Entrevista: Jair Naves, o novo disco e o Sandro Bongiovi

por - 11:07


Há algumas semanas, Jair Naves me pediu para bater um papo sobre "E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas", seu primeiro álbum que já está no forno. A principio fiquei receoso, já que faço parte do lançamento do disco, sou fã quase tiete do trabalho do cara e o disco fundiu minha cabeça. Ou seja, o risco de uma entrevista CHAPA BRANCA era enorme. Mas no final, juntei um monte de dúvidas que acumulei durante a audição do disco e enfim conversamos online por aproximadamente quatro horas.


O papo foi ótimo (seria melhor se rolasse num bar), consegui ser chato e inconveniente e acho que vai dar para clarear muitas duvidas sobre o disco para quem ouvir (ou aumentar a expectativa de quem ainda não escutou).


Ai está!


*Entrevista feita por Cleiton Sotte (Travolta Discos)


Com o clipe de "Pronto para morrer" no ar, e as primeiras impressões das pessoas que te acompanham... Tá dentro da sua expectativa? Ou, você acha que conseguiu acertar os nervos certos lançando essa música?


É difícil dizer. Depois de tanto tempo me dedicando a isso, chegou um ponto em que eu evito criar muitas expectativas, me controlo para não me deixar esperar que todo mundo vá ter o mesma empolgação que eu tenho com o que eu faço. No que diz respeito a essa música especificamente, ela foi escolhida para quebrar a seqüência de baladas que eu vinha lançando como vídeoclipes - primeiro "Silenciosa", depois "Um passo por vez". Imaginei que iria causar um certo estranhamento, mas não sabia se as pessoas iam gostar ou não. Pensando bem agora, foi uma estratégia bem arriscada, já que é a música mais pesada, áspera, sombria do disco. Felizmente, parece ter dado certo. Tô bem orgulhoso com os comentários que estamos recebendo.


Você tocou boa parte das músicas do disco novo ao vivo, e com alguns fomatos distintos de formação de banda. Como foi o processo pra "fechar" os arranjos para o disco. E em relação as letras? Costumava ser a última coisa que você concentrava o esforço antes de gravar. Como foi agora? Teve muita mudança?


Foi do mesmo jeito de sempre. Eu exerço uma cobrança gigantesca em mim mesmo no que diz respeito às letras. Na verdade, em todos os aspectos da minha vida, mas nisso ainda mais. Então eu sempre espero até o último minuto, torcendo para que uma ideia maravilhosa apareça antes de eu fechar a música. Naquele show do CCJ (Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, ocorrido em maio de 2012), por exemplo , meia hora antes de subirmos no palco eu estava no camarim modificando as letras das músicas que iriamos apresentar ali pela primeira vez. Sobre os arranjos, foi tudo feito entre o Renato, o Babalu e eu. Quando fomos gravar, nossas partes (bateria, guitarras e violão) já estavam completamente definidas. O baixo, naquela altura dos acontecimentos, era um problema. Se não aparecesse ninguém para fazer essa parte, eu teria que gravar, o que eu não tava nem um pouco afim de fazer. Por sorte, na época da gravação acabaram aparecendo o Adriano e o Molinari, que cuidaram perfeitamente disso.



Ainda sobre "pronto pra morrer", lembro ao ouvi-la pela primeira vez no estúdio e desacreditar na urgência dela. Ouvi umas três vezes seguidas antes de continuar escutar o resto. hahaha. Se enquadra tanto no momento meio paranóico que sp vive: arrastão de prédio, guerra de classes com luva de pelica... um mais monte de coisa no meio. Como foi que essa letra apareceu?


Putz, engraçado você fazer essa observação. Outro dia eu tava ouvindo o disco e pensando "cara, é muito óbvio que quem fez isso mora em São Paulo". Não só o teor dessa música específica, mas também "Guilhotinesco", "Vida com V maiúsculo, vida com v minúsculo", o fim de "Eu sonho acordado"... porra, o som que encerra o disco é praticamente o barulho que vem das ruas e que invade a minha casa do momento que eu acordo ao instante que eu vou dormir, só colocado de uma maneira diferente.


