É, até parece que o amor não deu

por - 11:06

materia pagode russo


Todo mundo é fissurado nessas teorias de conspiração, que apesar de infundadas, podem até soar plausíveis em alguns aspectos. Quem nunca ouviu falar que a AIDS foi criada em laboratório, que o homem nunca foi à Lua ou que os gorilas são muito mais inteligentes do que se pensa e eles têm uma cidade futurista no coração da África? Os hoaxs estão por aí, é só escolher o seu e correr para o abraço. E se tratando de fofoquinhas relacionadas à música, vamos de “Elvis e Tupac não estão mortos” a “Paul McCartney foi substituído por um roceiro de Sorocaba”. Mas eu prefiro uma história mais cabulosa.


A este ponto, você já deve saber como nós do Alt (ou alguns de nós, incluindo eu mesmo) gostamos dos anos 90 e de grande parte do que foi produzido musicalmente nesta maravilhosa década, especialmente aqui no Brasil. Alguns gêneros musicais se sobressaíram mais que outros para as massas e não por isso deixamos de gostar deles. Sim, estou falando do bom e velho pagode. Mas de tudo que a indústria fonográfica nacional nos proporcionou, você não acha estranho que o pagode dos anos 90 tenha simplesmente desaparecido como os dinossauros ou como os eleitores do Russomanno? Eu tenho uma pequena teoria da conspiração sobre o assunto.


Tudo começou na famigerada década, onde reinavam os chinelos de couro preto, camisa com o botão de cima aberto, terno colorido e uma decepção amorosa para contar ao som de cavacos e repiques. O gênero era um sucesso, tal como até hoje é por aí pelo mundão, e movimentava muito dinheiro para as gravadoras e que firmou um mercado que hoje é ameaçado, mas que luta violentamente para continuar monopolizado por gêneros populares. Mas onde quero chegar constatando fatos aparentemente desconexos? Bem, basta olhar os números. O pagode sempre vendeu muito bem e as gravadoras sempre souberam disso, logo, exploravam seus contratados ao máximo com todo tipo de exposição legal, visando os contratos que tinham, ou seja, fazendo aparições em TV, rádio, tocando suas músicas (fazendo o uso do jabá, obviamente) e vendendo todo tipo de marketing relacionado aos contratados. Possivelmente a gravadora não ganhava 100% dos lucros, mas com certeza ganhava uma boa parte.




[caption id="attachment_17470" align="aligncenter" width="382"]materia pagode russo Os Travessos surgiram em 97 graças ao Arnaldo Sacomani, sabia?[/caption]

Com o fenômeno do pagode fervilhando o mercado, novas bandas começaram a surgir, na intenção de se tornarem a nova galinha dos ovos de ouro. Esta busca incessante por novos talentos acabou transcendendo os anos 90 e chegando ao começo dos anos 2000, onde a coisa tomou proporções absurdas. Porém, com isso, o desgaste do pagode começou a se evidenciar, fazendo com que alguns dos grupos tentassem inovar mais e outros grupos surgissem com características mais particulares que outros. A queda do pagode dos anos 90 era uma questão de tempo, mas foi aí que o próprio mercado fonográfico ajudou a afundar o porta-aviões que era o pagodão. As gravadoras possuíam boa parte dos direitos autorais de seus contratados e não hesitaram em compra-los dos próprios músicos pouco antes do estouro. Quando a onda do pagode estava se dissipando, não havia interesse em revitalizar os artistas, até porque a onda continuava com novos artistas. Sem o jabá, o pagode não tocava nas rádios, que por acaso são dominadas pelo jabá até hoje. O apelo popular foi a única coisa que manteve o pagode respirando, mas só isso não era suficiente. Na época.


Há uns anos, eu e nosso bom amigo Paulo Marcondes mantínhamos um blog de download chamado Dibarato Zoró (que na gíria noventista significava “o que é bom, maluco!”) onde postávamos todo tipo de som dos anos 90 e começo dos anos 2000 que encontrávamos disponível em nossos acervos e pela internet. Em um ano, conseguimos resgatar muita coisa bacana da época, trilhas sonoras de jogos de videogame (sobretudo do Super Nintendo e do Mega Drive) e ainda fazíamos mixtapes semanais com os “One Hit Wonders” da década. A ideia era bacana, mas fomos surpreendidos pelo dragão de comodo chamado mercado fonográfico. Todos os links caíram por conta dos direitos autorais mantidos pelas gravadoras e por conta da maldita da SOPA, que derrubou bons sites de armazenamento de dados. Mas não pensem que as grandes gravadoras nos venceram. Um dia, daremos a saudação do dedo médio ao mundo e voltaremos com tudo!


Basicamente é isso. O pagode morreu porque o dinheiro falou mais alto, direitos autorais foram vendidos e artistas ficaram desinteressantes para as gravadoras, que mantém os direitos de suas músicas e que só esperam um desavisado tocar algo num toca fitas pra acionar o ECAD e te aplicar multas absurdas por gostar de um tipo de som. Isso claro, se você tiver algum registro físico desta época. Em suma, o pagode hoje é como a ditadura militar. Há quem diga que ele nunca existiu, mas quem viveu naquela época sabe bem se aconteceu ou não. Comparação meio estranha, mas assim é rezada a lenda da década que mais valeu a pena e que hoje é lembrada com pura nostalgia. Ah, e lembrando: este texto não possui qualquer comprimisso com a verdade, visto que é uma puta teoria conspiratória, mas é algo para se pensar antes de dormir ou quando for lavar o cabelo.


Você também pode gostar

0 comentários