Croniquinha de Pessoa bêbado

por - 16:14


Éramos três sentados numa mesa de bar. Conversávamos sobre a vida, como ia a faculdade, nossos novos e velhos amores… conversas cotidianas de botequim.


Entre uma risada e outra, nos aparece, completamente bêbado e tropeçando pelas cadeiras, um homem ligeiramente bem vestido, de terno e gravata, que trata logo de sentar-se a nossa mesa. Pede-nos um cigarro e nos encara como se fossemos todos seus amigos de infância que já o esperavam, e sua aparição repentina, completamente natural. Ele põe uma garrafa sobre a mesa, de onde toma repetidos goles enquanto disfarçamos nossa admiração pelo sujeito, cheia até a metade de alguma substância incolor e, julgando pelo seu estado, possivelmente tóxica. Acende o filtro e acaba por jogar o cigarro fora, maldizendo essas marcas de cigarro moderninhas que nem se comparam às de seu tempo (ele parecia ter uns trinta anos, se muito).


Nós três, iniciando uma conversa com a comum simpatia que se dá aos bêbados e aos loucos, perguntávamos sobre sua vida. Sofrida! Conta-nos que foi abandonado pela mulher há pouco, e desde então seus dias se resumem a andar por aí, com o dinheiro que lhe resta dos últimos salários de seu emprego como professor – do qual provavelmente já foi demitido -, bebendo e, pelo visto, procurando conversa com estranhos quaisquer.


Eduardo, um de meus amigos, comenta que a figura lembra-lhe O Grande Mentecapto de Fernando Sabino. Todos riem, incluindo o bêbado, e inicia-se uma acalorada conversa sobre literatura e o novato do grupo mostra-se profundo conhecedor dos clássicos. Diz que leu Guerra e Paz três vezes e afirma, com certeza, que é o melhor romance já escrito. Disparado o melhor livro de Dostoiévski. Os brasileiros, então! Como esquecer José de Alencar e seu imortal Brás Cubas? Uma pena que o escritor tenha se tornado político*. Então ele se mostra bastante triste, quando noticiamos, tentando segurar a risada, que o tal político havia falecido há alguns dias atrás. Mas não imaginávamos que a notícia o abalaria tanto! Ele levantou e perguntou, para todos e para ninguém, em um tom de profunda melancolia “porque tudo é tão triste? Até os imortais estão morrendo nos dias de hoje!” e saiu do bar, em passos trôpegos, praguejando a vida entre lágrimas, esquecendo-se até de sua garrafa que continuava sobre a mesa.


Curioso, peguei a garrafa e procurei sentir o cheiro. Não havia cheiro algum. Tomei um gole e dei-me a rir quando descobri que a tal substância não era tóxica, mas apenas água. Logo em seguida me veio uns versinhos à cabeça, talvez os únicos que pudessem descrever tal Pessoa:


O bêbado é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é álcool
a água que não é ardente.
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Crônica escrita poucos dias após a morte do político brasileiro José Alencar

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