away, in silence.”, “Your confusion, my ilusion” e todo o resto da canção acaba te levando para uma atmosfera (trocadilhos a parte) que poderia ser facilmente a de um suicídio e não atoa, encerra o filme, tretas a parte, Closer, que conta a história de Ian Curtis.


Você deve ter chegado ao fim desse texto, se é que chegou, e se perguntado, “por que porra esse cara fez isso?” e a resposta é simples: essa é uma daquelas bandas que mudou minha vida e provavelmente a sua, a visão de mundo e toda a sua adolescência. Por motivos de direito autoral, não uparemos os discos, mas vocês podem encontrá-los em sites de torrent com uma qualidade boa.

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