"Pitacos sobre perspectivas"

por - 14:59

cronica vencedor perdedor


Desde muito pequenos aprendemos que enquanto um estiver mais fodido que outro, tudo estará bem. Lembra das vezes em que sua mãe falou pra você comer a comida no prato porque tinha gente na África passando fome? Pois é, este foi o jeito que ela deu pra mostrar que você tem oportunidades que outros não têm. Não que eu esteja tentando culpar sua coroa por te ensinar a arte de apreciar o sofrimento alheio. Longe disso. Mamães nunca terão culpa de nada, a não ser que a acusação seja a de amar demais suas crias. Aí sim todas merecem severas punições, porém, acredito que nós mesmos sejamos as punições perfeitas para elas. Quem mandou não embrulhar o salame pra viagem?


Pensei mais nesta questão num fim de semana desses aí. Nada pra fazer, poucas expectativas, estava meio naquela pegada de sair de casa e ver o que acontecia, na esperança de que algo miraculoso ou pelo menos diferente tivesse início. Mas não sem antes dar uma passadinha no mercado. Nenhuma revolução toma conta sem uma passadinha na seção de materiais de limpeza, ou você acha que bombas napalm são feitas de silvertape e isopor? Mas enfim, enquanto esperava minha vez no caixa, vejo uma senhora terminando de embalar suas compras e soltar um gentil “obrigada e bom fim de semana”. Assim que a senhora sai, ouço a caixa murmurar “seria bom se não trabalhasse fim de semana”. Touché!


Aliás, nada melhor que a televisão para nos lembrar deste tipo de situação. Me sinto meio mal em dizer, mas fico incomodado quando vejo programas de televisão que mostram pessoas com dificuldades financeiras, físicas, profissionais, intelectuais, culturais e etc. Estes programas exaltam a meritocracia de forma absurda. É como se a superação das diferenças e dificuldades fossem uma questão de merecimento e força de vontade. Assim, automaticamente, eles admitem que da mesma forma que tem gente que consegue, tem gente que não consegue. E isso por não tentar o suficiente ou por simplesmente não ter sorte. Acho que “sorte” ou “mérito” não são as palavras mais adequadas pra tratar a situação. Talvez “adaptação”, “recursos disponíveis” ou “acessibilidade aos requisitos desejados” sejam levemente mais adequados. Mas isso exige mais análise.


Talvez seja um pensamento semi-cruel, mas é estranho pensar que para que uns tenham sorte, outros tenham que ter azar. Ou que para existir a felicidade de uns, outros tenham que ser infelizes. Claro, não que tenhamos culpa dos caminhos que cada um de nós acaba tomando, afinal, estamos apenas tentando sobreviver. Até me sentiria a Paris Hilton no auge da arrogância se não pensasse que os “derrotados” possuem uma importância maior que os “vitoriosos”, mas sou inclinado a pensar metafisicamente: a única coisa que nos diferencia dos outros animais é a propaganda, sendo assim, sempre seja humilde e beba Pepsi.


cronica vencedor perdedor

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