Ia fazer essa observação sobre "Eu sonho acordado". É contemplativa de um jeito totalmente parado no trânsito olhando pra janela passando calor...


E "Pronto pra morrer" tem muito disso mesmo. Morando em São Paulo, seja em qual região for, mas creio que mais especificamente no centrão ou nas regiões mais periféricas, a cidade não te deixa esquecer do quão frágil a sua vida é. Você vê as pessoas acabando umas com as outras, sequestros relâmpago, pedintes a cada dois ou três metros, gente avançando com os carros em cima de todo mundo, motoqueiro morto na rua e o trânsito parado, todo mundo ficando embrutecido, sem se chocar com mais nada... você vê que essa mesma regra vale pra você, sabe?


Pelo menos, eu vejo. Não há um dia sequer que eu não pense na possibilidade de ter os meus dias encerrados prematuramente ou de perder alguém que eu amo muito por causa de uma merda assim. Paranóico, eu sei, mas é uma conseqüência de se viver num lugar como esse.


Pensando nisso, o disco ao mesmo tempo que soa "positivo', tem a morte rondando em várias músicas.


Eu enxergo como sentimentos paralelos. O fato de você encarar a morte como uma possibilidade real, inadiável, talvez até mesmo próxima, te faz querer fazer as coisas valerem a pena. Como se você passasse a viver nos seus próprios termos, sabe aquele lance de pessoas que descobrem que tem pouco tempo de vida e passam a fazer o que sempre quiseram, a dar de ombros pra convenções sociais e etc?


Uma visão exclusivamente tétrica disso é um pouco simplória, eu acho. Em termos gerais, é uma ideia meio que "tá, eu tô aqui, não vou durar pra sempre. Mesmo que eu sobreviva a todos os perigos que a gente enfrenta cotidianamente, logo eu vou estar velho, debilitado, me sentindo ultrapassado e fora do meu tempo. E aí, como eu vou ser lembrado? O que eu terei feito? Quantos arrependimentos eu vou carregar? É melhor fazer o que eu quero e tentar fazer da vida a melhor possível".


Falando assim soa até meio bobo, mas foi um pensamento com o qual eu convivi muito durante a época em que escrevi essas músicas.




[caption id="attachment_17185" align="aligncenter" width="585"]Jair Naves e banda por Lane Firmo[/caption]

O final de "Covil de Cobras" tem disso. Um troço meio libertador...


Pois é, você definiu bem. É um pensamento libertador. Tem muito de libertação nessas constatações todas sobre o passar do tempo, a fragilidade da existência e etc.


Você consegue medir mais o menos o tempo em que te caiu essa ficha? Minha primeira impressão tua em que te via afastado de insegurança foi em "Um Passo por Vez". 


Realmente, tudo o que aconteceu desde que eu me lancei como "artista solo" reforçou muito a minha fé em mim mesmo. E em "Um passo por vez" isso tá bem claro. Assim como eu acho que nesse disco também, em versos como "Eu não vejo em mim nenhum medo", "Mesmo com o coração partido, amargamente desiludido, eu preservo a gana de vencer", "Que seja só eu contra mil"...


E é uma música que já ouvi você dizer em algum show ser triste , e me soa positiva pra caramba. Lembro de ter ficado feliz por você. hahaha


Hahahah... não sei, eu disse isso? Putz, preciso aprender a tomar mais cuidado com as coisas que eu digo durante os shows. Tá na hora de aprender. Bom, se há alguma coisa de triste nessa música, é a despedida de coisas e pessoas às quais você tá apegado, mesmo que elas sejam nocivas. Mas não acho uma música triste, é uma das mais bonitas e encorajadoras que eu já fiz. Desconsidera essa merda que eu falei, hahah...


