#TerçaGringa: o som inclassificável do Belong

por - 11:07

Belong - Common Era


Há uma diferença entre flertar e namorar uma música. Assim como são os relacionamentos pessoais, a beleza precisa estar presente, explícita ou não, com a resplandecente objetividade ou com a sutileza romântica e infinita da subjetividade. É por isso que ouvimos esse monte de bandas punks, não raramente tão ruins a ponto de serem quase incômodas aos nossos ouvidos. Mas, bem ali, embaixo daquela indecorosa carapaça, conseguimos vislumbrar aquela beleza oculta, que nos leva às vontades menos manifestas, que nos presenteia com o ímpeto da evolução das nossas faculdades humanas.


Essa beleza pode ser perigosa: pode parecer imprescindível, como é para alguns mosheiros trintões. Mas a profundidade dessa carga relativa à alma, para o punk, não transcende a maioridade: é como se, quando fizéssemos dezoito anos (para alguns isso se estende um pouco mais), não pudéssemos mais entrar na terra do nunca, apesar de ela nos remeter aos mais nostálgicos flashbacks, à mágica do descobrimento do mundo com olhar infantil e às mamas maternas, das quais passamos os restos de nossas vidas atrás. A estética está aí, e não está desconexa do conteúdo interior, tampouco é inversamente proporcional a ele, como uma análise pouco apurada pode sugerir. A limitação ao universo do mal elaborado é pobre, e pode nos privar de ser e entender o que é humanidade em sua plenitude.


O Belong, dupla oriunda de Nova Orleans, faz um som experimental, meio shoegaze, meio eletrônico, meio muito legal. O primeiro trabalho da banda, o álbum October Language, foi gravado em 2004, mas foi lançado somente em 2006. O trabalho mais recente da dupla é o álbum Common Era, que saiu no ano passado. O primeiro disco da banda é bom, mas não passa nem perto de proporcionar a mesma empolgação a qual senti escutando o Common Era pela primeira vez. Eu não sei se eu sou facilmente impressionável, o que não é improvável, ou se o disco realmente é muito bom.


Em Common Era, o Belong nos mostra o que é humanidade de fato: materialmente e espiritualmente perfeita. Como não sou perito em música, minha experiência é “meramente” sensorial, o que pesa na minha argumentação, mas não anula a qualidade da minha percepção musical. A profundeza espiritual do disco leva a um estado contemplativo e minimalista. Você pode ouvir o quão alto puder – a música traz consigo a tranqüilidade peculiar do silêncio. Cada detalhe desse “barulho silencioso” parece revelar uma selva virgem diferente a ser desbravada, um infinito sensorial exótico e desconhecido. Common Era é a paz da mesa farta, extravagante e decorada; é a tarde ociosa, que possibilita a observação do movimento dos raios de sol que trespassam a janela; é o cheiro e frutas frescas e formosas, geladas e constituindo uma colorida salada de frutas; é aquele ideal de mulher linda e agradável em todos os sentidos, que só existe nos filmes, que dá bola pra você, mesmo você sendo um otário. É como se por um momento, ao ouvir o disco com compenetração, você pudesse viajar e pertencer a um lugar bonito, onde as coisas funcionam. Se você não entendeu, vai ouvir Black Flag.


BELONG - DISCOS


*O texto foi escrito por Guilherme Escapacherri.

Você também pode gostar

0 comentários