O orientalismo como gênero em 'Habibi'

por - 14:08

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O enorme leque de possibilidades narrativas presentes nas HQs resultou no surgimento de novos gêneros, tendo como exemplo o jornalismo em quadrinhos de Joe Sacco – criador do estilo. Em obras como Palestina ou Notas Sobre Gaza, ele elaborou verdadeiras reportagens quadro a quadro sobre os conflitos entre israelenses e palestinos no Oriente Médio a partir de excelente apuração in loco. Esse mesmo orientalismo presente em livros como os de Sacco foi mote criativo para o aclamado quadrinista norte-americano Craig Thompson em seu mais recente trabalho, Habibi. No entanto, ao contrário da abordagem jornalística adotada por Sacco em sua bibliografia, Thompson criou uma obra que se apropria do mesmo universo para tratar de outros assuntos. Habibi é uma fábula ambientada no mundo islâmico, uma história de amor e sobrevivência entre dois escravos órfãos, Zam e Dodola, que crescem juntos num navio naufragado na areia do deserto, em meio ao nada.


Assim como em Retalhos – primeira publicação do autor sobre sua infância cristã conservadora –, Thompson utiliza a religião como ponto de partida para promover o encontro entre ocidente e oriente. Recorrendo ao Corão e às Mil e uma noites, ele ressalta passagens do livro sagrado que fazem referência a personagens bíblicos, como a história de Isaque, Abraão e Ismael. Vencedor do Eisner Awards 2012 na categoria melhor escritor/ilustrador, Habibi dividiu opiniões. Certos críticos a entenderam como uma tentativa de humanizar a cultura árabe através de uma leitura ocidental e ingênua. Thompson, que começou a obra no pós-11/9, admitiu, em entrevista ao site Poptones, que realmente quis tratar o Orientalismo como um gênero “assim como caubóis e índios" que não é a representação precisa do oeste norte-americano, "mas sim um gênero, um conto de fadas.” Polêmicas à parte, o fato é que a crítica especializada teceu elogios rasgados à graphic novel, resultado de seis anos de trabalhos que envolveu uma viagem ao Marrocos, onde o autor teve contato direto com muçulmanos. “Não era exatamente uma viagem de pesquisa, eu não estava fazendo um trabalho de documentação, como Joe Sacco faz, mas foi uma ótima oportunidade de conhecer toda a beleza do lugar e ter experiências malucas como andar de camelo no meio do deserto do Saara”, declarou à Poptones.


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Habibi é um épico de 672 páginas em preto e branco que, apesar de se basear na cultura árabe, não faz referência a nenhum país em específico. E talvez aí more uma de suas principais qualidades: a recusa em centrar sua crítica no islamismo. Por trás do romance entre Zam e Dodola mora uma tentativa bem sucedida de fugir dos clichês e estereótipos relacionados à religião, o que poderia resultar em um discurso de islamofobia. Thompson vai mais fundo e investiga a barbárie humana e a possibilidade do amor sobreviver em meio a um ambiente caótico, violento e opressor (Habibi significa “meu amado” em árabe). Apesar do rótulo de “fábula”, a obra assusta pelo realismo trabalhado. Estupro, pedofilia, castração e violência doméstica são apenas alguns dos temas abordados pelo livro, o que pode impactar os leitores menos maduros. No que diz respeito ao seu aspecto gráfico, Habibi impressiona por sua qualidade, nos mínimos detalhes: o estilo psicodélico já característico do autor, as referências às pinturas orientalizadas do século 19, ornamentadas de arabescos, além da estética árabe e seus padrões geométricos, sua caligrafia, arquitetura e design.


* Texto publicado no site da Continente

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