E é curioso no decorrer da tua carreira, principalmente no quesito "visões exclusivamente tétricas" da coisa, é que parecia que com o Ludovic a coisa pesava demais pra esse lado. Ao mesmo tempo que pra plateia era libertador, meio que te colocavam numa coleira artisticamente, não? E foi engraçado no show acústico do CCJ quando você tocou "Você sempre terá alguém a seus pés", a reação da plateia foi de segurar a respiração, parar pra pensar no que estavam ouvindo, e (bem depois) aplaudir, de inicio timidamente e depois aquele escândalo. Me pareceu quase "respeitoso" por parte deles pensar que iriam te incomodar de ficarem felizes por voce tocar aquilo. As pessoas que te acompanham direto nessa fase demonstram bastante isso...


Ah sim, na época do Ludovic era bem incômodo. Continua sendo, porque acho que as pessoas podem perder uma beleza que existe nas músicas fazendo essa leitura mais rasteira. Mas eu aprendi que não tenho como controlar a interpretação que as pessoas vão dar ao que eu canto ou a como eu me porto nos shows. Sei que as músicas trazem imagens fortes, sei que os shows daquela época tinham seus momentos de total descontrole... é um risco que se corre.


Isso acontece porque eu fiz questão de encerrar o capítulo Ludovic quando lancei o Araguari. Nem sequer mencionava o nome da banda nos releases, dava respostas breves quando tocavam no assunto, reagia de forma pouco amistosa quando pediam pra que eu tocasse as músicas velhas. Foi a maneira que eu encontrei de me firmar com o novo trabalho. Eu me sentiria patético se adotasse essa nostalgia tão precoce, de um negócio que mal tinha acabado de se encerrar. E queria mostrar que eu também era capaz de outras coisas. Durante esse tempo, senti que evoluí. Meu interesse se voltou pra outros tipos de música. Foi realmente como se uma fase da minha vida tivesse se encerrado pra dar lugar a outra. Assim como acontece com os relacionamentos, os empregos, as sociedades, enfim, todos os ciclos que a gente vive.


Ainda sobre coleiras artísticas, tem vários trabalhos solos saindo atualmente, e vários desses caras adotando formações não "estáveis", e tem até nome pra isso: FORMAÇÃO FLUIDA. hahaha


Hahahah...


Enfim, como isso tem funcionado pra você? A transição de integrantes numa banda sempre me pareceu um saco.


Ainda é estranho me ver como "artista solo", pra dizer a verdade. Estive em bandas a vida inteira, meio que só sei trabalhar desse jeito. E acho que funciona melhor quando é um grupo de pessoas que tocam juntas durante muito tempo. O Bruce Springsteen e a banda dele são um exemplo disso. E eu realmente valorizo muito os músicos que tocam comigo. Sempre valorizei, cada um dos que passaram pelas minhas bandas. Eles contribuem demais, compram a causa, enfim, são fundamentais. Mas esse lance de troca de integrantes é uma merda mesmo. Sempre convivi com isso. No Ludovic, em oito anos tivemos inúmeras formações. Foi até uma coisa que me motivou a lançar músicas com o meu próprio nome. Já que eu sei que a única pessoa com quem eu sempre vou poder contar nisso sou eu mesmo, que seja assim. Pelo menos foi o que eu pensei na época.


Jair Naves


"As pessoas vêm e vão, hoje eu tenho essa convicção"


Não era bem sobre isso, mas é, se aplica também, hahahah...


Joguei essa pois quero saber sobre essa música mesmo. hehehe


Essa foi um dos maiores desafios em estúdio na minha vida.


A pergunta era: QUE INTRO É ESSA? Você gravou voz/violão tudo junto, como foi?


Fizemos a primeira parte toda só o Renato, tocando o violão de nylon, e eu. Sem metrônomo, sem nada que nos guiasse, enfim, todo mundo tateando as paredes pra tentar chegar a algum lugar. Já começou de um jeito meio ruim porque, a princípio, era pra ser eu tocando o violão. Mas o meu jeito era muito sujo, na pré-produção já ficou claro que não ia funcionar do jeito que a gente queria. Então tive que passar nota por nota, compasso por compasso pro Renato adaptar pro violão de nylon.


Putz


O que levou muito tempo, e exigiu uma paciência enorme dele. Passada essa etapa, pegamos uma noite inteira no estúdio só pra violão e guia de voz dessa música. O clima era "quem vai jogar a toalha primeiro?". Quando conseguimos o acertar o violão com a entrada posterior da banda, deu pra sentir que daria tudo certo.


E tem um "riff" no final dela...


É, tem várias frases que se cruzam ali. E o Fernando (Sanchez, produtor do disco) teve uma importância bem grande nisso tudo também. Pedi pra ele que não deixássemos a música com cara de coisa de trovador, sabe? A distorção que ele colocou na voz mudou tudo. É uma das que mais me emocionam nesse disco. Fico feliz que a gente não tenha desistido dela.


Essa era a música que tinha a piada no estúdio sobre estar numa posição no disco em que numa regra DA INDUSTRIA destinada a pior musica do album?


Hahahahahaha... você tava nesse dia?


Sim, com o SOL.


Então, comentamos sobre isso, de alguém ter falado que, segundo as normas dos executivos de gravadora ou sei lá de quem, a escolha da ordem do repertório funcionava da seguinte forma: as três melhores músicas sempre eram a primeira do lado A, a primeira do lado B e a última do disco, pra que a pessoa tivesse vontade de ouvir tudo outra vez. E a pior era sempre a penúltima do lado B. Seja como for, não foi bem algo que eu levei em consideração quando definimos a ordem. Ela é muito crua. É a faixa mais orgânica, em que dá pra ouvir tudo. A respiração do Renato, os barulhos do pedal do piano... gosto disso.



No contexto geral ela quebra uma parte pesada no disco e faz uma ponte para um final épico e o tal "riff" que mencionei funciona demais com a intro de "Eu sonho acordado".


Pô, Cleiton. Tá foda. Eu perguntei pro pessoal "mas vocês não acham que o fim dessa tá muito parecido com o começo da seguinte?", e eles me convenceram que não, que ninguém ia perceber. Aí vem você e solta essa. hahahaha


Hahahah...


Falando sério agora, tem esse ponto em comum entre elas mesmo. Foi uma coincidência feliz.


O disco todo soa orgânico. Prestando atenção, dá pra sacar um monte de "duelo" batera-guitarra, batera-voz, e por ai vai.? É muita jam? Tem um pouco de pensado na hora de compor?


Tem um pouco, mas a gente ensaiou muito pra fazer esse disco. O Babalu e o Renato colocaram muita coisa de si nos arranjos. Enriqueceram demais as músicas.


Também foi o disco onde você investiu mais tempo em estudio. Chegou a mudar arranjo no meio do processo? algo drastico assim? Teve alguma bateção de cabeça fora "a meu ver"?


Nós três ficamos uns seis, sete meses só ensaiando esse repertório, quase sem fazer show. Deu pra criar uma unidade legal. Acho que não alteramos nada de arranjo no processo de gravação. Teve umas mudanças de letras e de linhas de voz, mas a parte instrumental tava toda muito bem resolvida. Só o baixo que não, teve músicas que o Molinari foi gravar sem nunca ter ouvido antes. O que foi impressionante, porque em meia hora ele criava umas frases que deixava todo mundo de boca aberta.


Quais?


"Pronto para morrer" foi uma. "Covil de Cobras" também. Essa última foi inacreditável que ele tenha criado ali. Em seis meses não consegui pensar naquilo. Só mostra o quanto ele é talentoso.




[caption id="attachment_17187" align="aligncenter" width="585"]Jair Naves por Lane Firmo[/caption]

"Guilhotinesco" tem uma linha massa.


Essa música tem o arranjo que mais me deixa feliz. Tá tudo muito bem encaixado: bateria, baixo, as guitarras, o vibrafone... é uma de que eu gosto muito. Essa e "Eu sonho acordado". Talvez sejam as duas melhores gravações em que eu já estive envolvido.


"No fim da ladeira, entre vielas tortuosas" é pesada. Escuta-la na sequencia de silenciosa é desesperador. E tem um tom contemplativo sufocante que mencionei...


Minha ideia para esse disco era dar um tom mais, hã, "político" mesmo. Eu não tinha a intenção de gravar outras músicas sobre amores frustrados ou coisa assim. Mas, como eu disse anteriormente, sempre deixo pra escrever as letras em cima da hora de gravar. E aí aconteceram coisas que me inspiraram a fazer essa música. "As pessoas vem e vão", aquela história... Eu gosto dela, de qualquer forma. E tem o lance todo da sanfona, de dar uma sonoridade que eu nunca tinha abordado antes. No estúdio tava todo mundo meio cético com a ideia da sanfona, a princípio. Inclusive eu, mesmo tendo sido ideia minha. Mas na primeira nota que a Cimara tocou, todo mundo se rendeu à ideia.


Nessa de explorar sonoridades você teve que limar alguma coisa, ou foi algo mais pontual?


Putz, deixa eu pensar... O piano de uma música ficou de fora na mixagem. De resto, aproveitamos tudo. Fizemos poucas experiências em estúdio, chegamos com as ideias bem definidas. Essa foi a mais radical. Felizmente deu certo.


Não tem só a sanfona de instrumento que você não costuma usar ao vivo no álbum. Alias, ao vivo, como vai ser?


Putz, vai sem sanfona mesmo. E sem piano, quando não puder ter. É algo que já estavamos fazendo no fim da turnê do EP, quando o Alê não pôde mais tocar conosco.


A formação ao vivo será a do clipe?


Acho que sim. Espero que sim, aliás. No show do CCJ devemos ter todo mundo que gravou, mas vai ser uma ocasião especial.


Sobre o carater "politico" do disco, vamos lá... Você fala bastante sobre maturidade durante o disco, e me pareceu apontar uma certa infantilidade no comportamento das pessoas... algo assim...


Sério que você teve essa impressão?


Sim, o disco soa punk. Tem uns dedos na cara. hahaha


Pô, que pena. Não queria dar um ar muito acusatório às músicas. Mas é, acho que não teve jeito, hahahah... Meu desafio maior era ser político sem ser panfletário, sem falar de inimigos maiores ou coisas assim. Queria falar de pequenas coisas do cotidiano com as quais a gente acaba se conformando, deixando de questionar, incorporando como parte da vida. E nessas, acabou sobrando pras pessoas com quem a gente convive diretamente. Chefes, vizinhos, pessoas na rua, etc... O que tá lá em cima é só uma reprodução da mentalidade vigente entre as pessoas comuns.



E o que tá em "Covil de Cobras"? Quem é esse europeu filho da puta? hahaha


Provincianismo. É uma das coisas, o sentimento de colônia mesmo, de deslumbre com estrangeiros vindos das partes supostamente "civilizadas" do mundo. Não quero parecer xenófobo com isso, mas é só uma reação à, sei lá, "xenofilia" que é muito escancarada. Mesmo nesse meio de música, como você certamente já deve ter presenciado milhões de vezes mas isso é só uma pequena parte do que fala a letra, que também trata de alienação, indiferença, ao valor que o dinheiro passou a ter nas relações humanas... eu devia estar bem descontente quando escrevi essa. Não sei, posso estar sendo ranzinza demais nessa. E tem toda a questão do envelhecimento, de você notar que não é mais tão jovem também. Que até tem a ver com o que estavamos falando antes.


O disco me soou urbano não de uma forma "a rua é nois". A história do "tá na cara que esse cara mora em SP", só que num outro contexto, do cara comum, anonimo. Tratou de um outro tipo de inadequação...


Quando eu saio de São Paulo, fica muito claro o quanto eu sou urbano.


É que em "Araguari" maluco pensou que fosse REGIONAL.


Hahahah... a reação com Araguari foi bem maluca mesmo. Taí um disco que eu tava preparado pra que nego odiasse. Mesmo vocês terem se interessado em lançar foi uma surpresa das maiores.



METALEIROS


Não por isso. Mas foi um disco que eu fiz sozinho com ajuda de dois ou três amigos, que só apareceram no estúdio pra gravar rapidinho. Foi o disco que eu mais fiz pra mim mesmo na vida, meio que pra provar do que eu era capaz, pra ver se eu conseguia ir além da sombra do Ludovic. Só tive essa certeza quando terminei "Silenciosa".


E eu achava que era a única música de que as pessoas poderiam gostar. Meu pensamento era "putz, quem vai se interessar por um disco com o nome de uma desconhecida do interior?" A cidade tem um valor pessoal enorme pra mim, claro. Mas meu pensamento era de alguém que lança um disco chamado, sei lá, "Santa Rita do Passa Quatro".Sabe? Quem vai se identificar com isso, a não ser os moradores da própria cidade?


hahaha. Fora o engano recorrente: ARAGUAIA


É, putz, Araguaia! Hahahahah... Depois, como vieram a me dizer, descobri que todo mundo tem sua "Araguari" particular.


Lembro de uns shows do Ludovic onde você levava o violão e desencanava pra tocar as músicas acústicas. Depois passou a toca-las...


Mas então, massa você tocar nesse ponto do violão nos shows do Ludovic. Se o Ludovic tivesse lançado um terceiro disco, fatalmente ia ter ainda mais coisas nessa onda. Talvez até tivesse um pouco a ver com o EP, não sei. Foi uma coisa natural, que já vinha acontecendo. Com o fim da banda e o início de uma nova etapa, eu acabei acentuando isso.


"Vida com V Maiusculo..." é uma das que estão no set desde o primeiro show. Ela dá esse vislumbre


Eu tinha um rascunho dessa música pro terceiro disco do Ludovic que cogitamos gravar em 2008. Quando a banda acabou, foi a primeira que eu gravei em estúdio, sozinho, tocando baixo, violão e guitarra. Não entrou no "Araguari" porque tava claro que ainda precisava amadurecer mais. Mas é a mais antiga de todas.


A mais recente que entrou foi "Maria lucia..." ou "Pronto pra morrer"?


"Pronto para morrer". Começamos a gravar o disco numa segunda. Fiz a música toda num sábado de manhã. Aliás, fiz a música pra tocar naquele show do Cebola, sabe (Jair refere-se ao show ocorrido dias antes de entrar em estúdio, na Hotel Tees em SP)? Saiu super rápido, o que é raro pra mim. Como tinha ensaio com a banda antes do show, mostrei a música, fizemos o arranjo e já gravamos.


Ah, sim. parece que TEMOS IMAGENS


Hahahahahah... é verdade, há imagens disso.


Araguari tem seu pai, Um Passo Por Vez, seu irmão, o novo álbum, sua mãe. Fecha-se um ciclo?


Ah, deixa eu aproveitar a brecha pra elucidar uma coisa: o lance do irmão é ficcional. Houve um exagero enorme na medida de tempo ali. Posto isso, é, ficarão faltando parentes agora. Vou começar a buscar os primos que eu não vejo faz tempo, hahaha...


Tipo o Sandro Bongiovi, que matava um parente novo todo show pra cantar "Always". Não tinha um papo assim?


Sim. Contei um irmão, dois primos e um parente da namorada.


Haahahahah...




[caption id="attachment_17188" align="aligncenter" width="426"]Jair Naves por Lane Firmo[/caption]

Então partimos para: ESPIRITUALIDADE. Tem bastante alusão a ela (ou a corda bamba entre a falta dela) que também havia de leve em Araguari. Você anda pensando muito em interpretar esse sinais "divinos", ou coisa do tipo. Andas supersticioso?


A questão "espiritualidade" é pesada. Para mim é o maior mistério do universo. E até tem a ver com todo o lance de morte, de querer saber se é o fim mesmo, se existe algo depois disso... Não tenho nenhuma religião definida, faço minha própria interpretação do assunto e uso o que me parece sensato, confortável ou acolhedor de cada corrente que eu conheço. Mas é sem dúvida um tópico perturbador pra mim. Se é que existe sensatez nisso...


E você tem tido tempo pra ler? Teve algo de narrativa que te ajudou a escrever? Tem uns versos no disco que eu acho que não vão caber na música... mas no final rola. hahaha


Sim, sem dúvida. Meio pedante dizer "ah, a literatura é uma grande influência no meu trabalho", me sinto meio idiota falando isso, mas acaba sendo verdade. O que me fode, no fim das contas, porque é outra linguagem, outra métrica, outra abordagem. Pra adaptar isso pra letra de música é um trabalho e tanto. Nesse disco eu tive que quebrar a cabeça em diversas vezes pra conseguir encaixar o texto nas músicas sem que ficasse parecendo forçado demais.


Alguma particularmente difícil?


"Maria Lúcia..." foi bem difícil. Tanto é que tem pequenas dobras de voz ali, se você prestar atenção. E tive que cortar uns trechos de "Poucas Palavras Bastam" também. Mas as outras foram mais fáceis, já chegaram mais resolvidas.


"Poucas palavras bastam" também era uma musica que você tocava ao vivo faz tempo, doeu limar a musica?


Essa a gente toca desde o fim do ano passado, mas eram sempre versões com letras, hã... "em construção".


FLUIDAS


Hahahahah... é, na base do flow do MC. A versão definitiva só apareceu perto do fim da pré mesmo.


O disco todo é bastante "visual"


E essa característica de ser visual também tem a ver com a busca por metáforas, pequenas histórias, coisas que demonstrassem o que eu tava sentindo sem que eu precisasse transformar em palavras muito diretamente.


E nesse momento você ta preparando o que, alem de esperar o disco sair?


Estamos retomando os ensaios e tentando agendar uma turnê pro disco. Depois que terminamos a etapa de estúdio, ficamos cuidando cada um de sua vida. Tá na hora de voltar as atenções pro show, montar um repertório com essas músicas novas. Uma coisa que eu pretendo fazer é aproveitar o embalo e continuar compondo. Não quero que demore muito pra registrarmos material novo. Acabo sendo mais preguiçoso do que eu deveria para fazer letras e músicas novas. Acho um momento bom pra tentar combater isso.


Considerações finais e algo que acha que ficou de fora que esquecemos de falar?


Acho que era isso. Bom conversar com alguém que faz parte da coisa toda. Obrigado pela paciência e por me aturar até essa hora.


Valeu por matar nossa curiosidade mórbida.



O show no CCJ vai ser no mesmo lugar que rolou o acústico?


Vai, só que dessa vez as cadeiras não serão colocadas no palco. Vai ser pra mais gente, capacidade de 300 pessoas, vamos tentar encher aquela bagaça lá.


****


"E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas" foi disponibilizado para download dia 18 de setembro, e a versão física será lançada no show de lançamento do álbum (se não der merda na fábrica), que rola 14 de outubro no CCJ-Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso que fica na Av. Deputado Emílio Carlos, 3.641, Vila Nova Cachoeirinha.


*as fotos usadas com créditos de Lane Firmo foram originalmente feitas para a entrevista de Paulo Marcondes pra Revista +Soma.

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